Vinte, vinte

É preciso controlar ambições e ultrapassar o medo. Nós somos responsáveis pelos vinte, vinte.

Muito pode mudar em dez anos. Basta recuarmos até janeiro de 2010. Steve Jobs ainda era CEO da Apple, o Facebook começava apenas o seu caminho, a Uber nem sequer estava disponível na App store, o Spotify ainda não tinha chegado aos Estados Unidos e o Tinder ou o TikTok nem sequer existiam. Isto para falar apenas em termos tecnológicos. Muito estava prestes a mudar.

A maioria das pequenas e médias empresas não investiam no digital, a maioria das marcas ignorava o poder dos consumidores, as forças extremistas na política não ocupavam lugar de destaque, o conflito na Síria preparava-se apenas para começar, não existiam mais de 2 milhões de migrantes a sair do Chile, a bolha imobiliária dos Estados Unidos era uma realidade inexistente, Lisboa ainda não estava no top das “capitais Europeias do turismo” e o Haiti estava prestes a sofrer uma catástrofe da qual dificilmente viria a recuperar.

Contudo, numa perspetiva otimista (mas não cega), acerca da realidade, a última década foi repleta de inovação e progresso (como nunca antes visto). Os cientistas foram capazes de converter todos os tipos de sangue, para tipo O (tipo de sangue universal para que qualquer um de nós o possa receber). Pela primeira vez, os astronautas foram capazes de registar a primeira fotografia de um buraco negro. Os progressos na luta contra o cancro salvaram vidas. O mundo tornou-se mais inclusivo com a legalização do casamento homossexual nos Estados Unidos. A Google permitiu que um homem cego “conduzisse” um protótipo de veículo autónomo em via pública. O acordo de Paris para as alterações climáticas foi assinado. Milhares de hashtags circularam pelas redes sociais para que a voz de mais cidadãos e minorias fosse ouvida: #MeToo, #Vote, #BlackLivesMatter. Mais crianças tiverem acesso a educação e cuidados de saúde.

E apesar de todos os aspetos negativos dos passados dez anos (com a mediatização e concretização do terrorismo, catástrofes ambientais sem precedentes e guerras mortíferas), se adotarmos uma perspetiva de longo prazo, a evolução da Humanidade é admirável (para o bem e para o mal).

Certamente, as histórias individuais adicionariam ainda mais profundidade a esta década (tal como adicionam a qualquer discussão). Com um mundo em que as escolhas e oportunidades aumentaram exponencialmente, aumentou a importância da comunidade. Na verdade, talvez seja esse o caminho que segue o capitalismo: uma evolução para a co-criação, responsabilidade social nas corporações, e importância de comunidade acima de outros valores. Mas como a análise seria longa, deixamos esse tema para outras “conversas”.

Muito mudou, de facto, em dez anos. Mas será este mundo mais tolerante? Estaremos a construir um mundo realmente mais inclusivo, ou a ignorar problemas de maior escala em discussões mais relativas? Como o mundo deve ser vivido de olhos postos no futuro, (nunca esquecendo o que aprendemos com o passado), a nossa reflexão é sobre o que podemos esperar dos vinte, vinte.

De todos os factos económicos de que já temos conhecimento, sabemos que estamos, passo a passo, a ficar mais saudáveis, mais seguros, mais ricos (apenas alguns!), e preocupados com o nosso corpo e com a nossa mente (ainda que este equilíbrio pareça cada vez mais utópico).

Todo este progresso deriva da capacidade extraordinária (e empática) do ser humano, de cooperar e encontrar soluções para os seus problemas. Graças ao instinto de perceções (mais do que de factos), focamo-nos em analisar o que acontece hoje e esquecemo-nos de que tudo é um produto da evolução. E como tal, o que podemos esperar dos vinte, vinte é também um produto da nossa contribuição.

Esta passagem de um “9” para um “0” não elimina todas as condições humanas naturais como a pobreza, a doença ou o conflito. Contudo, é importante perceber que num mundo que parece mais liberal, a nossa democracia está em risco. Não apenas com movimentos políticos como o de Donald Trump, não apenas com a manipulação da informação, não apenas com o politicamente correto a tirar lugar ao correto, mas também com um sentimento de revolta generalizado que parece não deixar espaço para os menos extremistas.

De todos os movimentos que surgem, o mundo parece apenas deixar possibilidade para estar “contra” ou a “favor”. Em todas as novas “trends”, as posições intermédias parecem ser alvo de crítica e julgamento. E temas que são tão relevantes e de impacto a nível pessoal e organizacional, parecem ser banalizados e reduzidos a escolhas de “sim” ou “não”. E ao aumentarmos a escolha parecemos reduzir a capacidade de escolher. E assim o extremismo deixa de ser apenas no que toca à escolha de um partido político, mas torna-se uma realidade no que toca à escolha de uma dieta alimentar, posição ambiental, orientação sexual, estilo de vida, opinião sobre tantos temas como feminismo, mobilidade social, valores, e acima de tudo, atitudes.

Se o mundo continuar a mudar a esta velocidade, será possível alteração genética mais rapidamente do que alguma vez imaginámos, a inteligência artificial abrirá portas para uma realidade fascinante e perigosa. Os governos e líderes mundiais terão de fazer escolhas no que toca à energia, educação, saúde e ética.

Começámos o ano de 2020 com um conflito entre os Estados Unidos e Irão a escalar de forma surpreendente e com um planeta comovido ao ver a Austrália arder. A palavra terceira guerra mundial circulava nas redes sociais e aumentava o número de pesquisas. Os vinte, vinte não serão fáceis. Talvez sejam os mais desafiantes. Mas é no desafio que nasce a oportunidade.

É preciso controlar ambições e ultrapassar o medo. O medo, a sede de poder, esses são fatores que impedirão a cooperação internacional. Nós somos responsáveis pelos vinte, vinte. Somos responsáveis por construir um futuro mais nítido, mais tolerante (no sentido lato da palavra), e mais democrático. Somos responsáveis pelos vinte, vinte para que daqui a dez anos possamos (baseados em factos e não apenas em perceções), dizer que durante a última década, muito mudou – mudou, para melhor.

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