Fitch corta rating de Angola

Agência de notação financeira antecipa que o país tenha crescimento 0% este ano. Reviu em baixa o rating para "B" com perspectiva negativa.

Angola teve um novo corte no rating. Hoje foi a vez da Fitch cortar a notação financeira do país para “B”, com perspetiva negativa. Ou seja, há fortes probabilidades de haver um novo corte. A Standard & Poor’s e a Moody’s cortaram o rating de Angola em Fevereiro e em Abril, respetivamente.

A agência de notação financeira Fitch prevê que o crescimento económico de Angola desça de 3,3%, em 2015, para 0% este ano, antecipando também que o país cresça menos de 4% ao ano até final da década. Ou seja, em 2017 a economia deverá acelerar 3,5% e no ano seguinte 3%. A estagnação este ano “é o pior desempenho em 14 anos”, desde 2002, ano do fim da guerra civil, sublinha o relatório hoje divulgado.

Este desempenho é um dos fatores que leva a Fitch a descer a notação para “B”, cinco nível abaixo do patamar de dívida de qualidade. Na última ação de ‘rating’ sobre Angola, em março, a Fitch tinha já descido a perspetiva de evolução da avaliação da dívida soberana do país para “negativa”, o que já antecipava a descida da avaliação da qualidade do crédito num nível, face ao anterior “B+”, divulgada na sexta-feira ao final do dia, conforme avaliação programada.

Fitch prevê que o crescimento económico de Angola desça de 3,3%, em 2015, para 0% este ano, antecipando também que o país cresça menos de 4% ao ano até final da década.

Fitch

No relatório, a agência recorda que Angola continua a sofrer o “severo choque petrolífero”, tendo em conta que 95% das exportações angolanas são petróleo e que metade das receitas fiscais do país provém dessas vendas, as quais caíram fortemente desde o final de 2014, com a baixa da cotação internacional do barril de crude. O barril está a cotar nos 45 dólares.

“O potencial de crescimento a médio prazo é sustentado pelos vastos recursos naturais do país e pelo crescimento da base de consumidores”, diz a agência, acrescentado que a produção de petróleo deve manter-se estável nos 1,8 milhões de barris por dia até 2020, o que leva a agência a concluir que “o setor petrolífero mantém algum dinamismo (a produção chegou em média aos 1,76 milhões de barris por dia em 2016)”.

No entanto, sublinham, “as deficiências institucionais e um ambiente de negócios muito fraco vão continuar a ser grandes constrangimentos no desenvolvimento dos setores não petrolíferos”.

A agência de ‘rating’ prevê ainda uma inflação média de 30% para 2016, abaixo da previsão de 38,5% definida pelo Governo e dos 38,1% já atingidos em agosto (a um ano) último. Igualmente mais otimista é a previsão de défice das contas públicas, que se cifra em 5,8% do PIB em 2016, contra os 6,8% que o Governo definiu no OGE revisto.

No relatório, a agência de ‘rating’ diz ainda que o facto de mais de 40% da dívida pública ser em moeda estrangeira “expõe o peso da dívida a uma depreciação maior da taxa de câmbio”, o que dificulta os pagamentos. Por outro lado, “os pagamentos de juros em percentagem das receitas também deverão aumentar fortemente para mais de 14%, o dobro dos níveis do ano passado”, e é também provável que o crédito mal parado, que no primeiro trimestre estava quase nos 20%, suba ainda mais.

S&P e Moody’s já cortaram

Esta é a terceira revisão em baixa da notação angolana. Em fevereiro foi a vez da Standard & Poor’s cortar o rating de “B+” para “B”, mas com perspetiva estável, também devido à descida do preço do petróleo e à dependência destas exportações, levando ao aumento do endividamento do país.

“Adicionalmente, os empréstimos internos e externos do Estado, juntamente com uma taxa de câmbio fraca, tem elevado o peso da dívida pública e esperamos que a dívida bruta de Angola atinja os 50% do PIB [Produto Interno Bruto] este ano”, lê-se no comunicado com a decisão. “Prevemos necessidades de financiamento externo bruto de Angola de aproximadamente 31 mil milhões de dólares este ano e no próximo, das quais cerca de metade de curto prazo”, aponta a S&P.

Com uma previsão de crescimento de 3,3% este ano, a agência lança um alerta face à “deterioração no ambiente político ou institucional angolano pode resultar numa descida” da notação. Os analistas da S&P notam ainda que com a entrada em produção de novos blocos, a produção de petróleo em Angola poderá atingir, em 2016, os 1,9 milhões de barris por dia, dependendo da disponibilidade das operadoras para manter o nível de investimento, tendo em conta os preços atuais.

A Moody’s não se distancia muito desta análise. Cortou de “Ba2” para “B1” com perspetiva negativa tendo em conta “as pressões sobre o kwanza e sobre as reservas externas que surgem na sequência dos desequilíbrios nos mercados cambiais, que de alguma forma aumentam os riscos de uma crise na balança de pagamentos”. Nesta avaliação a Moody’s ainda punha alguma esperança no pedido de ajuda de Angola ao FMI, para ajudar a “impulsionar as reservas, caso fosse bem-sucedido”.

Angola é o segundo maior produtor de petróleo da África subsaariana, tendo atingido os 1,8 milhões de barris por dia em 2015, mas está há mais de um ano mergulhada numa crise financeira, económica e cambial, face à redução para metade das receitas com a exportação petrolífera com a quebra da cotação do barril de crude no mercado internacional.

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