Empresas poupam mais. Mas isso pode não ser bom

  • Marta Santos Silva
  • 20 Outubro 2016

A redução da dívida das empresas foi um dos fatores que fez com que esse setor da economia acumulasse dinheiro. Uma poupança que puxou para cima a média de toda a economia nacional.

As empresas estão a poupar, e com elas levam a poupança média de todos os setores da economia portuguesa para valores positivos. Desde 2013 que a capacidade de financiamento das empresas traz para cima da linha de água a média da poupança da economia nacional, pela primeira vez desde pelo menos 1995. Mas isso não é necessariamente positivo, porque esta poupança reflete, entre outras coisas, uma redução do investimento das empresas.

Esta é uma das conclusões do Suplemento ao Boletim Estatístico lançado esta quinta-feira pelo Banco de Portugal, que passa revista dos 20 anos desde que estão disponíveis as contas nacionais financeiras. Desde 1994 que são publicadas estas estatísticas, que permitem “analisar, de forma mais estrutural, a evolução dos patrimónios e dos fluxos financeiros da economia portuguesa”, lê-se no documento.

Ao longo destes 20 anos uma coisa foi certa: as Administrações Públicas foram sempre deficitárias. E o que parecia mais ou menos certo também, pelo menos até 2011, era que as sociedades não financeiras (ou seja, as empresas) seriam deficitárias também. Desde 1997 que as empresas tinham necessidade de financiamento (ou seja, uma poupança a níveis negativos).

No entanto, a partir de 2012, as empresas passaram a ter capacidade de financiamento, isto é, uma poupança financeira positiva. Esta inversão reflete, em parte, a desalavancagem do setor, com a amortização líquida de empréstimos, no período entre 2012 e 2015, em 17,7 mil milhões de euros, assim como a diminuição do recurso à emissão de títulos de dívida. Também pesa aqui uma diminuição do investimento por parte das empresas, refletindo uma menor confiança na evolução da economia.

Essa diminuição do investimento por parte das sociedades não financeiras verifica-se olhando para a informação do lado da conta não financeira, que é produzida pelo INE, onde é possível observar que a formação bruta de capital fixo diminuiu expressivamente.

Poupança financeira, 1995-2015

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SF: Sociedades financeiras. SNF: Sociedades Não Financeiras. AP: Administrações Públicas. Part: Particulares. Fontes: INE, Banco de Portugal. INE, Banco de Portugal

É esta poupança por parte das empresas, que é atípica, que empurra a economia portuguesa para cima da linha de água, para passar a ter capacidade de financiamento em vez de necessidade, ou seja, uma poupança financeira visivelmente positiva em 2013, 2014 e 2015.

Esta poupança é, no entanto, de uma magnitude muito baixa para poder ter um impacto positivo do lado da riqueza, que permanece negativa — no final de 2015 o património financeiro líquido era cerca de -109,3% do PIB.

Património financeiro líquido, 1995-2015

Património Financeiro Líquido 1995-2015
SF: Sociedades financeiras. SNF: Sociedades Não Financeiras. AP: Administrações Públicas. Part: Particulares. Fontes: INE, Banco de Portugal.

O setor dos particulares (constituído na sua maior parte pelas famílias), por sua vez, é o único a manter sempre a poupança em valores positivos, apesar de ter visto uma diminuição em 2015. Este setor gera assim recursos que ficam disponíveis para os outros setores com necessidade de financiamento — embora seja uma poupança que é sistematicamente mais baixa do que a da média da Zona Euro.

Também é possível perceber através do Suplemento ao Boletim Estatístico publicado pelo Banco de Portugal que o setor das sociedades financeiras (onde se encaixam os bancos, por exemplo) tem uma capacidade de financiamento que se manteve baixa ou mesmo residual até 2009. São valores que “espelham a função de intermediação financeira deste setor institucional”, lê-se no documento. Já os valores mais elevados que se registaram recentemente refletem a injeção de fundos estatais no resgate ou recapitalização de vários bancos, em especial a partir de 2010.

As Contas Nacionais Financeiras são contas macroeconómicas que seguem em padrões internacionais que permitem comparar as transações e patrimónios das economias e dos seus subsetores. O suplemento sobre contas nacionais foi publicado esta quinta-feira como parte das comemorações do dia europeu das estatísticas.

Editado por Mónica Silvares.

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