Web Summit em Lisboa? Tudo começou com um e-mail

  • Lusa
  • 22 Outubro 2016

A menos de um mês do início do evento, conheça a história de como Lisboa conseguiu captar a maior conferência de empreendedorismo e tecnologia do mundo. Tudo começou com um e-mail.

Um e-mail enviado para o Turismo de Lisboa, a 2 de março de 2015, marcou o início do processo de candidatura que traz em novembro para a capital portuguesa a maior cimeira de tecnologias e empreendedorismo europeia Web Summit.

“Recebemos um e-mail no dia 2 de março de 2015, às 15h, a perguntar se estávamos dispostos a falar com a organização da Web Summit sobre a possibilidade de Lisboa ser o destino” do evento, contou à Lusa a diretora executiva do Turismo de Lisboa, Paula Oliveira.

Foi com este e-mail que se deu o pontapé de saída para o início de uma maratona de negociações para trazer a Web Summit, que até ao ano passado se realizou em Dublin, para a capital portuguesa.

“Observámos o potencial” do evento e “fizemos os contactos com os nossos parceiros”, adiantou a responsável, entre eles o Meo Arena e a FIL. “Já conhecíamos o evento, porque alguns de nós temos amigos que tinham estado desde a primeira edição” da Web Summit, disse à Lusa Jorge Silva, administrador executivo do Meo Arena.

O processo de candidatura acabou por avançar já que a Web Summit estava referenciada pelo Meo Arena. “O que fortaleceu o nosso interesse era que conhecíamos quem tinha estado desde a primeira edição [do evento]”, sublinhou.

“Os prazos eram muito apertados para apresentar a candidatura e tínhamos o problema adicional relativamente aos montantes que o fundo de apoio do Turismo [de Lisboa] disponibilizava”, explicou Jorge Silva.

Entretanto, o Meo Arena tinha um encontro com os responsáveis da AICEP – Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal, e durante o mesmo solicitaram o apoio da entidade. Numa primeira fase, disse Jorge Silva, o apoio “passou por uma carta de conforto do Governo português, não significava ainda mais dinheiro”.

Nesta fase, Lisboa oferecia 50 mil euros e ligação à Internet sem fios (‘wifi’). “Os 50 mil euros era o montante máximo do fundo de apoio a congressos para um evento desta dimensão”, disse. Para Paula Oliveira, um evento “desta escala” tinha de envolver mais entidades, “não só pela sua dimensão, mas também pela temática que encerra”.

E então, além do Turismo de Lisboa, Meo Arena e a FIL, juntaram-se a AICEP, o Turismo de Portugal, a Câmara Municipal de Lisboa, com o secretário de Estado da altura, Leonardo Mathias, a ser indicado pelo gabinete do vice-primeiro-ministro, Paulo Portas, para liderar o processo.

Por sua vez, fonte oficial da FIL contou à Lusa que a entidade recebeu “no dia 20 de março de 2015” um contacto da Associação de turismo de Lisboa para “responder a uma ‘bid’ [oferta], envolvendo a FIL e o Meo Arena”.

A partir daí, adiantou, “decorreu toda a fase negocial, num processo que é algo que acontece de forma muito natural, num trabalho conjunto para a captação de eventos de dimensão relevante para Portugal”, acrescentou a mesma fonte.

“Todo o processo negocial foi conduzido de forma inteligente e teve um desfecho feliz, culminando na assinatura do contrato entre o Estado português e a Web Summit para a realização de três edições, com possível extensão para cinco, em Lisboa, em 23 de setembro de 2015”, salientou fonte oficial da FIL.

“Houve um envolvimento global de todos e arranjou-se verbas necessárias para irmos passando nas várias fases” do processo, adiantou o administrador executivo do Meo Arena.

Jorge Silva destacou “toda a dinâmica que se está a fazer com as ‘startups'” e “o legado que a Web Summit pode dar com a continuidade da projeção do ecossistema das ‘startups’ e empreendedorismo”.

A seleção da capital portuguesa demonstra “a forma da marca Lisboa”, considerou Paula Oliveira, salientando que os equipamentos da cidade “estão preparados para receber eventos grandes”. “Posiciona-nos competitivamente com outras cidades europeias”, concluiu Paula Oliveira.

A Web Summit realiza-se entre 07 e 10 de novembro.

Paddy Cosgrave com o primeiro-ministro português António CostaJOSÉ SENA GOULÃO / EPA

Diplomacia económica lançou a “semente”

A diplomacia económica lançou a ‘semente’ para a Web Summit, quando o embaixador português em Dublin decidiu alertar responsáveis portugueses para a importância do evento, e dois anos depois a maior cimeira de tecnologias vai florescer em Lisboa.

Tudo começou quando, em 2013, o embaixador português na Irlanda, Bernardo Futscher Pereira, se apercebeu de que a Web Summit era um evento importante, depois de ter sido alertado pela sua mulher, Maria Manuel Stocker.

“Ela teve uma influência decisiva ao chamar a atenção para o evento”, confidenciou à Lusa o embaixador, adiantando que em 2013 não houve tempo para a embaixada organizar qualquer evento com portugueses que participassem na Web Summit.

“Não fomos a tempo de fazer nada em 2013 e pensei que em 2014 podíamos aproveitar esta oportunidade”, adiantou Bernardo Futscher Pereira, explicando que há dois anos foi perceber “qual era a participação portuguesa no evento”.

Na altura, “entrámos em contacto com a Web Summit e chegámos à conclusão que era cerca de meia centena”, pelo que “comecei a fazer grande pressão junto da AICEP [Agência para o Investimento e Comércio Externo de Portugal] e do gabinete do vice-primeiro-ministro [da altura, Paulo Portas] para haver uma representação institucional portuguesa”.

“Tanto insisti que em cima da hora da Web Summit soube que viria uma pessoa da AICEP, o administrador Luís Castro Henriques”, prosseguiu.

Entretanto, o embaixador reuniu os portugueses que iriam marcar presença na Web Summit num evento na embaixada de Dublin, onde esteve presente o administrador da AICEP. Além disso, Futscher Pereira também tinha entrado em contacto com o administrador financeiro da Web Summit, João Alexandre, que entretanto já saiu da empresa.

“Apresentei-o a Castro Henriques e considerámos que era engraçado fazer alguma coisa em Portugal”, não o grande evento, porque na altura era feito em Dublin, mas os mais pequenos que eles costumam fazer em outros países, explicou.

Já João Alexandre explicou à Lusa que depois dessa conversa ficou com ideia de fazer qualquer coisa em Lisboa. “Fiquei com a ideia na cabeça e comecei a ver que Lisboa tinha condições para albergar o evento maior”, explicou o antigo administrador financeiro da Web Summit, que entrou para a empresa em agosto de 2014 através de um contacto no MBA que tinha feito em Madrid.

Entretanto, depois de algum tempo sem novidades, o embaixador foi convidado para um almoço em Dublin onde estava Paddy Cosgrave, presidente executivo da Web Summit, onde aproveitou para falar com ele sobre um eventual envolvimento de Lisboa num dos pequenos eventos da organização.

E foi na altura que Paddy Cosgrave disse que a Web Summit já estava em contacto com Portugal sobre a possibilidade de realizar um evento em Lisboa. As infraestruturas de Dublin não eram as melhores e, na edição de 2015, tinha havido falhas de Wi-Fi, pelo que a organização da Web Summit estava a equacionar uma nova localização.

“Por volta de março de 2015 começámos a analisar alternativas e eu sugeri Lisboa dentro da empresa”, adiantou João Alexandre, salientando que Paddy Cosgrave não conhecia Lisboa, pelo que o administrador financeiro sugeriu que fizesse uma visita à capital portuguesa.

Entretanto, tendo em conta que Amesterdão queria ganhar a Web Summit e já tinha enviado uma missão a Dublin, colocou-se a possibilidade de Portugal fazer uma missão. “Perguntaram-me se valia a pena trazer cá [Dublin] uma missão para reunir com Paddy Cosgrave. Na altura disse que sim e tudo correu bem”, prosseguiu o embaixador.

“Nessa altura era importante Paddy Cosgrave vir a Lisboa. Era a minha convicção que [os responsáveis da Web Summit] estariam mais interessados em Amesterdão por uma razão óbvia: nenhum deles conhecia Lisboa”, explicou. Além disso, ao contrário de Lisboa, Amesterdão tinha voos diretos para São Francisco e Los Angeles, que era algo que a Web Summit pretendia.

“Percebi que era absolutamente necessário fazer um convite ao Paddy para vir a Lisboa, e assim se fez, foi convidado formalmente. E, na minha opinião, foi o que desbloqueou” a decisão, salientou o diplomata, que disse ter tido “sempre o apoio do gabinete do vice-primeiro-ministro, que foi muito importante” para que o evento viesse para a capital portuguesa.

“Lisboa era a melhor opção”, salientou João Alexandre que destacou o “papel importante do embaixador” que o apresentou ao administrador da AICEP, bem como o de todas as pessoas da AICEP. Destacou ainda o papel de Artur Pereira, da AICEP, “que foi importante nas negociações finais” e do antigo secretário de Estado Leonardo Mathias.

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