As negociações do Web Summit em 4 pontos

  • Leonor Rodrigues e Lusa
  • 9 Outubro 2016

Desde o primeiro contacto entre Portugal e o Web Summit até ao anúncio de que Lisboa receberia o evento passaram quatro meses. O governante que conduziu as negociações revela os bastidores do acordo.

A capital portuguesa vai receber o maior evento tecnológico e de empreendedorismo no mundo entre os dias 7 e 10 de novembro. O Web Summit acontece no Meo Arena e na Feira Internacional de Lisboa e são esperadas mais de 50 mil pessoas de mais de 150 países.

O anúncio do evento foi feito a 23 de setembro mas as negociações não foram simples e obrigaram a uma grande cooperação e entendimento de várias entidades, nomeadamente o Turismo de Portugal, Turismo de Lisboa, Agência para o Investimento e Comércio de Portugal (AICEP) e o próprio Governo português. À frente destas negociações esteve o ex-secretário de Estado Adjunto e da Economia, Leonardo Mathias que contou tudo se processou.

Os motivos

A ideia de realizar o Web Summit fora da Irlanda aconteceu depois do evento de 2014, quando os sistemas de wi-fi falharam. Uma situação grave tendo em conta que toda a conferência é transmitida através da internet. Por outro lado, o evento em Dublin acontecia numa antiga cavalariça onde os participantes tinham de percorrer longas distâncias entre os vários palcos.

Em março do ano passado, a organização contactou o Turismo de Lisboa com uma proposta para a realização do Web Summit na capital portuguesa. Esta entidade, em conjunto com a Meo e a FIL, decide então candidatar-se, oferecendo 50 mil euros e assegurando a rede wireless. Meses mais tarde, Paulo Portas, na altura vice-primeiro-ministro, envia uma carta para a organização reafirmando o interesse e apoio do Governo na realização do Web Summit em Lisboa, depois de constatar que Portugal não constava na lista final do concurso e, a partir daí, começaram a pensar-se em formas mais criativas de apoiar a conferência.

Sabia que o nosso maior concorrente em Amesterdão“, diz Leonardo Mathias em entrevista à Lusa, afirmando que “Amesterdão queria ganhar a todo o custo”.

A grande novidade da edição do evento em Lisboa é o facto de ser muito mais institucional: pela primeira vez vão marcar presença vários comissários europeus e membros de governos, além de representantes das duas grandes concorrentes a nível tecnológico, a Google e a Apple. O líder do processo de candidatura português garante que é um erro dizer que um dos motivos para a vinda do Web Summit para Portugal foi o ecossistema de startups. Pelo contrário, afirma que esse foi precisamente “o maior ponto fraco”.

Amesterdão queria ganhar a todo o custo

Leonardo Mathias

Lusa

Na realidade, um dos pontos fortes de Portugal foi a qualidade das suas infraestruturas, assim como o facto de o aeroporto situar-se a poucos minutos de distância. Na criatividade da proposta também foi um ponto fulcral pois todas as das outras cidades tinham o prazo de um ano, enquanto a de Portugal foi para três anos, dando a noção de continuidade e relevância para ambas as partes. Em terceiro lugar, Portugal tem uma vasta e diversificada oferta hoteleira, abrangendo desde o banqueiro que vem no seu jato privado ao “tipo que vem de mochila, de comboio ou de EasyJet”, como referiu Leonardo Mathias. Por último, e não menos importante, a estabilidade da equipa também teve influência na escolha da capital portuguesa, dado que as entidades organizadoras portuguesas funcionam independentemente de quem está no Governo.

As dificuldades

Portugal também tinha algumas contrapartidas a vários níveis. Para começar, em termos de ecossistema digital, o nosso país ocupa o 17º lugar e, na lista europeia de startups e tecnologia, está em 13º. Em termos de conectividade das startups e ligação a novas ideias, Portugal aparece na 18ª posição, abaixo da média europeia, sendo que Amesterdão encontra-se em segundo lugar em todas as áreas e Berlim em terceiro.

Por outro lado, não existem ligações diretas para Lisboa de São Francisco e Los Angeles, ambas nos Estados Unidos. “Para os organizadores era extremamente relevante porque essa comunidade de venture capital, de startups, de novas ideias é fundamental para alimentar toda a Web Summit” e tornar o evento verdadeiramente global, lembra Mathias. Além disso, Portugal nunca tinha organizado uma conferência desta dimensão.

Depois, surgiu um problema na agenda da FIL: entre as datas da realização do Web Summit já estava agendada uma exposição automóvel mas que se acabou por se solucionar em 24 horas.

Ultrapassadas todas estas questões, surgiu então o maior dos problemas e que quase fez Portugal perder a oportunidade de realizar o Web Summit em Lisboa. Na véspera do anúncio, o Turismo de Lisboa decidiu que não pagava o IVA relativo ao evento. “Foi um trabalho absolutamente extraordinário do João Cotrim de Figueiredo [acionista do ECO] na altura presidente do Turismo de Portugal, pela noite fora a tentar, por um lado, convencer o Turismo de Lisboa que se todos os organismos intermédios pagavam IVA porque é que eles não pagavam“, explica o líder da candidatura. Era preciso – e urgente – resolver o impasse. A situação só se resolveu depois de o Turismo de Portugal e a AICEP decidirem aumentar a sua dotação e pagar o IVA da parte do Turismo de Lisboa. “Nessa noite esteve para não haver Web Summit por causa de um IVA do Turismo de Lisboa, portanto, o absurdo é total“, salienta.

O futuro

Os impactos do Road 2 Web Summit não terminam no dia 10 de novembro, com o final do evento. Na proposta de candidatura, Portugal deixou em aberto a possibilidade de o maior evento de tecnologia e empreendedorismo do mundo se realizar por mais dois anos, até 2020. Além disso, foi ainda celebrando um contrato entre o Turismo de Portugal, Turismo de Lisboa e a AICEP que prevê um financiamento de 1,3 milhões de euros para logística, modernização das estruturas de wi-fi e incentivos à vinda de jornalistas internacionais ou apoio a empresas de menor dimensão.

Os efeitos na Economia

O Web Summit é um evento global mas o retorno para e economia portuguesa e local são enormes. Com a edição da conferência de 2016 em Lisboa, espera-se o retorno financeiro de cerca de 175 milhões de euros.

Os setores do imobiliário, comércio e alojamento contam com efeitos positivos diretos e indiretos. Só para as datas da realização do evento e em Lisboa a procura é quatro vezes superior à de 2015 e já há nove (dos 15) hotéis sugeridos pela organização assinalados como esgotados, de acordo com a dados do Airbnb.

A previsão e desejo da União do Comércio e Serviços de Lisboa é a de que os participantes do Web Summit voltem à cidade e que a presença de dirigentes das empresas mais importantes do mundo contribua para a promoção da capital portuguesa.

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