A internet é fechada a sete chaves, sabia?

A integridade da web está dependente de 14 pessoas que detêm as chaves do sistema que controla os endereços. A cada três meses, três delas reúnem-se para um ritual de verificação.

Parece ficção científica, mas é realidade. A integridade da internet como a conhecemos hoje depende de sete chaves nas mãos de um pequeno grupo de pessoas. São sete chaves principais, mas existem outras sete chaves suplentes. As chaves de que estamos a falar dão acesso ao livro de endereços da internet — isto é, a base de dados do ICANN, a entidade responsável por gerir todos os nomes de domínio da web.

Segundo o site Business Insider, de três em três meses, algumas dessas pessoas juntam-se numa espécie de ritual, sob altíssimas condições de segurança. É que, em teoria, se alguém fosse capaz de se apoderar delas, passaria a controlar todos os sites da web. Poderia, por exemplo, redirecionar qualquer endereço para uma página à sua escolha.

A ideia das chaves foi a forma que o ICANN arranjou para proteger essa base de dados — que se chama ‘Sistema de Nomes de Domínio’, ou Domain Name System (DNS) — sem adjudicar demasiada responsabilidade sobre uma pessoa só. Nesse ritual trimestral, os portadores das chaves reúnem-se para verificar e atualizar o sistema.

De acordo com o Business Insider, as chaves servem para abrir os cofres onde estão os cartões digitais que dão acesso a uma chave mestra. Essa chave é meramente um código informático com um nome esquisito: root key-signing key. E o que é que faz? Basicamente, serve para gerar mais chaves que abrem — agora sim — as várias partes do sistema. Sim, são muitas chaves.

A cerimónia de verificação acontece nos Estados Unidos, em El Segundo (Califórnia) ou em Culpeper (Virgínia). Para acontecer, têm de estar presentes pelo menos três portadores de chaves, chamados de crypto officers — são as únicas pessoas do mundo autorizadas a tocar nelas.

À reunião vai também uma pessoa responsável pelo hardware do sistema, uma pessoa responsável pelas credenciais, uma testemunha interna do ICANN e o administrador que dirige o evento. Cada um só está autorizado a executar a tarefa que lhe compete. E costumam ir também alguns visitantes e observadores.

Mas a segurança é mesmo a prioridade no evento. Tudo o resto é secundário. Para acederem à sala onde a ‘cerimónia’ acontece, é preciso atravessar vários controlos de verificação de identidade. Nem mesmo as ondas eletromagnéticas são capazes de penetrar na sala. Lá dentro, tudo é gravado e segue um rígido protocolo. Mas não é secreto: por uma questão de transparência, todos os manuais são públicos e o evento é transmitido em direto para que todos o possam ver. Aqui está um exemplo.

O próximo evento deste género acontece já na próxima quinta-feira, 27 de outubro. Mas não vai ser só mais um evento. segundo a Business Insider, vai-se substituir a própria chave mestra, algo inédito na história.

A base de dados era controlada pelos Estados Unido da América desde a criação da internet. Mas, no início deste mês, o controlo foi finalmente cedido ao consórcio global, do qual fazem parte várias empresas, utilizadores e até governos.

Porque é que isto é relevante? Desde logo porque, na última sexta-feira, um ataque informático a um único gestor de DNS deixou inacessíveis alguns dos maiores sites do mundo. Os piratas usaram um exército de computadores e dispositivos infetados para, por exemplo, quebrar a ponte entre a expressão “twitter.com” e o número associado ao servidor do Twitter.

Desconhece-se o autor. Mas o incidente serviu para recordar a importância que a integridade deste sistema tem no âmbito daquilo que é a internet dos dias de hoje.

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