Ninguém quer ficar com o Twitter. Porquê?

O karma tem requintes de ironia. Ao longo da última década, o Twitter chegou a receber seis ofertas de compra. Recusou todas. Hoje, quer vender-se, mas ninguém o quer comprar.

A Yahoo abriu as hostilidades em 2007, ao oferecer 12 milhões de dólares. Seguiram-se Mark Zuckerberg, o ator Ashton Kutcher, o eterno ex-próximo-presidente dos Estados Unidos Al Gore, Larry Page (fundador da Google e atual CEO da Alphabet), Steve Ballmer, antigo presidente executivo da Microsoft. Em comum, estes nomes têm mais do que fortunas chorudas. Todos fizeram ofertas pelo Twitter; todos ouviram um categórico não.

As razões para os nãos sucessivos foram mudando ao longo do tempo. Primeiro, os fundadores do Twitter avaliavam a empresa muito acima daquilo que lhes estava a ser oferecido — mais precisamente, avaliavam-na em 100 milhões de dólares, por volta de 2007. Depois, quanto mais influente se tornava a rede social e quanto maior ficava a base de utilizadores, mais os responsáveis acreditavam que estavam a construir algo que ia mudar o mundo e não queriam vendê-lo a quem pudesse estragar a obra feita.

E pareciam ter razão. Em 2013, o pássaro azul estreia-se em bolsa e as ações disparam 73%, naquela que foi uma das mais bem-sucedidas estreias em bolsa dos últimos anos. Só que o karma tem requintes de ironia e, quase uma década depois da primeira oferta não solicitada, quem está desesperado para encontrar comprador é o próprio Twitter. Agora, ninguém o quer.

102 milhões de prejuízos

A lista de potenciais compradores do Twitter que afinal já não o são é imponente: Disney, Google, Apple, Salesforce. Uma atrás da outra, estas gigantes declararam-se interessadas em adquirir a tecnológica liderada por Jack Dorsey, para, no espaço de dias, recuarem nesse interesse.

A lista de problemas que os afasta não é menos preocupante.

Começam logo na estrutura do Twitter. Se é certo que a rede social conta com cerca de 300 milhões de utilizadores ativos por mês (no terceiro trimestre, os números oficiais davam conta de 317 milhões de utilizadores), um número simpático à primeira vista, é certo também que este não é um valor assim tão elevado, se for comparado com o das redes sociais que jogam na mesma liga que o Twitter. O Facebook, líder isolado, tem mais de mil milhões de utilizadores ativos por mês.

Ainda assim, diria um potencial comprador, são 300 milhões. São dados detalhados sobre os gostos e interesses de 300 milhões de consumidores. O problema é que há vários trimestres que o Twitter não consegue sair desta fasquia dos 300 milhões, o que significa que há vários trimestres que não está a atrair novos utilizadores — e, por arrasto, novos consumidores.

"A estrutura de custos do Twitter foi originalmente construída para uma base de utilizadores muito maior.”

Robert Peck, analista da consultora SunTrust

Em declarações à Reuters

Os próprios fundadores estavam convencidos de que iam atingir números estratosféricos de utilizadores, e foi com base nessa crença que construíram a rede social. Que é o mesmo que dizer que gastaram milhões e milhões de dólares em desenvolvimento de produto e marketing nos últimos anos, na certeza de que compensariam estas perdas com milhões e milhões de novos utilizadores a cada mês.

Resultado: são uma empresa muito (não o suficiente) popular, que só dá prejuízo. O Twitter fechou o terceiro trimestre deste ano com um prejuízo de 102,8 milhões de dólares. Entre janeiro e setembro, já acumula perto de 290 milhões de dólares de prejuízos. Isto apesar de as receitas terem aumentado para 616 milhões de dólares, um resultado acima do esperado.

Tudo isto leva a que o Twitter tenha mais custos do que aqueles que pode suportar. Isso mesmo refere um analista da consultora SunTrust à Reuters: “A estrutura de custos do Twitter foi originalmente construída para que a [rede social] crescesse com uma base de utilizadores muito maior. Mas, com o aumento do número de utilizadores a estagnar, a empresa terá de reduzir o excesso de custos”.

Cortes e mais cortes

Quais são os primeiros custos a serem cortados? Acertou: os trabalhadores. Esse é um dos fardos que não interessa a um eventual comprador herdar do Twitter. A empresa conta mais de quatro mil trabalhadores, número que, provavelmente, terá de ser reduzido. Ou, pelo menos, alguns dos postos de trabalho terão de ser mudados para locais (fora dos Estados Unidos) onde é mais barato pagar a mão de obra. No relatório com os resultados do terceiro trimestre, a empresa confirma que vai cortar 350 postos de trabalho, número que representa 9% da força de trabalho.

Por outro lado, vai ser preciso cortar no marketing, departamento em que a empresa gastou 473 milhões de dólares (à volta de 434 milhões de euros), o equivalente a 40% das suas receitas. É uma proporção bastante superior à do Facebook, por exemplo, que gastou 15% das receitas em marketing, ou à da Alphabet (casa-mãe do Google), que reservou 12% das receitas para esta área.

Há ainda que reduzir as despesas com investigação e desenvolvimento, que ascenderam a 334 milhões de dólares (306,7 milhões de euros), ou 28% das receitas.

É um plano de reestruturação demasiado pesado para que uma empresa ainda sem perspetivas de dar lucros possa ser atrativa para os investidores.

Isto tudo sem contar com a maior praga do Twitter: em cada um dos 317 milhões de utilizadores, há um potencial perturbador da paz. Todos conhecemos algum. É aquela pessoa, muitas vezes com um perfil falso para manter o anonimato, cujo único propósito é procurar outras pessoas com quem discutir de forma acesa sobre qualquer assunto. E, se possível, espalhar ódio, frequentemente sob a forma de racismo ou misoginia. Em bom inglês, são os chamados trolls.

Pelo menos dois potenciais compradores terão fugido destes trolls e desistido da Twitter pela sua reputação de permitir bullying, racismo, sexismo e outras formas de assédio e disseminação de ódio, de acordo com informações recolhidas pela Bloomberg junto de fontes ligadas ao processo.

A desistência da Disney estará relacionada com isso. Segundo a Bloomberg, o estúdio de animação não quis manchar a imagem “amigável e familiar” que tem. A Salesforce não quis envolver-se com o Twitter pela mesma razão.

Problemas, também na bolsa

Neste contexto pouco animador, as ações do Twitter, estrelas da bolsa ainda há três anos, têm vindo a ressentir-se — e de que maneira. Se, há um ano, os títulos da tecnológica negociavam acima dos 31 dólares, hoje estão na casa dos 17, depois de já terem tocado os 14 dólares em maio deste ano.

"Apesar da queda da cotação, não é previsível que se assista a uma venda a preço de saldo.”

Eduardo Silva

Gestor da XTB

“Depois de dois trimestres consecutivos sem crescimento, a cotação reflete a preocupação dos investidores com o futuro da empresa”, comenta ao ECO Eduardo Silva. O gestor da XTB acredita, ainda assim, que não é caso para desespero. “Apesar da queda da cotação, não é previsível que se assista a uma venda a preço de saldo, mesmo havendo dentro do próprio Twitter especulação de que existem grandes divisões, entre a administração, sobre o futuro da plataforma”, diz o analista.

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