Já pode subscrever as novas OTRV. Mas compensa?

O Estado está a oferecer uma taxa de 2% na terceira emissão de obrigações para o retalho. Saiba se compensa subscrever. Ou se há alternativas mais atrativas.

Arrancou o período de subscrição da terceira emissão de obrigações destinadas aos investidores do retalho. O Estado está a oferecer uma taxa de juro bruta de 2%, a quem subscreva Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV) até ao próximo dia 25 de novembro. Mas será que compensa?

A remuneração oferecida é a mais baixa face às duas emissões anteriores, pelo que se impõe perceber se compensa apostar nesta nova emissão. Analistas consultados pelo ECO consideram que a taxa oferecida é atrativa face à maior parte da oferta do mercado. Contudo, alertam para os custos que lhe estão associados — nomeadamente as comissões bancárias — que podem reduzir substancialmente o retorno final para o investidor.

Esta nova emissão de OTRV mantém as características principais das duas operações anteriores. Está disponível para montantes de investimento a partir de mil euros que podem ir até um máximo de um milhão de euros, sendo a subscrição realizada por múltiplos de mil euros. Têm um horizonte temporal máximo de cinco anos (30 de novembro de 2021), sendo o pagamento de juros efetuado numa base semestral (30 de maio e 30 de novembro de cada ano) de acordo com a taxa Euribor a seis meses, a que é acrescido um prémio de 2%. Caso a Euribor seja negativa, como acontece atualmente, é considerado zero. Assim, o rendimento bruto mínimo é de 2%. Retirada a taxa de imposto de 28%, isto significa que em termos práticos o subscritor recebe uma taxa líquida de 1,44%.

Taxas na dívida pública a 5 anos

Fonte: IGCP e Bloomberg
Fonte: IGCP e Bloomberg

O prémio de 2% é o mais baixo das três emissões realizadas pela Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública (IGCP). Compara com um prémio de 2,2% oferecido na emissão de abril, e de 2,05% no caso da emissão de agosto último. Está também abaixo da taxa de juro em vigor no mercado secundário da dívida portuguesa a cinco anos que negoceia nos 2,118%.

Porquê uma taxa mais baixa?

Filipe Garcia, CEO da IMF, deposita grande parte da justificação para a quebra da remuneração oferecida, no forte interesse despertado junto dos investidores, sobretudo tendo em conta as alternativas disponíveis. “Penso que as razões serão o enorme sucesso das emissões anteriores e a queda adicional das taxas de juros de depósitos oferecidos pela banca, que são os concorrentes mais diretos nestas aplicações”, diz o economista. As taxas de juro dos depósitos a prazo, o produto de poupança preferido pelos portugueses, estão em mínimos históricos. No caso dos depósitos a um ano, a taxa de juro média das novas subscrições realizadas em setembro foi de 0,33%, em termos brutos.

"O mercado ajustou. A taxa desta emissão acaba por resultar daquilo que o mercado secundário de obrigações está a fazer.”

Filipe Silva

Banco Carregosa

Já Filipe Silva, especialista do Banco Carregosa no mercado de dívida salienta que a nova taxa resulta em grande medida da evolução das taxas de juro no mercado da dívida. “O mercado ajustou. A taxa desta emissão acaba por resultar daquilo que o mercado secundário de obrigações está a fazer”, diz. E explica: “As obrigações do Tesouro com maturidade em abril de 2017 estão em 1,9%, ligeiramente abaixo do que pagam as OTRV. Ou seja, esta operação é benéfica tanto para o IGCP como para o investidor”. Mas o especialista do Carregosa acrescenta que “a atratividade depende daquela que for a expectativa do investidor. Ou seja, se espera que as taxas vão subir. Para ser vantajoso, as Euribor teriam que subir para valores positivos”.

OTRV ou CTPM?

No que respeita à dívida, as OTRV serão contudo a forma mais acessível para os investidores do retalho apostarem nesse mercado. Os particulares têm acesso às OTRV no momento da emissão, o que não acontece com as tradicionais obrigações do Tesouro (OT) de taxa fixa. As elevadas comissões praticadas pelos bancos só justificavam ainda o investimento em OT para montantes elevados. Com as OTRV, apesar de também se aplicarem comissões que podem encurtar a remuneração oferecida, bastam mil euros para investir no mercado da dívida.

Mas há outras formas de apostar em dívida pública nacional. Mais em concreto os Certificados do Tesouro Poupança Mais (CTPM), sendo que aquilo que os analistas dizem é que as OTRV agora emitidas não apresentam vantagem num cenário de manutenção das taxas Euribor ao nível atual face a este produto. Os CTPM oferecem uma taxa de juro média anual bruta de 2,25%, enquanto o prémio oferecido pelo Estado nas OTRV é de 2%, em termos anuais.

Continuo a considerar que os Certificados do Tesouro, no seu conjunto, apresentam um conjunto de características mais atrativo para a média dos aforradores.

Filipe Garcia

IMF

Caso as Euribor se mantenham negativas ou em valores positivos muito baixos, os CTPM continuam a ser mais vantajosos. “Continuo a considerar que os certificados do Tesouro, no seu conjunto, apresentam um conjunto de características mais atrativo para a média dos aforradores”, diz Filipe Garcia. Face às OTRV, os CTPM oferecem ainda a vantagem de terem capital garantido durante todo o período de cinco anos. No caso das OTRV, se o investidor optar por as vender no mercado dentro do intervalo de cinco anos da sua duração, tanto pode ganhar como perder dinheiro.

Cuidado com as comissões

As comissões cobradas pelos bancos têm um peso elevado na rentabilidade das obrigações de retalho. “Deve haver cuidado para acautelar que as despesas associadas às OTRV não sacrificam demasiadamente a rentabilidade”, recomenda Filipe Garcia. Aquando da segunda emissão de OTRV realizada em agosto deste ano, os custos superavam, na maioria das instituições financeiras, a fasquia dos 300 euros no caso de um investimento de 10 mil. No mesmo sentido vai a opinião de Filipe Silva que diz que em investimentos pequenos, uma parte significativa do retorno desaparece“, aconselhando por isso que “é importante fazer bem as contas e ver as taxas”. Aqui também os CTPM oferecem vantagens, já que não têm associados quais quer custos de comissionamento.

"Deve haver cuidado para acautelar que as despesas associadas às OTRV não sacrificam demasiadamente a rentabilidade.”

Filipe Garcia

IMF

Outro dos elementos a ter em conta prende-se com o risco soberano. Ou seja, no caso de haver uma reestruturação da dívida ou um eventual hair-cut, os investidores poderão ver desaparecer parte do dinheiro aplicado. No caso dos CTPM, existe a garantia de capital ao longo da vida do produto. Relativamente a este risco, Filipe Silva desvaloriza para já a sua relevância. “Neste momento, e tendo e conta que a dívida portuguesa tem sido muito sustentada pelo BCE, acaba por ser mais seguro, apesar dos riscos que podem acontecer. Enquanto a DBRS manter o rating de Portugal o investimento será seguro”, salienta o especialista em dívida do Carregosa.

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