CGD: Gestores poupam muito, mas fogem ao risco

Têm rendimentos de seis dígitos ao ano. As contas têm ainda mais zeros, mas está quase tudo nos bancos, muito à ordem e algum a prazo. E risco? Não há muito dinheiro em bolsa.

António Domingues, ex-presidente da Caixa, recebeu 539 mil euros em trabalho dependente em 2015Paula Nunes / ECO

Têm salários muito elevados para aquilo que é a média de uma família portuguesa. Os antigos administradores da Caixa Geral de Depósitos (CGD) apresentam todos rendimentos anuais de seis dígitos — e um deles chega mesmo aos sete: mais de quatro milhões de euros num só ano. Têm, por isso, muitos zeros amealhados, mas grande parte do dinheiro dos banqueiros está confiado aos… bancos. Há desde depósitos a seguros de capitalização, mas também muitas poupanças para a reforma. E nos mercados? Há pouco dinheiro. E só Rui Vilar é um homem da bolsa… de Lisboa.

Os seis ex-administradores do banco estatal que entregaram as declarações de rendimentos e património ao Tribunal Constitucional (TC) — houve cinco que não o fizeram — revelaram um rendimento de trabalho dependente de 5,58 milhões de euros em 2015 (valor que sobe para 5,98 milhões se considerados ganhos com rendas, de capital e outros, bem como a reforma de Rui Vilar). Este valor não é, contudo, distribuído uniformemente já que Pedro Leitão obteve, sozinho, 4,05 milhões. Ainda assim, todos receberam um salário de seis dígitos, com António Domingues a auferir 539 mil euros.

Receberam muito dinheiro, em comparação com a média das famílias portuguesas. E têm muito dinheiro amealhado. De acordo com as declarações entregues ao TC, consultadas pelo ECO, o património global dos cinco ex-administradores da CGD ascendia a 19 milhões de euros. Apesar de serem banqueiros, ou seja, homens com uma literacia financeira acima da média, não fazem uma gestão muito dinâmica das fortunas que acumularam ao longo dos anos. Porquê? Porque grande parte do dinheiro que têm está simplesmente estacionado nas contas que têm nos bancos, sejam do BPI, de onde vieram, da CGD, ou Novo Banco.

À ordem ou a prazo. Viva os depósitos

Em termos acumulados, dos 19 milhões de euros em património dos cinco gestores, 56%, ou seja, 10,7 milhões de euros estavam em depósitos à ordem. Não estavam a gerar qualquer rendimento extra, mesmo num contexto em que as taxas oferecidas pelas instituições financeiras estão em mínimos históricos. Deste montante, cerca de metade é referente a António Domingues, o ex-presidente da CGD, que na declaração ao TC apenas indicou o dinheiro que tem em cada uma das quatro contas em seu nome, não fazendo qualquer indicação a se essas contas são à ordem ou a prazo.

Um terço do valor global está em poupanças. São mais 5,8 milhões de euros aplicados na sua maioria junto de instituições financeiras, repartidos entre depósitos a prazo, seguros de capitalização e Planos-Poupança Reforma (PPR). Em depósitos a prazo estão aplicados cerca de 760 mil euros, uma pequena parte de João Tudela Martins e a quase totalidade referente a Rui Vilar: 747 mil euros. Tem dinheiro num conta “private”, mas grande parte está repartido por contas de rendimento mensal, ou seja, que geram juros mensalmente creditados na conta à ordem. E tem ainda três aplicações com prazos de três anos.

Rui Vilar tem 747 mil euros aplicados em depósitos a prazo. Parte são aplicações que depositam juros mensais na conta, e parte rende juros a três anos.Paula Nunes

Depois dos depósitos a prazo, os seguros apresentam-se como as aplicações que mais dinheiro captam junto destes gestores. Rui Vilar, que transitou da anterior para a atual administração da CGD, sendo o presidente não executivo do banco estatal, tem 190 mil euros em seguros de capitalização. Já Pedro Norton de Matos tem 347 mil. Pedro Leitão, por seu lado, tem um seguro de vida na gestora de ativos do Novo Banco, a GNB, no valor de 533 mil euros. Além desta aplicação, o antigo administrador da Portugal Telecom, tinha ainda 300 mil euros num produto financeiro complexo do Deutsche Bank, mas de risco reduzido, e 175 mil num PPR. Rui Vilar tem um de 130 mil euros.

Nos mercados, mas à distância

O investimento em ativos de maior risco não tem grande peso nas carteiras dos ex-administradores, de acordo com as declarações entregues ao TC. Pedro Norton de Matos é o que mostra maior apetência por investimentos mais arriscados, mas não o faz por si. O gestor tem duas contas de gestão discricionária no Banco Rothschild Europe, uma com 1,3 e outra com 1,02 milhões de euros. No total, são 2,38 milhões de euros geridos por profissionais que estruturam as carteiras com base em perfis de investimento dos clientes. Cabe tudo nestas carteiras, desde ativos de curto prazo, obrigações, ações a investimentos alternativos.

Norton de Matos é o único que não tem qualquer ação em carteira. Todos os outros têm, mas muito poucas. Muitos têm títulos do BPI, ou opções sobre ações do banco ainda liderado por Fernando Ulrich, mas também há de outros bancos: João Tudela Martins tem 1.840 ações do BES em carteira. Quanto valem? 0,02 euros, segundo o gestor. Também há Pharol nas carteiras de Pedro Leitão e Rui Vilar, assim como a Nos. O chairman da CGD é o que apresenta a carteira mais composta, contando com 12 títulos diferentes, todos da bolsa de Lisboa. Aos preços atuais de mercado, as posições valem 279 mil euros.

Rui Vilar tem mais dinheiro em obrigações do que ações. De acordo com a declaração enviada ao TC, tem 30 mil euros em títulos de dívida da Semapa, mais 90 mil em obrigações da CGD. E também financia o Estado. Tal como muitos portugueses, aproveitou para investir no novo produto de poupança do Estado, as Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV). Participou logo na primeira emissão, em que a taxa era de 2,2%, investindo 192.964 euros.

E dívidas? Também há… até de um barco

Uma boa parte do património destes administradores está em imobiliário. Apenas duas das seis declarações referem o valor dos imóveis — Rui Vilar aufere 36.340 euros em rendas, mas não é explicitado o valor patrimonial dos imóveis que possui –, sendo que o valor total ascende a 1,6 milhões de euros. Este valor é enviesado pelos 1,247 milhões de euros em que está avaliado o prédio de António Domingues em Lisboa, o qual conta com uma fração arrendada que gerou 48 mil euros de rendimento no ano 2015. Entre os que não apresentam o valor do imóvel, uma curiosidade (que poderá ser eventualmente um erro no preenchimento): Pedro Leitão refere património imobiliário mas dá como morada a Av. João XXI, o número 63, que é a sede da CGD.

 

Juntamente com os ativos imobiliários, há passivos. Não há muitas dívidas, mas há. João Tudela Martins tem créditos à habitação com um valor em dívida de 285 mil euros. Já Tiago Marques tem por liquidar 117 mil euros em empréstimos à habitação, valor a que se juntam 76 mil euros de crédito contraído para a compra de ações do BPI e 5.834 euros de financiamento ao consumo. Pedro Norton de Matos apresenta apenas uma dívida de 96 mil euros, sem especificar qual o destino desse dinheiro. Já António Domingues conta com uma responsabilidade mensal de 3.270 euros referente a um veleiro adquirido em leasing.

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