Procalçado: 40 anos a dar corda – e sola – aos sapatos

O grupo Procalçado, especialista e líder europeu em solas para calçado, tem vindo a inovar e a diversificar o produto. O calçado de plástico, sob a marca Lemon Jelly, é a grande aposta da empresa.

É uma das maiores empresas de calçado nacional. O grupo Procalçado, que se lançou no mercado em 1973 pela mão de José Pinto, com a marca de solas For Ever, cresceu e diversificou o negócio, quer no produto como na marca. Para além das solas, o grupo apostou também na criação de sapatos profissionais com a marca Wock e na moda, sobretudo feminina, com a Lemon Jelly.

 

Complexo industrial da Procalçado

 

José Pinto, presidente do conselho de administração e vice-presidente da APICCAPS (associação do setor), olha para o grupo com um misto de satisfação e orgulho, e diz que nunca pensou “chegar até aqui”. E como foi esse caminho? “Foi longo e difícil”, reconhece, em entrevista ao ECO.

“A empresa foi fundada por mim. Temos 44 anos. Eu já trabalhava na indústria de calçado, como empregado, e entendi que podia dar um passo em frente e criar o meu próprio negócio. Comecei por uma pequena área comercial e depois por uma área industrial, fui lutando com todas as minhas forças e com muita coragem. Naturalmente que ser industrial durante 44 anos tem muitos momentos altos e muitos momentos baixos”, adianta.

Revolução interna

Há sete anos, e depois de o setor atravessar um momento conturbado com a retirada de algumas importantes multinacionais, a Procalçado provoca uma pequena ‘revolução interna‘. Uma mistura de cansaço por fabricar apenas solas, aliado à vontade de crescer, levou o grupo a aventurar-se no mundo dos sapatos. Mas “não podíamos coincidir com os nossos clientes que são fabricantes de calçado de pele e de couro, não podíamos ofender os nossos clientes, os mesmos que nos trouxeram até aqui. Evoluímos para outro tipo de calçado, na área do plástico”.

Numa primeira fase, a Procalçado entrou na área profissional, com um tipo de modelos próprio para o mercado hospitalar e restaurantes, debaixo da marca Wock. Daí até ao calçado de moda, especialmente para o universo feminino, foi um passo.

A inspiração, reconhece José Pinto, veio do outro lado do Atlântico, do Brasil, onde a Melissa estava a dar cartas. “Começamos a divergir dentro daquela linha deles, isso entusiasmou-nos a testar novos processos. Desenvolvemos técnicas e moldes e lançamos a Lemon Jelly”. A empresa tinha ainda a experiência de produzir para a prestigiada marca inglesa, Hunter.

“O resultado é um produto muito bonito, com ótimos acabamentos, muitas aplicações, cores maravilhosas e com um cheiro próprio a limão, uma coisa suave para não agredir. É que o PVC tem sempre um cheiro não muito agradável e, quando entramos na fábrica, é essa fragrância que sentimos”, confessa o fundador da empresa.

Foi um momento de viragem no grupo. “Uma revolução. Porque repare, uma coisa é ter uma fábrica com cem trabalhadores e outra coisa é passar para uma fábrica com 400”, explica.

Investimento de sete milhões de euros

Para criar a nova marca, o grupo foi obrigado a investir perto de sete milhões de euros. “Tivemos de montar uma fábrica, crescer em pavilhões e armazéns para suportar o produto acabado. É um calçado de categoria, envolveu um número de pessoas muito grande, e não estávamos preparados nem em número de funcionários, nem fisicamente”.

Sandálias da marca Lemon Jelly

 

O balanço não podia ser mais positivo. O grupo fatura hoje 25 milhões de euros e emprega mais de 400 trabalhadores. E, apesar dos 40 anos de idade, continua a apostar no crescimento com base na inovação e em desenvolvimento tecnológico.

A aposta internacional é também uma constante. A Procalçado exporta 90% do que produz a partir do complexo industrial nos Carvalhos, a cerca de 20 quilómetros do Porto.

“Temos de ir a todas: na área das solas vendemos aos industriais de calçado, e os sapatos temos que ir vender ao comércio internacional. São duas coisas diferentes mas são da mesma família”.

Presença nos cinco continentes

E para onde exporta a Procalçado? A resposta sai rápida da boca do fundador da empresa: “Para todo o mundo. Estamos presentes nos cinco continentes, porque Portugal é pequenino e não podemos contar com ele”.

A For Ever exporta para mais de 50 países, e a própria Lemon Jelly exporta para todo o mundo, sendo que os países que compram mais sapatos são a Alemanha e França dentro da Europa. Fora, Estados Unidos e Canadá competem como melhores compradores. Já a Wock, é mais vendida sobretudo no mercado europeu.

Exemplos de solas que são feitas pela Procalçado

 

Apesar de toda a inovação ligada a novos produtos, as solas, o ponto de partida da empresa, continuam a ser o maior negócio do grupo, com a área dos sapatos a pesar no conjunto (Wock e Lemon Jelly) 25%.

A For Ever, faz solas para algumas das principais marcas de calçado do mundo (Hunter, Camel, Armani Jeans, ECCO, Gabor) e, apesar de reunir uma grande coleção, a marca é especialista em projetos por medida. De resto, a empresa tem um lema dirigido aos criadores de calçado: “Se o conseguir sonhar, nós conseguimos torná-lo real”. As solas do grupo estão presentes em várias áreas de especialização, desde a moda ao exército.

José Pinto diz que isso só é possível porque a empresa se adequa aos tempos modernos. “Investimentos em tecnologia e maquinaria, de modo a poder responder às necessidades dos nossos clientes. Até porque hoje exige-se qualidade, rigor, versatilidade e rapidez”.

A Lemon Jelly na vertente masculina

 

E relativamente ao calçado de plástico? Qual das áreas pesa mais, a moda ou o profissional? Apesar de a empresa não divulgar os números para cada uma das novas marcas, a Lemon Jelly já pesa mais do que a Wock.

Em 2016, a gama de moda [Lemon Jelly] já teve mais peso porque gere uma gama de modelos muito maior do que a área hospitalar uma vez que as senhoras são mais exigentes.

José Pinto

Presidente do grupo Procalçado

O presidente da Procalçado não gosta de fazer previsões mas garante que a Lemon Jelly é a que tem maior margem para crescer. “As previsões a longo prazo não são fáceis porque as políticas comandam o mundo e a instabilidade gera problemas nos nossos projetos. Por isso temos de ir caminhando lentamente”, assinala.

A sucessão

Para José Pinto, a indústria do calçado vive hoje um novo paradigma. O setor que estava no início do século XXI a fazer um calçado médio ou menos de médio, resolveu pôr mãos à obra e fazer uma grande aposta em investigação e tecnologia. “Foi assim que passámos a produzir uma linha de calçado de médio para cima e conquistámos outro tipo de mercado”.

Hoje, garante José Pinto, “sentimo-nos bem e somos o segundo país, logo atrás de Itália, a ter o preço mais caro do sapato”.

Para isso, garante e pega no seu exemplo pessoal, a nova geração de industriais teve e tem um papel fundamental. A sucessão, um tema tão querido e simultaneamente tão maltratado no universo das empresas familiares, parece resolvido na Procalçado. José Pinto (filho) é hoje o CEO da empresa e foi dele a ideia de criar a Lemon Jelly, por exemplo. “Ele queria deixar a sua marca”, remata.

José Pinto, fundador e presidente da Procalçado

 

Sobre o setor, José Pinto garante que “chegou ao “grau máximo”. Penso que não vamos ultrapassar Itália em termos de preço, até porque Itália tem tradição, é um país grande, um país de marca, de desenhadores e pintores. É um país de criação, coisa que Portugal não é”. A somar a tudo isto “há escola”. “Em Portugal apenas existem uns centros tecnológicos, alguns deles quase falidos. Penso que o segundo lugar é ótimo, Itália tem capacidade e indústrias auxiliares que nós não temos”.

Lojas próprias

Uma vez estabilizados os investimentos mais recentes, como a criação da Lemon Jelly, o grupo equaciona a abertura de lojas próprias. “Não temos escritórios fora de Portugal, mas é uma ideia que prevalece, assim como abrir lojas próprias. Para já é preciso estabilizar os nossos projetos”, afirma o presidente do grupo de calçado.

José Pinto garante que “não há um ‘timing’ definido mas está no nosso horizonte. Esperamos que se desanuvie um pouco por toda a Europa porque estes casos de atentados terroristas como o de Londres desestabilizam-nos”.

Mas desengane-se quem pensa que Portugal será a primeira opção a receber uma loja Lemon Jelly. “Não começarei por Portugal, aqui já há muitas lojas abertas, e muitas até estão a fechar, temos que vender onde se consome”, garante.

 

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