TMG Automotive: tecnologia e qualidade de mãos dadas

Isabel Furtado, presidente da TMG Automotive, diz que nos próximos 5 anos a empresa vai faturar 120 milhões de euros, através da entrada de novos clientes (mercado alemão) e mais modelos.

É um das principais empresas do setor têxtil e pertence a um dos grupos de referência de todo o setor e um dos mais ‘low profile’ da economia portuguesa. A TMG Automotive, é uma subholding do grupo Têxtil Manuel Gonçalves (TMG) que atua na indústria de tecidos plastificados e outros revestimentos para a indústria automóvel. Ligada a um grupo tradicional, a TMG Automotive impôs-se no difícil mundo do automóvel e já fatura 93 milhões de euros. A expectativa é que daqui a cinco anos, a empresa esteja a faturar 120 milhões de euros.

A diversificação para a área automóvel acontece muito cedo na empresa com sede em Famalicão.

Isabel Furtado, neta do fundador da empresa, e atual CEO da TMG Automotive adianta em entrevista ao ECO que “a ideia do ramo automóvel nasce muito cedo na TMG. Nos anos 60, o grupo TMG já fazia tecidos plastificados, nomeadamente a plastificação de telas para oleados e para tendas militares”.

Na altura não havia em Portugal tecnologia de plásticos, o que leva Manuel Gonçalves a ir à Catalunha buscar um engenheiro. O sucesso foi imediato e em 1971 a TMG já fornece assentos para a marca SAAB, a que se junta já no fim da década de 70 a Volvo.

Em 1986 o grupo TMG investe em outras áreas de negócio e divide o grupo em unidades verticais. Surgem então a TMG Tecidos, a TMG Fios, a TMG Malhas e a TMG Automóvel. Fora do setor, o grupo investe no retalho e distribuição de vestuário desportivo (Lightning Bolt), meios aéreos (HeliPortugal), Efacec, — chegou a ter uma posição relevante, tendo num passado recente alienado grande parte dessa posição à empresária Isabel dos Santos, — e ainda na produção e distribuição vinícola (Caves Transmontana e Casa de Compostela).

Isabel Furtado diz que esta divisão foi fruto de “uma maior flexibilização de mercado e de melhor organização porque de facto é diferente gerir uma industria do setor têxtil e uma industria do setor automóvel“.

No ano 2000, prossegue Isabel Furtado “a TMG começa a fazer praticamente só automóvel. Para além do têxtil para automóvel fazíamos também sacos de golfe, telas e balões insufláveis como a piscina do Fluvial no Porto”.

Até que finalmente em 2004/2005 nasce a TMG Automotive “dedicada exclusivamente para o setor automóvel”. Mas a crise do setor automóvel estava à espreita. “Na TMG Automotive estávamos a meio de um grande investimento. Eram 30 milhões de euros”, conta a CEO da empresa.

“Não queríamos parar e então fizemos uma maior aproximação aos nossos clientes. No setor automóvel temos que distinguir quem é o nosso cliente final e apostamos em novos produtos e em subir na escala de valor”, diz orgulhosa Isabel Furtado.

Apesar das dificuldades, — à crise financeira juntou-se a crise das dívidas soberanas e a entrada da troika em Portugal, — a empresa com sede em Campelos Guimarães foi trilhando o seu caminho.

Um caminho de sucesso que se mede pelos clientes. “Em 2009, o nosso melhor cliente era a OPEL, seguida da Toyota. Neste momento o meu melhor cliente é a Mercedes, seguida pela BMW. Crescemos não apenas em valor, como em volume. Até porque continuamos a fazer a OPEL e a Toyota”.

Mas se o nome dos clientes deixa antever os anos de sucesso da empresa, os números são como o algodão e não enganam. Em 2009, a TMG Automotive faturava 20 milhões de euros, em 2016 o volume de negócios atingiu os 93 milhões de euros.

Em seis anos quadruplicámos a nossa faturação“, remata a gestora. “Estamos neste momento a trabalhar com a capacidade total da fábrica, não podemos ir muito além dos 95 milhões de euros. No entanto, com a entrada em funcionamento da nova linha de produção podemos atingir os 120 milhões de euros nos próximos cinco anos”.

Isabel Furtado diz que estes números são possíveis “através de novos clientes (mercado alemão) e mais modelos em clientes já existentes”.

Investimento de 45 milhões de euros

Manuel Gonçalves, fundador do grupo TMG, era detentor de uma máxima que ainda hoje perdura na empresa: “Tecnologia e qualidade de mãos dadas”. E é para fazer face a essa velha máxima que a empresa tem a decorrer um investimento de 45 milhões de euros na construção de uma nova fábrica que deverá estar a funcionar em janeiro de 2018. A nova fábrica fica situada nas antigas instalações da Têxtil Manuel Gonçalves, em Vale de São Cosme, Famalicão.

Para Isabel Furtado, o “objetivo é aumentar a produção e para isso vamos ter que contratar mais 150 pessoas“.

Na realidade, o investimento são 52,5 milhões de euros, o grosso fica a cargo da TMG Automotive, e os restantes 6,9 milhões ficam a cargo de TMG Tecidos.

“Neste momento temos 450 pessoas que estão afetas à nossa fábrica automóvel 1, e que continuará a laborar, mesmo depois da nova fábrica estar pronta. Aliás, para a nova fábrica já contratámos mais 100 pessoas que estão também nas nossas instalações a receber formação”.

Isabel Furtado garante que o objetivo “é aumentar a nossa capacidade de produção, crescendo nos atuais clientes, mas também temos que crescer em novos clientes”.

Clooney ‘made in’ TMG Automotive

A TMG Automotive exporta 99% daquilo que produz. “Há apenas um produto que não exportámos. É um artigo que é utilizado para fazer fatos de pescador”, refere a presidente da empresa.

E foi esse mesmo produto que terá sido utilizado para um impermeável vestido por George Clooney no filme Tempestade Perfeita.

Mas para que mercados exporta a empresa?

A resposta sai rápida a Isabel Furtado: “Eu não diria que mercado, no nosso caso trabalhamos com clientes, e tanto tenho a BMW a receber o meu material na África do Sul, como na China ou na Europa. Diria que o meu cliente principal é a Alemanha, uma vez que os meus maiores clientes são a BMW, se juntarmos a Mini, e a Mercedes“.

Apesar de tudo o que é produzido pela TMG Automotive ser feito em Portugal, essa realidade vai rapidamente ser alterada. Em causa uma diretiva do governo chinês que obriga a produzir localmente para os carros produzidos para o mercado chinês.

Vamos ter que produzir uma parte localmente na China, já andamos a trabalhar uma solução, mas será apenas para o mercado local, uma vez que não justifica trazer para cá. Neste momento exporto cerca de 7,5% para a China através da Daimler, BMW e Volvo“.

Falta de engenheiros

A falta de engenheiros a saírem das Universidades é uma das dificuldades que Isabel Furtado aponta quando se fala de mão-de-obra para o setor.

“A mobilidade de mão-de-obra é hoje mais fácil do que há uns anos atras, mas o nosso maior problema são algumas engenharias como polímeros de materiais e têxtil“.

Para Isabel Furtado esta dificuldade está diretamente relacionada com a grande absorção por parte da Bosch, por exemplo no campo das engenharias. Ainda assim a gestora reconhece que: “o têxtil passou a ser novamente uma indústria atrativa pelo que penso que vai aumentar a procura de cursos ligados a esta área“.

A TMG Automotive tem tido ao longo dos anos, até porque Isabel Furtado era vice-presidente do conselho geral da Universidade do Minho, uma forte ligação com a Universidade da região.

Isabel Furtado confirma essa ligação a que acrescenta ainda a Universidade do Porto. “Ministramos os estágios dessas faculdades aos alunos dos mestrados”. A gestora fala ainda na proximidade, a mesma que invoca para justificar a grande proximidade que têm com os centros tecnológicos. “Temos que pensar que os detentores de conhecimento são os centros tecnológicos e somos os únicos na indústria que conseguimos transformar esse tipo de conhecimento em bens”.

A TMG Automotive tem que estar sempre a inovar, pelo que 5 a 6% da faturação anual é canalizada para inovação e desenvolvimento. “Deixamos muito da inovação explorativa para as universidades e para os centros tecnológicos e depois toda a inovação incremental e de desenvolvimento é feita dentro de casa”.

Concorrentes fora de Portugal

“Os nossos concorrentes são todos fora de Portugal. O nosso maior concorrente é um grupo alemão, muito, muito grande com uma quota de mercado de 40%”, afirma Isabel Furtado.

Para a gestora não há dúvida: “A nossa vantagem face a eles é que somos mais flexíveis, talvez mais inovadores em muitos aspetos, mas temos o problema de sermos periféricos, não só face ao centro de decisão que está na Alemanha, mas também em termos de distância, uma vez que as matérias-primas vêm do centro da Europa”.

E sendo uma das principais empresas do setor, como é que a presidente da TMG Automotive olha para a indústria têxtil?

“O setor têxtil continua a ser um setor de importância extrema em Portugal, houve quem o quisesse abolir há uns anos, mas o que é certo é que o têxtil renasceu outra vez, aumentamos brutalmente a capacidade e o volume de negócios, com menos gente e eventualmente também com menos empresas, mas com muito maior valor acrescentado”.

E Isabel Furtado evoca outra das diferenças da indústria face ao exterior: “temos uma coisa que é única na Europa. Num raio de 20 quilómetros com epicentro em Famalicão temos toda a indústria têxtil: fio, tecido, malha e acabamentos e confeção. Itália já teve mas deixou de ter e a este facto acresce ainda que “somos rápidos, podemos ganhar no serviço, temos bom design, temos excelente confeção, portanto o têxtil é um setor para ficar em Portugal”.

Mas nem tudo são rosas dentro da indústria. Os problemas existem e devem ser combatidos. Para Isabel Furtado, o maior problema que o setor tem pela frente é o de “ainda precisar de alguma restruturação e de estar ainda bastante alavancado financeiramente. Mas tem vindo a ser limpo e a tornar-se mais eficiente até porque a própria crise fez uma seleção natural”.

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