INE disse ontem que desemprego é de 10,1%. Hoje a OCDE diz 9,9%. What?

  • Margarida Peixoto
  • 11 Maio 2017

Com apenas um dia de diferença, o desemprego parece ter caído duas décimas -- o suficiente para passar de dois para apenas um dígito. Como é que isto foi possível?

De acordo com dados da OCDE, publicados esta quinta-feira, a taxa de desemprego em Portugal no primeiro trimestre deste ano já ficou abaixo dos dois dígitos: caiu para 9,9%. Mas ainda ontem o Instituto Nacional de Estatística (INE) revelou a taxa de desemprego para os meses de janeiro a março de 2017: 10,1%. Ao longo dos últimos meses, o mesmo INE publicou os valores mensais — 10,1% em janeiro, 9,9% em fevereiro e uma estimativa provisória de 9,8% para março. Afinal, em que ficamos? Qual é a taxa de desemprego no país?

Primeiro: nenhum dos números está errado. Parece confuso, é certo, mas todos os dados enunciados estão corretos. Mais: foram todos calculados pelo INE, incluindo o que foi esta quinta-feira publicado pela OCDE. Aqui fica uma seleção dos dados publicados pela OCDE – estes são os países com taxas de desemprego acima de 6%.

Países da OCDE com desemprego acima de 6%

Países com dados disponíveis. Fonte: OCDE

E esta foi a informação publicada pelo INE, um dia antes:

Como é que isto é possível? A primeira pista está nas notas metodológicas da OCDE. A organização esclarece que para os Estados-membros não faz quaisquer cálculos — utiliza apenas os dados publicados pelo Eurostat. Acontece que o Eurostat só tem previsto no seu calendário publicar os dados trimestrais de desemprego a 31 de maio.

Mesmo assim, o ECO procurou nas bases de dados do instituto de estatísticas da União Europeia. E, de facto, lá está o número:

Tendo em conta que as estatísticas do Eurostat são, na verdade, alimentadas pelo INE, o ECO contactou o organismo português. “À data, o Eurostat não dispõe, ainda, das estimativas relativas ao primeiro trimestre de 2017, para a maioria dos países”, respondeu o INE. Então que número é aquele? “A taxa de desemprego de 9,9%, que encontrou no site, corresponde à estimativa mensal, ajustada de sazonalidade, do trimestre móvel centrado em fevereiro 2017 e publicada pelo INE no Destaque das Estimativas Mensais, divulgado em 28 abril”, esclareceu o gabinete de imprensa.

Ou seja: o Eurostat não publicita, mas atualiza a sua base de dados com o valor mensal de fevereiro enquanto não tem disponível o valor trimestral. Faz sentido? À falta de melhor número, poderá fazer: é que o valor mensal de fevereiro corresponde, na verdade, a um valor apurado com base nos dados já recolhidos de janeiro e fevereiro, e dados incompletos de março. É, por isso, uma boa aproximação de um número trimestral.

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