Joseph Stiglitz: Trata-se o limite do défice “como se fosse dado por Deus”

  • Marta Santos Silva
  • 30 Maio 2017

"De onde vieram os [limites europeus para] o défice e a dívida? Não há base económica para eles", afirma Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia e crítico do euro. "São falíveis. Estavam errados".

Joseph Stiglitz criticou esta terça-feira a organização da zona euro, em especial a forma como foram criados os limites para o défice, a dívida ou a inflação. O antigo laureado com o Nobel da Economia afirmou, nas Conferências do Estoril, que o euro foi “resultado dos tempos”, e que se tivesse sido criado “depois da crise de 2008, não haveria tanta fé no mercado”.

Joseph Stiglitz, economista norte-americano, criticou duramente o euro nas Conferências do Estoril.Paula Nunes/ECO

Joseph Stiglitz fala esta terça-feira nas Conferências do Estoril enquanto vencedor do prémio Estoril Global Issues Distinguished Book Prize 2017, pela sua obra O Euro e a sua ameaça ao Futuro da Europa. O prémio foi-lhe apresentado pelo reitor da NOVA School of Business & Economics, Daniel Traça.

O economista norte-americano afirmou que o euro “foi desenhado para restringir o Governo” e limitar decisões nacionais sobre défice, dívida ou política monetária. Mas, referiu, de onde vieram os números usados para as limitar? O limite de 3% no défice, o de 60% do PIB para a dívida ou o de que a inflação não deve ultrapassar os 2% foram alguns dos exemplos dados por Stiglitz. “De onde vieram estes números?”, perguntou na sua intervenção no Centro de Congressos do Estoril, ao receber o prémio. “Não há base económica para eles. Mas hoje, na Europa, tratam-se como se fossem dados por Deus. Como se fosse uma violação das leis básicas da natureza quebrar essas regras”.

“Mas são feitos por pessoas, e são falíveis”, acrescentou. “Na verdade, estavam errados”. E o problema, afirma ainda o economista, está na zona euro em si. “Era suposto trazer prosperidade”, referiu, e criar um sistema em que os países mais pobres eram elevados ao nível dos mais ricos. “Em vez disso, levou a um sistema divergente com os mais ricos a ficarem mais ricos e os mais pobres a ficarem mais pobres“, acrescentou.

No seu livro que lhe valeu esta terça-feira o prémio, Stiglitz critica a moeda e apresenta três caminhos possíveis para salvar a Europa dos problemas do euro, que incluem reformas fundamentais na zona euro e nas imposições aos países que pertencem à moeda única, um fim da moeda, ou um novo sistema a que chamou o ‘euro flexível’.

A zona euro, disse esta segunda-feira, foi um projeto que resultou de uma perspetiva um pouco ingénua da época. “Alguns anos após a queda do Muro de Berlim, muitas pessoas interpretaram o fim do Império Soviético como testemunho da forma do sistema capitalista ocidental. Mas não era. Era testemunho da fraqueza do sistema comunista, que não poderia resultar”, afirmou o economista premiado. “Se o euro tivesse sido fundado uns anos mais tarde, depois da crise de 1997 ou 1998, ou depois da crise de 2008, não haveria tanta fé no mercado”, acrescentou.

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