Berço da cerâmica e das bicicletas

  • Filipe S. Fernandes
  • 22 Agosto 2017

Portugal foi o primeiro produtor e exportador de cerâmica de uso doméstico em grés e faiança da União Europeia e o segundo exportador mundial.

Foi também o terceiro exportador da UE de louça sanitária, registando ainda uma posição relevante no contexto da UE enquanto produtor e exportador de pavimentos e revestimentos cerâmicos e louça ornamental. Este cluster integra os segmentos de cerâmica estrutural, de pavimentos e revestimentos, de louça sanitária, de cerâmica utilitária e decorativa em faiança e porcelana, bem como preparação de massas cerâmicas e as cerâmicas refratárias e os equipamentos para o fabrico de cerâmica tem o seu centro de gravidade na região centro, nomeadamente nas regiões de Coimbra e Aveiro.

A miríade de empresas com capacidades tecnológicas, de produção e design estende-se um pouco pela região. Se o grupo Vista Alegre Atlantis, que até 2009 teve como acionistas membros da família Pinto Basto que a fundara em 1824, em Ílhavo, e hoje pertence ao grupo Visabeira, é um dos principais porta-estandartes, há inúmeros exemplos de empresas com grande peso internacional.

Na cerâmica decorativa encontra-se as Porcelanas da Costa Verde, Porcel, Faianças Primagera, Grestel – Produtos Cerâmicos ou Matcerâmica. Nos pavimentos e revestimentos estão os casos da Proceram – Indústrias de Construção, grupo com sede em Pombal, especializado em cerâmica estrutural sendo o maior produtor em Portugal de tijolo cerâmico, incluindo tijolos, telhas e abobadilhas cerâmicas, o grupo Recer, Revigrés, Pavigrés Cerâmicas ou ainda os italianos da Gres Panaria Portugal.

Existem ainda nesta região, com extensão para Leiria de empresas na área das louças sanitárias como a Roca, grupo espanhol que tem uma dimensão global e que faz das instalações fabris a sua base global nestes tipos de produtos, que detém também a Sanitana ou Sanindusa.

Outro caso interessante é o grupo Mota Ceramic Solutions, fundado por Adelino Duarte da Mota, em 1950, como fornecedor de pastas argilas especiais para a preparação de pastas brancas para a indústria de cerâmica: hoje, a empresa é um ator importante tanto na mineração como na produção de pasta cerâmica com empresas produtoras de caulinos, direitos de exploração sobre mais de vinte e cinco concessões mineiras de quartzo e feldspato, preparação e comercialização de pastas cerâmicas prontas para faiança, grés, sanitário, eletro porcelana e porcelana fina.

Em articulação com estas empresas fornecedoras da indústria de construção civil, surgiram empresas como a OLI, que propõe soluções e produtos para o “ciclo doméstico da água” como autoclismos, módulos sanitários, tubagens, torneiras, ou a alemã Grohe Portugal, também em Albergaria-a-Velha, que produz 25% da produção total da marca (todas as linhas de produtos dirigidos a quarto de banho, SPA, soluções de duche e acessórios de banho, placas de descarga de águas sanitárias). A Cacia chegou, em 1977, a Vulcano que, com base na tecnologia da Robert Bosch, se tornou líder de mercado em Portugal com esquentadores e aquecedores térmicos de água, tornando-se posteriormente um dos principias centros de competência neste tipo de produtos. Por sua vez, a Teka tornou-se um grande fabricante de equipamentos de cozinhas, enquanto a Tensai, em Estarreja, se especializou no frio.

Nesta região, as empresas e os negócios organizam-se como peças de dominó: as peças vão-se encaixando num jogo sem fim. Por exemplo, existe a Saint Gobain Mondego – empresa filial da francesa Verallia, que reuniu em 2010 todas as atividades do grupo Saint Gobain relacionadas com o vidro de embalagem, que pertencia à antiga Vidreira do Mondego. Mas ao longo do tempo forma-se desenvolvendo empresas de transformação de vidro como o Grupo Maxividro, a Viapoli – Fibra de Vidro, a VR Fiberglass Solutions que produz telas de fibra de vidro especializadas para os setores automóvel, naval, aeronáutico, e da construção civil, ou a Biselarte – Sociedade de Vidros.

Além-cerâmica

Mas além da indústria cerâmica, a Beira Litoral alberga uma fábrica de cimento, um centro de produção em Souselas da Cimpor, dotado com uma capacidade instalada de 3,50 milhões de toneladas/ano e com funções de âmbito nacional na área ambiental com a queima de resíduos. Na indústria da pedra houve uma evolução das empresas, que passaram do produto para as soluções cada vez mais especializadas e sofisticadas, com uma subida na cadeia de valor. Como se refere na obra coletiva dirigida por J.M Félix Ribeiro, Portugal ao Centro, que contou com o apoio da Fundação Gulbenkian, há exemplos que passaram da extração à oferta de produto acabado (Marfilpe), as que apostam na matéria-prima nacional (MVC e Invest Naturalstone em Vagos), as que se especializam no ‘acabamento’ do produto e que apostam na oferta de ‘soluções’ viradas para nichos de mercado e ainda as que diversificam a sua área de oferta e atuação. Casos como o da Barmat Barros & Matias, com sede na Zona Industrial de Oiã — Oliveira do Bairro –, e fundada em 2002, disponibiliza um leque variado de soluções técnicas em pedra – soluções inovadoras e a feitio, concebidas, desenvolvidas e implementadas em colaboração com os seus clientes ou da Incoveca Granitos, empresa de Viseu que se especializou no setor transformador de rochas ornamentais, são exemplares.

Tão competitivos como o Japão

“O custo de produção em Portugal, por exemplo, é absolutamente competitivo com o do Japão”, dizia Marc Llistosella, presidente e CEO da Mitsubishi Fuso Truck and Bus, que veio assistir ao lançamento da primeira carrinha totalmente elétrica da marca na fábrica do Tramagal. Desde os anos 60 que, com a criação da fábrica da Citroen Lusitana em Mangualde, da associação da Metalúrgica Duarte Ferreira com a Berliet para fabricar camiões no Tramagal, e da criação da hoje Toyota Caetano, que o cluster da mobilidade começou a ganhar contornos.

O custo de produção em Portugal, por exemplo, é absolutamente competitivo com o do Japão.

Marc Llistosella

Presidente e CEO da Mitsubishi Fuso Truck and Bus

Como se escreve em Portugal ao Centro, “foi com o projeto Renault no início da década de 80 do século XX que este cluster deu um salto extraordinário, quando se instalaram uma grande fundição de ferro e aço para a indústria automóvel – a Funfrap, e uma unidade para fabrico de motores e caixas de velocidades. Ou seja, a maior concentração de fabrico de componentes mecânicas complexas para o setor automóvel que existiu no país. Com a saída da Renault, as duas instalações sobreviveram, mas com dimensão mais reduzida e produção reorientada, sobretudo no caso da unidade em que se fabricavam os motores, que deu origem a uma nova empresa a Cacia – Companhia Aveirense de Componentes para Indústria Automóvel, uma fábrica do Grupo Renault localizada no centro industrial da freguesia portuguesa Cacia (distrito de Aveiro), dedicada à produção de órgãos e componentes para a indústria automóvel. Nesta fábrica são produzidos componentes para motores, nomeadamente bombas de óleo, árvores de equilibragem e outros componentes em ferro fundido e alumínio”.

Uma certa integração na cadeia de fornecimento da indústria automóvel espanhola e europeia fez surgirem, tanto empreendimentos de grupos nacionais que foram nascendo crescendo, como marcas internacionais que se fixaram pelas veredas da Beira Litoral. Ao longo do tempo foram-se criando grupos nacionais como o Sodecia ou a Epedal ou Sassal, Veneporte. Mas também siglas internacionais como a Mahle, Gametal/Kirchoff, Huf, Faurecia, Brose, Dura Automative se espalham um pouco pelo território das regiões de Coimbra, Aveiro ou Viseu.

Como se assinala na obra Portugal ao Centro há uma espécie de caminho que leva do habitat ao automóvel através o têxtil para pavimentos e revestimentos. É um bom exemplo de como os negócios tradicionais se entrelaçam com os novos e assim se entretece uma malha industrial mais forte e resiliente. Nas orlas costeiras da região como Cortegaça e Ovar existia a indústria da cordoaria que estava associada à tapeçaria como aconteceu com o grupo Lusotufo que é um dos principais produtores ibéricos de pavimentos têxteis, a Sicor ou a Exporplas. A Safina de Ovar passou das alcatifas para a relva artificial de que é também um dos grandes fabricantes ibéricos. O grupo Cordex evoluiu também para a produção de espumas flexíveis de poliuretano através da Flex2000. Nos anos 1980, começaram a instalar-se empresas de têxteis técnicos tem como alvo a indústria automóvel como é o casos da sueca Borgstena Textile Portugal, em Nelas, ou a finlandesa Valmet.

O regresso das bicicletas

Duas indústrias marcam a região de Aveiro e Coimbra tendo como epicentro Águeda. Uma é a concentração de fabricantes de mobiliário metálico para escritório, com múltiplas empresas como a Guialmi, a Levira, a Rall, a Melix e a Alital. A Cortal, do grupo norte americano Haworth, esteve na génese do atual grupo Altri que controla a Ramada, em Ovar, e detém as empresas de celulose Celtejo, Caima e Celbi e ainda o grupo Cofina Media.

A outra, a indústria de duas rodas que começou pelas bicicletas, passou pelas motorizadas e regressou às primeiras, que hoje vivem uma nova prosperidade. Em 2016, Portugal foi o maior exportador europeu com 1,65 milhões de bicicletas, ou seja, 15% das exportações da União Europeia, produzindo (montando) perto de dois milhões de bicicletas. É o terceiro maior montador de bicicletas da Europa, “o que nos traz alguma responsabilidade mas também algum orgulho”, esclarece João Pires, presidente da ABIMOTA – Associação Nacional das Indústrias de Duas Rodas.

Mas Portugal não é só montador de bicicletas. E não se resume às dez empresas que montam bicicletas: o país tem uma indústria de componentes e serviços à volta, porque não é unicamente a montagem de bicicletas que vai reavivar a indústria das duas rodas em Portugal. Os componentes são fundamentais: “Temos de ter a supply chain porque, com a rapidez com que os produtos têm de chegar ao mercado, não é com os componentes a ser fabricados na Ásia que vamos conseguir superar este desafio”, acrescenta João Pires, na apresentação do Portugal Bike Value que se realizou no auditório da Câmara Municipal de Águeda. A indústria portuguesa de bicicletas é composta por empresas de pequena e média dimensão, que empregam no total cerca de 1.500 trabalhadores, dos quais 750 na produção de bicicletas e os restantes nos componentes. Mas, se se contar com empregos indiretos, o número chega aos 7.500 trabalhadores.

Em meados da primeira década do século XXI, irrompeu no mercado e na Bolsa de Lisboa um grupo que tinha como foco estratégico de negócio a metalomecânica através do fornecimento de soluções de engenharia, tanto na construção como nas energias renováveis e estaleiros navais e minas. Fundado pelos irmãos Jorge e Carlos Martins, a Martifer ganhou projeção mas as luzes da ribalta foram-se apagando à medida que a grave crise económica e financeira mergulhava a construção, as obras públicas e o investimento público na maior crise da sua história.

Hoje, o grupo subsiste e resiste mas sem a glória daqueles primeiros tempos na Bolsa. Mas a sua erupção chamou a atenção para a força deste segmento de indústria metalomecânica ligeira e pesada como são os casos da Soima, que é um dos principais fabricantes europeus de gruas em Canas de Senhorim, Seveme — localizada em Sever do Vouga, Constálica em Vouzela, Prilux em Vagos.

Na metalomecânica pesada destaca-se o grupo ASM – A. Silva Matos, em Sever do Vouga, que tem três áreas de negócio ligadas à energia: Oil & Gás, Renováveis e Equipamentos de Transportes, dirigidas por cada um dos três irmãos, tendo sido fornecedora direta do CERN em equipamentos (por exemplo equipamentos de criogenia), sendo hoje é um fornecedor de referência para a indústria energética mundial. Na construção naval e oceânica ganhou nova vida o Estaleiros Navalria em Aveiro, que foi adquirida pelo grupo Martifer em 2008, tal como os Estaleiros Navais do Mondego, adquiridos pela Atlanticeagle Shipbuilding.

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