Mapa transmontano com componentes automóveis, azeite e cogumelos

  • Filipe S. Fernandes
  • 29 Agosto 2017

Portugal tem o maior produtor de cogumelos frescos da Europa e fornece marcas como a Audi e a BMW. Conheças as empresas em destaque em Trás-os-Montes e Alto Douro.

A indústria de componentes automóveis tem vários cachos regionais como Braga, Aveiro, Mangualde, Lisboa-Setúbal mas também salpica um pouco por outras regiões como Guarda, Bragança e Vila Real. Nesta cidade destaca-se Kathrein Automotive, fábrica de antenas para automóveis que produz 25.000 por dia e sete milhões por ano. Em 2017, “queremos chegar aos nove milhões de antenas e, em 2018, queremos alcançar os 14, 15 milhões”, revelou o diretor-geral da empresa alemã, Miguel Pinto. Até 2011 fez parte do Grupo Bosch e fornece marcas como a Audi e a BMW.

Por sua vez, em Bragança, a multinacional francesa Faurecia, um dos maiores fabricantes mundiais de equipamento automóvel, abriu uma segunda fábrica com mais 400 trabalhadores. A nova unidade de componentes para automóveis junta-se à já existente, desde 2001, em Bragança, atualmente com 850 trabalhadores, e produz sistemas de escape para as fábricas das marcas Jaguar Land Rover, Skoda, Daimler, PSA, Renault, Nissan ou Ford em que as tecnologias de controlo de emissões são fundamentais. Na sua inauguração, em junho passado, o então secretário de Estado da Indústria, João Vasconcelos, falava da proximidade da unidade. “Esta fábrica aqui está mais perto dos seus clientes, que são o resto da Península Ibérica, do que se estivesse noutras zonas de Portugal”, sublinhou, acrescentando que se trata de uma das unidades “mais sofisticadas de Portugal” com “tecnologias de Indústria 4.0, digitalização das fábricas, muito raro de encontrar, não só em Portugal, mesmo em toda a Europa”.

O presidente da Câmara de Bragança, Hernâni Dias, falava de criar um “cluster” automóvel em Bragança, através da atração de outras empresas que passarão a fornecer a Faurecia. “Há empresas italianas que já estão a laborar em Bragança diretamente neste setor, há outras que estão com vontade de se instalar, e o objetivo é que efetivamente consigamos criar as condições para que se instalem”. Para o efeito, o município aposta nas duas zonas industriais do concelho, a de Mós, e a ampliação das Cantarias.

As escolhas estão relacionadas com o facto de haver mão-de-obra qualificada, a localização privilegiada relativamente aos pontos de venda e a partilha dos recursos que já têm em Bragança, as parcerias com o Instituto Politécnico de Bragança.

A indústria extrativa tem uma grande importância no Alto Tâmega em que pontificam empresas como a Real Granitos e Arte Betão, Vértice da Primavera (unidade de extração, transformação e comercialização de ardósia, Granitender – Granitos e Empreitadas, Granitos da Ginjeira, Irmãos Queirós, extração e produção de britas, Transgranitos, Sociedade de Mármores Central Transmontana.

O granito é essencialmente explorado com duas finalidades: como rocha ornamental e como industrial. O primeiro tipo de granito apresenta diferentes características de cor e de textura, centrando-se, contudo, no granito cinzento (Pedras Salgadas), no amarelo e no cinzento porfiroide (ambos de Vila Pouca de Aguiar).

No município de Vila Pouca de Aguiar, a produção de granito ornamental apresenta uma forte concentração: 73% das explorações de granito estão licenciadas para esta produção, segundo dados relativos a 2005. A qualidade do granito deste concelho será responsável por este dinamismo, nomeadamente os granitos cinzentos e os granitos amarelo e beges da serra da Falperra.

No que concerne as argilas, Chaves destaca-se, não só por possuir o maior número de explorações licenciadas, como pela quantidade de recursos de que dispõe. A extração de areias e de saibros concentra-se especialmente nos municípios de Chaves, Boticas e Ribeira de Pena. Existem ainda empresas que exploram águas minerais como a VMPS do Grupo Unicer em Pedras Salgadas ou a Frize do Grupo Sumol-Compal em Vila Flor.

Produtos rurais com mercado global

A empresa Sapientia Romana de Chaves juntou o ouro comestível de 23,5 quilates à flor de sal do Algarve que, como referiu à Lusa, Ricardo Correia, era o ouro branco na época romana e cujos vestígios são bem visíveis na então Aquae Flaviae como a ponte de Trajano e as termas. A primeira edição constituída por lote com 500 unidades de flor de sal com ouro, de 90 gramas cada, foi vendida antes de chegar ao mercado. “Grande parte das encomendas veio do Dubai onde existe um fascínio por produtos que tenham ouro. A pesquisa de mercado revelou que é a região onde existem mais produtos com ouro”, disse à Lusa Ricardo Correia. A empresa Sapientia Romana entrou no mercado há quatro anos, com o mel com ouro. A Casa Aragão (Alfandega da Fé) lançou, em 2012, um azeite com folhas de ouro comestível de 23 quilates. O Complexo Mineiro Romano de Tresminas criou também um bombom de chocolate negro com ouro e mel de urze que junta “o melhor” de concelho de Vila Pouca de Aguiar.

Hoje, as plataformas digitais de comércio online permitem que ações como esta tenham uma clientela global e liguem regiões do interior ao comércio global. Qualquer uma das regiões tem produtos agroindustriais ou pecuários com certificação e denominação de origem ou indicação geográfica. Esta fileira de produtos endógenos poderá ser potenciada através da criação de uma marca única de promoção territorial e criação de produtos de Denominação de Origem Protegida (DOP), que poderão igualmente servir como alavancas à internacionalização da região.

Catarina Martins foi considerada a melhor jovem agricultora de Portugal em 2016 num prémio da CAP e do BPI e tem o seu negócio de produtora de hortícolas no Vale Vilariça. Filha de agricultores, estuda no Instituto Politécnico de Bragança e trabalha a terra de 10 hectares com produtos que se destinam ao mercado externo nomeadamente em Inglaterra e França tendo, para isso, investido num armazém de frio e logístico. Enquanto o seu pai é fornecedor de cadeias nacionais de distribuição, Catarina Martins preferiu arriscar em mercados mais exigentes. Enquanto isso sonha com a criação de uma organização de produtores no Vale da Vilariça, para ganhar escala e ganhar mercados.

A região do Douro tem uma extensa área de produção agrícola e hortofrutícola de gama variada, como a maçã, a uva, a cereja, a batata, a castanha, a amêndoa e a azeitona, bem como outros produtos. Na atividade pecuária destaca-se a produção de gado caprino e bovino. A região do Alto Tâmega viu a superfície agrícola utilizada (SAU) aumentar cerca de 17.000 hectares, num período de 10 anos. Nestas regiões existem na pecuária, carnes como a barrosã, a maronesa e a mirandesa de raças autóctones, vinhos, produção de mel, castanha, amêndoa, batata, fumeiro e floresta.

A Sortegel nasceu no coração da Terra Fria e da castanha pois de Bragança e Vinhais sai 80% da castanha produzida no país embora hoje compre matéria-prima no Minho, Marvão (Alentejo) e Viseu. Tem cerca de 300 hectares de produção própria Hoje transforma cerca de cerca de 10.000 toneladas. Hoje, a Sortegel congela e comercializa nomeadamente amoras silvestres, figo, morango, melão, framboesa assim como a cereja mas que representam ainda 10%. A empresa passou de uma capacidade de embalamento de congelados de 800 quilos por hora para 5.000 quilos. No embalamento em fresco, a passagem de duas para quatro máquinas, triplicou a capacidade. “Neste momento, estamos a vender para os mercados tradicionais da Europa. Alemanha, Suíça e Áustria são bons mercados, assim como o Brasil, mas também conseguimos entrar nos Estados Unidos da América (EUA) e Canadá, para onde começámos a vender há 15 anos. Agora, estamos a reforçar a nossa posição e queremos aumentar. No Japão, estamos a começar a entrar “, referiu Vasco Veiga, administrador desde 2002, ao Jornal de Notícias.

Mas não é só na castanha que surgem novos projetos ou se tornam mais sólidos. Neste concelho do distrito de Bragança está instalada uma empresa espanhola, a Almendras Morales, da área dos frutos secos que queria exportar para o Brasil. Juntaram-se os dois e vão começar a exportar, o que “vai dar lugar a um investimento dessa empresa espanhol para transformar a amêndoa em maior quantidade e embalamento”. As amêndoas são exportadas com a marca “Terras de Alfândega”, como indicou. Que em 2014 se instalou depois de um investimento de 1,4 milhões de euros.

A cultura da oliveira e a produção de azeite é um setor de especial importância para a região, objeto de vários investimentos nos últimos anos e do reconhecimento da sua qualidade, tendo sido atribuídos já alguns prémios a azeites do Alto Tâmega e de Terras de Trás-os-Montes. Mas neste setor surgiram também projetos para criar grandes áreas de produção como é o caso da empresa Sá Morais Castro.

José Maria Sá Morais Castro, que fundou a empresa Sotecnsol, e a mulher Maria Luísa Sá Morais Cabral Castro herdaram, nos anos 1950, olivais, terras de campo, pastagens, vinhas e hortas na zona de Macedo de Cavaleiros e Mirandela. Inicialmente apostaram na pecuária com bovinos, ovinos e caprinos. Mais tarde, compraram mais terras para plantação de olivais e amendoais. Os três irmãos, que hoje detêm a Sá Morais Castro – SMC, decidiram fazer a conversão do olival de sequeiro em regadio, no aumento da produtividade pela introdução de técnicas de tratamento novas na região, e plantação de mais olival e amendoal. Atualmente, a Sá Morais Castro detém cerca de 600 hectares de terras nos concelhos de Macedo de Cavaleiros e Mirandela, sendo 300 hectares de olival (a maioria já em regadio), 40 hectares de amendoal, 80 hectares de floresta, 44 hectares de montado, 25 hectares de pastagens permanentes e 60 hectares de terras de campo. Investiu igualmente numa nova adega com vista a, dentro de pouco tempo, colocar no mercado vinhos de grande qualidade. Em 2014 produziu vinho tinto e branco, em 2015 produziu igualmente vinho rosé, estando apostada em produzir vinho espumante no próximo ano.

Em outubro, com o tempo húmido, começam a surgir os cogumelos silvestres em Trás-os-Montes, e ainda hoje inicia-se a apanha para consumo e para venda, tanto mais que são também atração turística, cultural e gastronómica com caminhadas com apanha e identificação de cogumelos, encontros micológicos ou mostras gastronómicas. A aposta de organizações privadas ou municípios vem no sentido de atrair visitantes mas a importância dos cogumelos está no facto de destacar na economia da região, nomeadamente em Boticas, Chaves, Vila Pouca de Aguiar, Vila Flor, Carrazeda de Ansiães, Alfândega da Fé, Moncorvo.

É contudo, em Vila Flor, que fica hoje o maior produtor de cogumelos frescos da Europa. O grupo Sousacamp iniciou a sua a atividade em 1989 na freguesia de Benlhevai, concelho de Vila Flor, fazendo da interioridade uma das suas bandeiras. A empresa dedica-se à produção, comercialização e distribuição de cogumelos, e hoje tem sete unidades produtivas: cinco em Portugal (Vila Flor, Mirandela, Vila Real, Sabrosa e Paredes) e duas em Espanha, que movimentam 20 mil toneladas anuais de cogumelos.

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