Economistas à esquerda pedem cautela na descida de impostos

  • Margarida Peixoto
  • 20 Setembro 2017

Um estudo do Institute of Public Policy propõe um corte mais lento do défice e acréscimos de despesa para a Função Pública e os serviços. Mas mesmo assim é preciso fazer escolhas, avisa.

Ricardo Cabral, Paulo Trigo Pereira, Joana Andrade Vicente e Luís Teles Morais são os autores do estudo que propõe uma alternativa ao previsto no Programa de Estabilidade, mas mantendo a redução do défice e da dívida.Paula Nunes / ECO 20 setembro, 2017

O ritmo de consolidação orçamental previsto no atual Programa de Estabilidade (PE) não é “desejável,” não é “exequível” e pode “pôr em causa a coesão social,” defende um estudo do Institute of Public Policies, assinado por quatro investigadores, entre os quais o deputado do PS Paulo Trigo Pereira. Contudo, um alívio significativamente maior dos impostos face ao que está assumido pelo Executivo socialista para 2018 só é possível à custa de cortes nas despesas com pessoal, prestações sociais, ou serviços públicos, avisam os investigadores.

O documento (numa versão ainda preliminar) aparece em pleno período de negociações para o Orçamento do Estado para 2018, que será entregue pelo ministro das Finanças, Mário Centeno, a 13 de outubro. O debate público tem sido marcado pela margem orçamental que existe (ou a falta dela) para descer o IRS, descongelar as carreiras da Função Pública e integrar nos quadros os precários. O Governo tem frisado que não é possível assumir um custo superior a 200 milhões de euros com essa medida — que deve ficar concentrada nos contribuintes com mais baixos rendimentos — mas a esquerda tem argumentado que é possível ir mais longe e aliviar o esforço exigido à classe média.

Perante este debate, os autores do estudo Estratégias Orçamentais 2017-2021: as opções de política (para além de Trigo Pereira, o trabalho é assinado pelo economista Ricardo Cabral e os investigadores Luís Teles Morais e Joana Andrade Vicente) encontram um meio caminho.

Reduzir significativamente o esforço fiscal e melhorar o saldo orçamental só seria possível com uma redução da despesa pública em setores chave como a saúde ou educação, o que não nos parece desejável.

Estratégias Orçamentais 2017-2021: as opções de política

Institute of Public Policy

Primeiro, reconhecem que há uma margem orçamental acrescida que justifica uma revisão do Programa de Estabilidade e que permite aplicar uma política ligeiramente mais expansionista. Dito de outro modo, argumentam (e explicam porquê) que não é preciso reduzir tanto a despesa com está projetado por Mário Centeno.

Mas num segundo momento avisam que a margem é “pequena” e que obriga a tomar “opções.” Por exemplo: “Se se quer diminuir o nível de fiscalidade isso tem de ser feito à custa das prestações sociais, das despesas com pessoal ou dos consumos intermédios,” lê-se no documento. Ou “em relação à despesa com pessoal quer-se dar prioridade ao descongelamento das carreiras, à atualização salarial, ou ao emprego público,” questionam os autores. E respondem: “Não se afigura existir margem para os três simultaneamente.”

[Um esforço] excessivo significa que (…) a situação dos trabalhadores em funções públicas degradou-se de tal modo, e as expectativas de descongelamento de carreiras são tais, que uma política orçamental fortemente restritiva não seria socialmente aceite com facilidade.

Estratégias Orçamentais 2017-2021: as opções de política

Institute of Public Policy

Para deslaçar este nó, os autores propõem negociar o ritmo de consolidação orçamental com Bruxelas — baixando a exigência do Objetivo de Médio Prazo do atual excedente de 0,25% para um défice de 0,5% — e não cumprir o caminho previsto no PE, que consideram um esforço “excessivo”. E o que é “excessivo”? “Excessivo significa que consideramos que mesmo após os dois últimos anos de alguma reposição de rendimentos, a situação dos trabalhadores em funções públicas degradou-se de tal modo, e as expectativas de descongelamento de carreiras são tais, que uma política orçamental fortemente restritiva não seria socialmente aceite com facilidade,” respondem os peritos, no estudo.

O que é possível fazer diferente?

Na proposta do grupo de peritos, abordam-se as principais rubricas de receita e de despesa. Nos impostos é possível ir apenas ligeiramente mais longe no alívio e só de 2019 em diante. Nas despesas públicas defende-se que é possível manter uma tendência de redução do seu peso em percentagem do PIB, mas a um ritmo mais moderado.

Impostos

Os autores do estudo defendem que é possível baixar o IRS em 2018 ao nível do que já está assumido por Mário Centeno — os tais 200 milhões de euros de alívio, somados à eliminação definitiva da sobretaxa — e conceder alguma descida adicional em 2019, na ordem dos 100 milhões de euros.

No que toca ao IRC, propõem uma descida em 2020 e 2021 que pode ir até aos 350 milhões de euros no primeiro ano e 730 milhões no segundo.

Já o IVA só baixaria em 2021, no equivalente a 500 milhões de euros de receita a menos — o documento não concretiza um valor de taxa de IVA em concreto.

O gráfico seguinte mostra como evolui o peso das receitas fiscais e contributivas no PIB, no PE e de acordo com a proposta dos economistas:

Fonte: Programa de Estabilidade e Estudo IPP

Despesa com pessoal

O estudo avisa que não parece viável cumprir a contenção de gastos prevista pelo Governo, desde logo porque o número de funcionários públicos tem vindo a aumentar, em vez de cair, como estava previsto pelo Executivo, através da aplicação da chamada regra ‘2 por 1’ (apenas uma entrada por cada duas saídas). Além disso, os números do PE também não batem certo com a promessa de descongelamento de carreiras.

Por isso, a proposta dos investigadores é aumentar os gastos com pessoal face ao que está planeado pelo Governo, ainda em 2017, em 500 milhões de euros. Nos anos seguintes, assumem uma evolução salarial em linha com a inflação e um aumento progressivo dos gastos para acomodar o descongelamento de carreiras. Já o número de funcionários públicos deve ser mantido estável, com a aplicação de uma regra ‘1 por 1’, defendem.

Feitas as contas, a despesa com pessoal subiria 2,5% em termos nominais, um valor que ainda fica abaixo da previsão de crescimento nominal do PIB.

O gráfico seguinte mostra a evolução do peso das despesas com pessoal no PIB, de acordo com o PE e a proposta alternativa:

Fonte: Programa de Estabilidade e Estudo IPP

Consumo intermédio

Aqui os peritos dão destaque à área da Saúde, que consideram suborçamentada — uma avaliação que justificam com a subida da dívida a fornecedores dos hospitais empresa. Sugerem um gasto adicional de 350 milhões de euros já em 2017, através da libertação de cativações.

Este gasto adicional é projetado para os anos seguintes tendo em conta a inflação. Além disso, assumem um gasto extra entre 221 e 246 milhões de euros por ano, para reforçar os orçamentos dos serviços. Tudo somado, também esta rubrica deveria crescer a 2,5% ao ano, em termos nominais.

O gráfico seguinte mostra a evolução dos consumos intermédios no PIB, de acordo com o PE e a alternativa dos economistas:

Fonte: Programa de Estabilidade e Estudo IPP

Investimento

Segundo o relatório, o ajustamento orçamental tem sido feito no passado muito à custa da contenção do investimento público. Para os autores do estudo, esta estratégia deve ser interrompida, uma vez que “no curto prazo pode apoiar a retoma do investimento privado” e no longo prazo “pode aumentar o produto potencial e contribuir diretamente para o aumento da produtividade.”

Os acréscimos propostos para o investimento são de 206 milhões de euros em 2018 e vão subindo, até atingir um adicional de 779 milhões em 2021.

O gráfico seguinte mostra o valor do investimento previsto anualmente, em milhões de euros, no Programa de Estabilidade e nesta proposta alternativa:

Fonte: Programa de Estabilidade e Estudo IPP

Onde é que se vai buscar o dinheiro?

Há dois argumentos fundamentais que justificam a convicção dos quatro investigadores nesta proposta alternativa: primeiro, o cenário macroeconómico do atual PE já está desatualizado — a realidade revelou-se mais favorável, dizem. Segundo, assumem que é preciso negociar com a Comissão Europeia uma revisão do objetivo orçamental de médio prazo — a principal regra que restringe neste momento a política orçamental.

O objetivo é não só a melhoria dos serviços públicos, mas pôr a economia portuguesa a crescer sustentadamente, sobretudo crescer mais rapidamente do que a dívida pública.

Estratégias Orçamentais 2017-2021: as opções de política

Institute of Public Policy

Atualização do cenário macroeconómico

Os peritos partem de uma projeção do crescimento do PIB para 2017 de 2,6%, em vez dos 1,8% que ainda estão inscritos no PE. Daí em diante, assumem taxas de crescimento sempre superiores às projetadas pelo Governo, embora a diferença se vá esbatendo.

Fonte: Programa de Estabilidade e Estudo IPP

Esta evolução mais favorável explica-se tanto pelo ponto de partida de 2017 que está a ser assumido, como pelo impacto que os investigadores estimam que a menor contenção da despesa pode dar no crescimento. Na prática, o objetivo é fazer mais despesa pública, para ter também mais crescimento: “O objetivo é não só a melhoria dos serviços públicos, mas pôr a economia portuguesa a crescer sustentadamente, sobretudo crescer mais rapidamente do que a dívida pública,” lê-se no relatório.

Execução orçamental: margem de 732 milhões em 2017

O estudo apresenta uma estimativa atualizada das receitas e despesas púbicas em 2017. Ou seja, tem em conta o que se tem vindo a verificar na execução orçamental e assume essa “margem.” Para os autores, é possível (e em certa medida inevitável) gastar em termos líquidos mais 732 milhões de euros este ano, sem comprometer a meta do défice de 1,5% do PIB.

Esta “margem” adicional é consumida por 500 milhões de euros a mais do que o previsto em despesas com pessoal (uma vez mais, tem-se em conta que o número de funcionários públicos está a crescer e não a diminuir) e 352 milhões de euros de despesa de consumos intermédios que deve ser canalizada para a Saúde, defendem.

Ao mesmo tempo, contabilizam 250 milhões de euros de poupança em juros com o pagamento antecipado de dívida ao FMI e 130 milhões de euros de receita a menos obtida através dos dividendos do Banco de Portugal.

Efeito do programa do BCE

O documento defende que o PE não contabiliza o efeito nas contas públicas do programa alargado de compra de ativos do Banco Central Europeu. Este impacto advém tanto dos dividendos, como dos impostos sobre os lucros gerados pelo Banco de Portugal. Os autores estimam o impacto em 470 milhões de euros por ano de receita adicional nos cofres públicos.

Negociação com Bruxelas

Os quatro investigadores defendem que o atual Objetivo de Médio Prazo definido pela Comissão Europeia para Portugal é excessivamente exigente. Bruxelas diz que Portugal tem de atingir um excedente orçamental estrutural de 0,25% do PIB, o que obriga o país a consolidar em termos estruturais 0,6 pontos percentuais do PIB potencial por ano.

O resultado é um saldo primário em 2021 de 4,9%, “um excedente de aproximadamente 10.800 milhões de euros,” nota o documento.

Na versão proposta agora, assume-se que Portugal trabalharia para um objetivo de médio prazo de -0,5%, que é o valor inscrito no Tratado Orçamental. Neste cenário, há um ajustamento estrutural pequeno em 2018 e 2019, passando-se daí em diante para uma política neutral.

Desta forma, o saldo primário em 2021 passa para 3,6%, um objetivo que, mesmo assim é considerado “ambicioso e exigente” e em relação ao qual “seria eventualmente possível não ir tão longe.”

O que acontece ao défice e à dívida?

Nesta versão alternativa de Programa de Estabilidade, tanto o défice orçamental, como a dívida pública mantêm uma trajetória decrescente. Mas o défice cai mais devagar e os excedentes primários são mais pequenos. A consolidação orçamental estrutural mantém-se nos primeiros dois anos (numa dimensão pequena), mas desaparece nos seguintes, passando a política a ser neutral.

No gráfico seguinte comparam-se os saldos orçamentais e primários projetados no PE e pelos economistas do IPP (pode selecionar na legenda apenas os indicadores que pretende comparar):

Fonte: Programa de Estabilidade e Estudo IPP

Apesar de os défices nominais serem mais elevados, o peso da dívida pública no PIB continua a cair, porque se assume que a economia cresce mais. A projeção é que chegue a 2021 nos 110,2% do PIB, um valor ligeiramente abaixo dos 110,5% que os economistas acreditam que seria atingido se a estratégia do PE fosse seguida (embora no documento do Governo a meta inscrita seja de 109,4%).

O ECO recusou os subsídios do Estado. Contribua e apoie o jornalismo económico independente

O ECO decidiu rejeitar o apoio público do Estado aos media, porque discorda do modelo de subsidiação seguido, mesmo tendo em conta que servirá para pagar antecipadamente publicidade do Estado. Pelo modelo, e não pelo valor em causa, cerca de 19 mil euros. O ECO propôs outros caminhos, nunca aceitou o modelo proposto e rejeitou-o formalmente no dia seguinte à publicação do diploma que formalizou o apoio em Diário da República. Quando um Governo financia um jornal, é a independência jornalística que fica ameaçada.

Admitimos o apoio do Estado aos media em situações excecionais como a que vivemos, mas com modelos de incentivo que transfiram para o mercado, para os leitores e para os investidores comerciais ou de capital a decisão sobre que meios devem ser apoiados. A escolha seria deles, em função das suas preferências.

A nossa decisão é de princípio. Estamos apenas a ser coerentes com o nosso Manifesto Editorial, e com os nossos leitores. Somos jornalistas e continuaremos a fazer o nosso trabalho, de forma independente, a escrutinar o governo, este ou outro qualquer, e os poderes políticos e económicos. A questionar todos os dias, e nestes dias mais do que nunca, a ação governativa e a ação da oposição, as decisões de empresas e de sindicatos, o plano de recuperação da economia ou os atrasos nos pagamentos do lay-off ou das linhas de crédito, porque as perguntas nunca foram tão importantes como são agora. Porque vamos viver uma recessão sem precedentes, com consequências económicas e sociais profundas, porque os períodos de emergência são terreno fértil para abusos de quem tem o poder.

Queremos, por isso, depender apenas de si, caro leitor. E é por isso que o desafio a contribuir. Já sabe que o ECO não aceita subsídios públicos, mas não estamos imunes a uma situação de crise que se reflete na nossa receita. Por isso, o seu contributo é mais relevante neste momento.

De que forma pode contribuir para a sustentabilidade do ECO? Na homepage do ECO, em desktop, tem um botão de acesso à página de contribuições no canto superior direito. Se aceder ao site em mobile, abra a 'bolacha' e tem acesso imediato ao botão 'Contribua'. Ou no fim de cada notícia tem uma caixa com os passos a seguir. Contribuições de 5€, 10€, 20€ ou 50€ ou um valor à sua escolha a partir de 100 euros. É seguro, é simples e é rápido. A sua contribuição é bem-vinda.

António Costa
Publisher do ECO

5€
10€
20€
50€

Comentários ({{ total }})

Economistas à esquerda pedem cautela na descida de impostos

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião