De Ronaldo a “charmoso”, como Centeno é visto lá fora

  • Juliana Nogueira Santos
  • 4 Dezembro 2017

Após a eleição para o Eurogrupo, os meios de comunicação internacionais voltaram os holofotes para o ministro das Finanças português. Lá fora, Centeno é "Ronaldo", "charmoso" e "uma nova era".

Mário Centeno e Jeroen Dijsselbloem na conferência de imprensa após terem sido conhecidos os resultados das votações.EPA/STEPHANIE LECOCQ

Centeno era já apontado por muitos meios de comunicação como o favorito a ocupar a liderança do Eurogrupo. A sua origem, a cor partidária e a capacidade de controlar as contas públicas eram apontados como os principais truques na manga. Assim, somou o apoio dos pesos pesados europeus, fez campanha nos bastidores e nesta segunda-feira foi eleito para essa posição.

“Certamente saber ouvir e debater ideias é algo que todos entenderão ter feito parte da descrição das minhas tarefas nos últimos anos, e empregarei exatamente os mesmos princípios e o mesmo esforço nesta nova fase”, afirmou o ministro das Finanças na conferência de imprensa em português. E tal como aconteceu na fase de campanha, os meios de comunicação internacionais voltaram as luzes para este “Ronaldo das Finanças”, transportador de “charme português” e potenciador de uma nova era.

De “Ronaldo” a “charmoso”

Assim que Wolfgang Schäuble o apelidou de “Ronaldo do Ecofin”, não houve quem parasse o fenómeno. A alcunha, carinhosamente dada por um veterano das contas públicas, pegou e voltou a ser pegada neste dia de eleições. Após muitos meios terem feito título com a eleição do “Ronaldo” para o Eurogrupo, é o Financial Times que aponta que a alcunha “não o incomoda”. “Como economista com prática e antigo académico, Centeno também quer introduzir mais análise no trabalho do Eurogrupo”, escreve o FT.

Centeno chegou à reunião do Eurogrupo de julho de 2016 envergando o cachecol da Seleção Nacional.EPA/OLIVIER HOSLET

A Reuters, num perfil do recém-eleito presidente do Eurogrupo com o título “Centeno leva o charme português ao topo do Eurogrupo”, descreve-o como o homem “que usou o seu estilo descontraído” para fazer de “um país atingido pela crise” num “pupilo modelo da Zona Euro”.

Para além de descrever os seus feitos na pasta das Finanças, a agência frisa que Centeno é “conhecido como um workaholic que raramente perde o seu bom humor” e “um entusiasta do futebol”, dando como exemplo o episódio em que Centeno levou o cachecol da Seleção Portuguesa para a primeira reunião do Eurogrupo após conquistar o campeonato europeu.

Ponto final à austeridade

Há quem procure na eleição de Mário Centeno a mensagem de que a Europa irá virar a página da austeridade. Do outro lado da fronteira, o El País começa por lembrar que, há um ano, Centeno estava com um pé dentro e um pé fora do Ministério, mas que agora, está mais firme que nunca.

O jornal espanhol continua, sublinhando que há uma instituição europeia que continua longe das mãos dos conservadores, o Eurogrupo, e que com a eleição de Centeno, chegará “o ponto final simbólico à austeridade”.

Também a Associated Press afirma que esta vitória “marca o afastamento do mantra da austeridade”, com “maior perceção de que a austeridade dos últimos anos tem sido uma carga pesada para as pessoas.” Assim, a agência considera que a subida de Centeno à presidência do Eurogrupo “tem o potencial para simbolizar uma nova era na Zona Euro, ainda mais porque [Centeno] vem da Europa mais pobre”.

Os próximos passos de Centeno são ainda previstos pela agência, com o fim do resgate da Grécia a afirmar-se como um dos principais pontos. Mas há mais: “As melhorias na arquitetura da Zona Euro irão ocupar muita da agenda de Centeno. Há uma crença de que há mais a fazer para garantir que não há repetição da crise mais recente. Alcançar um consenso de como fazer isso será uma peça-chave do trabalho de Centeno.”

Do outro lado do Atlântico, o New York Times sublinha também “a mudança no foco” do Eurogrupo que se dá com a eleição de Centeno. “É um sinal de que os governantes da região podem estar prontos para deixar para trás uma era em que o euro parecia estar à beira do colapso”, pode ler-se no jornal norte-americano.

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