Mourinho Félix na ribalta. Mas que responsabilidade vai ter?

  • Marta Santos Silva
  • 8 Dezembro 2017

O secretário de Estado de Mário Centeno, "discreto" e "competente", poderá assumir um papel mais visível na política nacional e europeia com o ministro à frente do Eurogrupo. Quem é Mourinho Félix?

Ao lado de Mário Centeno desde o início nas reuniões do Eurogrupo, acompanhar os temas e estar na mesma página que o ministro das Finanças não é nada de novo para Mourinho Félix, o secretário de Estado adjunto e das Finanças. Agora, porém, com Centeno a acumular a cadeira de presidente, Mourinho Félix vai ter de saber encher o lugar da delegação portuguesa, algo que diz estar preparado para fazer sem “qualquer espécie de desconforto”. Mas quem é este secretário de Estado, antigo economista do Banco da Portugal, e que funções vai de facto assumir?

É um desafio que encaro com bastante vontade, como o desafio de assumir as funções que assumo hoje. Eu participo nas reuniões do Eurogrupo desde o início, enquanto alternante do ministro, e portanto, dada a configuração do Eurogrupo, sempre participei nas reuniões, portanto não é nada de novo do ponto de vista de conhecer essas reuniões”, apontou Mourinho Félix, quando foi questionado sobre o seu novo papel de representar Portugal no Eurogrupo dirigido por Mário Centeno.

Mourinho Félix no Eurogrupo

Não será de todo a primeira vez que Mourinho Félix substitui Mário Centeno. Num momento memorável no princípio deste ano, após as declarações de Jeroen Dijsselbloem sobre os países do sul da Europa que chocaram especialmente em Portugal, o secretário de Estado teve o papel, por falta de comparência do ministro, de confrontar o então presidente do Eurogrupo.

No aperto de mão que trocaram no princípio do encontro, Ricardo Mourinho Félix aproveitou para abordar o holandês, bastante mais alto, e exigir um pedido de desculpas pelas suas declarações: “Foi profundamente chocante aquilo que disse dos países que estiveram sob resgate, e gostaríamos que pedisse desculpas perante os ministros e a imprensa”. Dijsselbloem não se deixou ficar: “Eu vou dizer alguma coisa sobre isso, mas a reação de Portugal também foi chocante”, captado pelas câmaras da RTP. “Não lhe vou exigir um pedido de desculpas, mas vou dizer alguma coisa”. Mourinho Félix mostrou-se atrapalhado com a resposta.

Uma vez principiada a reunião, o secretário de Estado não terá feito apelos, como se ouviam em Portugal da boca de políticos e comentadores, para a demissão do líder do Eurogrupo. Jeroen Dijsselbloem, de saída, afirmou que após ter repetido o seu pedido de desculpas “nenhum ministro se pronunciou, pelo que podemos interpretar que aprovaram a minha declaração sobre o tema. Ninguém pediu a minha demissão, não foi mencionado na reunião, por isso vou continuar a fazer o meu trabalho“.

Um secretário de Estado “discreto” mas “competente”

“Está sincronizado com Mário Centeno e é uma pessoa competente”, resume o politólogo Viriato Soromenho Marques ao ECO, uma análise que é repetida por outros especialistas que opinaram. O passo à frente de Mourinho Félix no Eurogrupo poderá corresponder a uma assunção de maiores responsabilidades a nível doméstico? Isso já é mais difícil saber. Para Soromenho Marques, “provavelmente haverá algum reforço no Ministério”.

Para já, o Ministério das Finanças não deu ainda esclarecimentos sobre essa questão, embora Mário Centeno tenha garantido que não haverá alterações a nível interno com a sua subida a líder do grupo de ministros das Finanças da Zona Euro.

É do interesse do Governo que Mourinho Félix não apareça perante a opinião pública, os agentes económicos, e o aparelho de Estado como um ministro substituto. Por isso quase seguramente que ele manterá o mesmo modelo de perfil público que manteve até agora.

António Costa Pinto

Politólogo

António Costa Pinto, também politólogo, considera que a eleição de Mário Centeno vai “evidentemente exigir do secretário de Estado muito mais funções”, mas com um senão: “A autonomia do secretário de Estado é nula. Tem os poderes que lhe sejam delegados pelo ministro, e portanto vai depender muito da gestão que Centeno fará”.

O investigador João Cardoso Rosas assinala que Mourinho Félix “tem sido relativamente discreto para a função que desempenha” mas trata-se, afirma, de uma “tradição portuguesa” que o secretário de Estado seja mais invisível. Servindo-se de uma citação de Aníbal Cavaco Silva, ilustra: “Os secretários de Estado são os ajudantes do ministro, e portanto é essa a tradição portuguesa. Às vezes há um caso ou outro que foge a essa tradição. Vamos ver se isso se confirma ou não neste caso — afinal, é uma situação nova para um Governo português”.

“É do interesse do Governo que Mourinho Félix não apareça perante a opinião pública, os agentes económicos, e o aparelho de Estado como um ministro substituto. Por isso quase seguramente que ele manterá o mesmo modelo de perfil público que manteve até agora”, acrescenta António Costa Pinto.

De ‘jotinha’ a economista do Banco de Portugal

Ricardo Mourinho Félix estudou economia no Instituto de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa. O apelido não engana — é primo direito do treinador de futebol homónimo, José Mourinho, embora de acordo com vários jornais os dois não sejam muito próximos. No entanto, isso valeu-lhe o que parece ser o seu primeiro momento na ribalta internacional, com um artigo no jornal espanhol ABC em que era chamado “O Mourinho dos socialistas portugueses”.

Tornou-se mestre em Economia pela Universidade Nova de Lisboa e foi professor auxiliar nessa instituição, tendo chegado ao Banco de Portugal, onde fez investigação durante vários anos, em 1998.

E a carreira política do economista? Começou na Juventude Socialista de Setúbal, e passou pelo Governo de António Guterres, onde foi adjunto do Secretário de Estado do Orçamento Fernando Pacheco, sob a tutela de Pina Moura.

“A estratégia que temos seguido é a correta”

Na Juventude Socialista de Setúbal é recordado como atento e empático. O atual secretário-geral da JS, e deputado à Assembleia da República, Ivan Gonçalves, disse ao ECO que a sua ligação com Ricardo Mourinho Félix começou nas legislativas de 2015, em que eram companheiros de lista do Partido Socialista. “Do ponto de vista técnico, ao longo dos dois últimos anos todos temos tido uma visão positiva do seu trabalho como secretário de Estado”, afirma Ivan Gonçalves. “Ao mesmo tempo, também conjuga com essa competência técnica ser uma pessoa muito afável”.

Foi após essas legislativas que Mourinho Félix foi chamado para o Governo que nasceu dos acordos da apelidada ‘Geringonça’, iniciando o seu papel de maior destaque até hoje.

“É de uma geração já longe da minha”, assume o deputado. “Não acompanhei o percurso dele enquanto militante da JS”. No entanto, recorda como o secretário de Estado mostrou empatia com a juventude socialista setubalense durante as ações de campanha que esta desenvolveu.

“Até me recordo de uma altura em que nós tivemos uma ação de campanha, e calcorreámos todos os bairros de Setúbal a fazer campanha junto do público mais jovem”, relembra Ivan Gonçalves. “No fim de fazermos a campanha, já não era cedo, uma das pessoas que estava menos cansada era ele. É extraordinário, nós que éramos os mais novos já estávamos prontos para ir descansar, e ele mantinha-se sempre fresco”. Uma energia que Ricardo Mourinho Félix vai ter de manter agora que as suas funções se vão intensificar.

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