O dia em que Isabel dos Santos e o regime angolano foram exonerados

  • Marta Santos Silva
  • 28 Dezembro 2017

João Lourenço fez dezenas de exonerações desde que foi empossado. A 15 de novembro tirou Isabel dos Santos da Sonangol, uma decisão de bandeira que deixa a questão: qual o futuro que quer para Angola?

Dia 15 de novembro em Luanda o novo Presidente angolano João Lourenço decidiu anunciar uma das exonerações mais mediáticas do seu mandato até agora: Isabel dos Santos, empresária e filha do homem que liderou os destinos do país entre 1979 e 2017, estava de saída da petrolífera estatal Sonangol. No seu lugar, entrava Carlos Saturnino.

As reações à notícia, que não foi totalmente surpreendente por já ter sido avançada e depois desmentida cerca de duas semanas antes, não se fizeram esperar. Desde logo, o ativista angolano Luaty Beirão, que esteve preso sob o Executivo de José Eduardo dos Santos e fez uma greve de fome prolongada que quase o matou, não hesitou em reagir nas redes sociais, com uma fotografia de rosto sorridente legendada: “Eu e a minha filha ao recebermos a notícia da exoneração da Isabel dos Santos”. À TSF, o ativista afirmou com surpresa, pela positiva, que o novo Presidente de Angola estava a “meter a mão no ninho dos marimbondos”.

A empresária Isabel dos Santos optou por reservar a sua reação para o dia seguinte, quando enviou um comunicado às redações onde enumerava o legado que dizia ter deixado à petrolífera Sonangol. Entre as vitórias reivindicadas pela empresária estavam a redução do custo do barril de 14 para sete dólares e a queda da dívida financeira da empresa, que desde 2014, com a queda do preço do petróleo, passava por um período difícil.

“Sinto-me honrada por ter liderado uma equipa com notável qualidade profissional e de ética inquestionável”, escreveu a empresária no princípio do comunicado, sublinhando a palavra “inquestionável”. Agradeceu ainda ao anterior Executivo angolano “que confiou nesta administração, e testemunhar, com sentido de missão, o trabalho desenvolvido desde o ponto em que encontrámos a empresa quando nela ingressamos, até à situação em que deixamos a mesma, à data da nossa saída”.

Foi uma de muitas exonerações feitas por João Lourenço, empossado a 26 de setembro. Visto por muitos, na altura, como uma escolha de continuidade com o regime de José Eduardo dos Santos, João Lourenço decidiu distanciar-se fazendo dezenas de exonerações nos seus primeiros meses no posto. Sonangol, Banco Nacional de Angola, Televisão Pública de Angola e Agência Angola Press foram alguns dos órgãos que viram as suas direções trocadas em pouco tempo por Lourenço, que aproveitou também para extinguir o Gabinete de Revitalização e Execução da Comunicação Institucional e Marketing da Administração criado por José Eduardo dos Santos.

As exonerações, porém, são vistas com olhos críticos por alguns analistas, por exemplo os da consultora BMI, pertencente ao grupo Fitch, que as descreveram como uma “dança das cadeiras”. Angola, escreveram, não deverá crescer mais nem ter muito a ganhar com estas exonerações, que não constituem verdadeiras reformas. Na nota enviada aos investidores, os analistas referiram que “apesar de João Lourenço ter feito mudanças surpreendentes de pessoas em instituições estratégicas, nomeadamente o despedimento de Isabel dos Santos, não acreditamos que elas signifiquem o início de um fôlego reformista”. Pelo contrário: “Acreditamos que ao instalar os seus ministros como líderes da companhia petrolífera nacional e do banco central, Lourenço está simplesmente a tentar estabelecer a sua rede de apoio e sair da sombra da família de dos Santos”.

"Acreditamos que ao instalar os seus ministros como líderes da companhia petrolífera nacional e do banco central, Lourenço está simplesmente a tentar estabelecer a sua rede de apoio e sair da sombra da família de dos Santos.”

BMI Research

Nota aos investidores

Quanto a Isabel dos Santos, semanas depois da exoneração ainda dava por si a defender-se de acusações de nepotismo na nomeação, em junho de 2016, para liderar a petrolífera estatal. Num direito de resposta a um editorial do Jornal de Angola, cujo diretor também mudou com a mão de João Lourenço, Isabel dos Santos escrevia: “A sua afirmação, de que o meu estatuto de ‘filha de um Chefe de Estado’ teria sido uma desvantagem para garantir o financiamento necessário para a reestruturação da Sonangol, é contrariada por factos facilmente verificáveis. De destacar que trabalhei ao longo da minha carreira profissional (20 anos) com esse estatuto, sendo que o mesmo nunca me impediu de desenvolver relacionamentos bancários com as principais instituições financeiras internacionais”, assinalou.

“A palavra nepotismo significa a promoção de uma pessoa incompetente para um determinado cargo pelo único facto de ser membro da sua família. Como a minha competência não está em questão, não será apropriado tentar estabelecer um vínculo entre as minhas relações familiares e os resultados do meu mandato”, finalizou.

Falta saber ao certo o que a sua exoneração vai significar para a Sonangol, e o caminho que Angola vai trilhar a partir de 2018. O primeiro Orçamento de Estado de João Lourenço pretende um crescimento de 4,9% — uma meta alta de quem tem muito a provar.

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