Novo Banco esmaga juros dos depósitos após prejuízos recorde

Banco vai cortar a remuneração de algumas contas poupança para metade, ou mesmo para 0% em alguns casos. Também sobe algumas comissões no final de maio e de junho. Prejuízo e alerta de Bruxelas pesam.

O Novo Banco deixou uma prenda amarga a muitos clientes nesta Páscoa. No mesmo dia em que apresentou prejuízos recorde, a 28 de março, para além de agravar um conjunto de comissões, o banco decidiu “cortar a fundo” nos juros dos depósitos. As taxas caem para pelo menos metade em muitas situações, havendo diversos casos em que 0% passa a ser a norma.

Foi a 28 de março, que o banco liderado por António Ramalho enviou aos clientes uma mensagem, a que o ECO teve acesso, em que lhes dava nota da atualização do preçário respetivo preçário para 2018. “No âmbito da revisão anual de preçário deste ano, o Novo Banco não irá aumentar as comissões dos principais produtos e serviços do dia-a-dia, como por exemplo contas à ordem, cartões de débito, cartões de crédito, entre outros”, começava por dizer o Novo Banco. Mas logo de seguida dava a má notícia de que “serão alterados alguns preços“.

Mensagem enviada aos clientes do Novo Banco

Para além de um conjunto de alterações do preçário de comissões, umas a acontecer no final de maio e outras a vigorar a partir do fim de junho, referência para o acentuado corte da remuneração que irá afetar um conjunto de conta de depósitos no início do segundo semestre deste ano.

O grosso das reduções afeta a remuneração de contas poupança associadas às contas à ordem, sendo que em diversos casos se tratam ainda de produtos que entretanto deixaram de ser comercializados, mas cujos atuais titulares acabarão por ser afetados.

Entre as mais penalizadas estão duas das contas “estrela” do Novo Banco: a Conta NB 100% e a Conta NB 360°. No primeiro caso, as poupanças a partir de cinco mil euros que são atualmente remuneradas por patamares de valores com taxas entre 0,1% e 0,15%, vão passar a oferecer juros de 0,05%, independentemente do valor depositado. Já no segundo caso, as poupanças a partir de 25 mil euros, também remuneradas por patamares de valores a taxas de 0,15% e 0,2%, veem os juros serem cortados para 0,05%.

Esse tipo de cortes afetam outras contas poupança do banco, onde se incluem algumas que já não são comercializadas. É o caso da Conta NB 100% 55+, da Conta Benfica ou da Conta NB 360° Academia, sendo que estas fazem parte do conjunto de aplicações que passaram a ser remuneradas a uma taxa de juro de 0%.

A conta à ordem Easy NB, que também já não está disponível para subscrição, passa também a ter uma taxa de juro de 0%, o que compara com os 0,5% que ainda são oferecidos. Também o segmento private também será afetado pela redução de remunerações. A Conta NB Private que oferece taxas de juro de 0,1% e 0,3%, por patamares de valores acima de 25 mil euros, passará a ser remunerada a 0,05%, nessa fasquia de valores.

Quebra operacional reduz margem para pagar depósitos

Esse corte de remunerações acontece depois de o Novo Banco ter reportado a 28 de março perto de 1,4 mil milhões de euros de prejuízos relativos a 2017, o que constituiu um recorde histórico. O balanço das contas anuais do banco permite perceber que foram afetadas por uma quebra da margem financeira. Ou seja, da diferença entre os juros que o banco cobra na concessão de crédito e os que paga pela remuneração dos depósitos.

Em 2017, essa margem caiu 21 pontos base, passando de 1,1% no final de 2016 para 0,89% no fim do ano passado. Tal aconteceu num contexto de redução do crédito (queda de 2,3 mil milhões de euros) do banco, com impacto negativo na respetiva receita com juros, mas em que o Novo Banco também viu os seus depósitos aumentarem 16,1%, para 29,7 mil milhões, agravando os seus encargos com o pagamento de juros.

no último trimestre do ano, o Novo Banco cresceu 1,8 mil milhões de euros em depósitos, devido sobretudo do facto de a maior parte dos credores do banco terem optado pela conversão das suas obrigações por depósitos no âmbito da operação de troca de dívida que ocorreu em meados do ano passado. Esses depósitos são remunerados a taxas atrativas quando comparados com a generalidade da oferta disponível no mercado.

A quebra dos juros oferecidos nas contas de depósitos acontece também depois de Bruxelas ter alertado num relatório para o facto de o Novo Banco ter pago mais nos depósitos do que aquilo que podia. “A Comissão sublinha que o compromisso de limitação na definição de preços nos depósitos não foi cumprido” assinalava Bruxelas na decisão pública relativamente às ajudas estatais na venda de 75% do Novo Banco à Lone Star divulgada no início de março.

"Se a definição do preço dos créditos está limitada pela oferta dos concorrentes, o banco [Novo Banco] não vai ser capaz de aplicar taxas de juro nos depósitos muito generosas.”

Comissão Europeia

Desde 2015, que a Comissão Europeia tinha imposto um conjunto de limites ao Novo Banco de modo a não haver distorção na concorrência, entre eles a não concessão de remunerações acima da média do mercado. Uma exigência que o banco liderado por António Ramalho acabou por não cumprir. Apesar dessa constatação, a Comissão Europeia disse ainda acreditar, contudo, que a excessiva remuneração de depósitos a clientes não iria continuar. Algo que agora parece começar a comprovar-se. “Se a definição do preço dos créditos está limitada pela oferta dos concorrentes, o banco não vai ser capaz de aplicar taxas de juro nos depósitos muito generosas”, dizia a Comissão Europeia.

Comissões também crescem

Se de um lado há cortes dos juros nos depósitos, por outro, o Novo Banco também decidiu “carregar a fundo” em algumas comissões bancárias.

Este facto foi aliás salientado numa troca de tweets entre António Ramalho e um emigrante português. Num tweet de 1 de abril em que o gestor enaltecia o facto de o Novo Banco ter deixado de ser um banco de transição e de este se ter capitalizado fortemente e equilibrado os seus rácios, um português residente no estrangeiro respondeu-lhe salientando o facto de as transferências internacionais SEPA passarem a custar 25 euros, o que compara com os atuais 0 euros. Tal irá acontecer a partir do final de junho.

Mas para além dessa e de alguns tipos específicos de transferências, o Novo Banco também decidiu encarecer alguns encargos associados ao leasing de crédito, mas também agravou o custo da emissão de cheques e algumas comissões associadas a cobranças.

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