Professor do MIT dá “aula” sobre ligação da indústria ao ensino

As grandes empresas compram a inovação. A afirmação é de Douglas Hart, professor do MIT, que diz que "o ensino tem que prestar atenção à indústria pois é ela que nos financia".

A indústria, o ensino, as empresas de uma forma geral têm que ser inovadoras e competitivas. Só assim se consegue sobreviver num mercado global. É esta a premissa base da “aula” que Douglas Hart, professor do MIT, deu em Braga, perante um auditório repleto de empresários da região, inserido na terceira semana de Economia da cidade.

Para este professor, a “carne” da economia é a indústria, é esta que produz bens e serviços e é esta quem contrata. Mas se uma empresa, não se “acautelar” o seu negócio torna-se facilmente replicável.

Douglas Hart diz que este “é um processo extremamente difícil para as empresas, porque estas têm de competir, tem de encontrar novos mercados e têm, em simultâneo de inovar a todo o instante“. Porque sem inovação, prossegue o professor, “a empresa fica presa neste ciclo de reduzir preços, baixar as margens de lucro, pondo em risco o seu próprio futuro”.

Logo, para prevenir este futuro negro, “tem de inovar constantemente, mas como também tem de permanecer competitiva, a inovação torna-se extremamente difícil”.

Isto não significa que a “indústria e as empresas não sejam inovadoras. Elas são incrivelmente inovadoras. Mas a maneira como as empresas funcionam torna muito difícil que se inove”. É por isso que, adianta Hart, “a inovação das grandes empresas rege-se principalmente pela aquisição de startups”. “As grandes empresas compram a inovação“, afirma.

O ensino é um negócio

Mas será o mundo empresarial muito diferente do mundo académico? “Não”, responde Douglas Hart. “A indústria que é geralmente fantástica a executar é terrível a inovar, mas os académicos não são muito melhores”.

Para Douglas Hart, as universidades o que fazem “é instruir o poder laboral, e este sai para a sociedade e recheia as empresas”. “Ou seja, educamos as massas para se tornarem trabalhadores eficientes“.

E deixa uma nota surpreendente: “O ensino é um negócio tal e qual a indústria“. É com base nesta premissa que as universidades “lutam” para recrutar os melhores alunos, isto porque sabem que “estes se tornarão nos mais brilhantes e nos mais requisitados profissionais do futuro”.

Para Douglas Hart serão estes grupos “fantásticos que irão fundar grupos de investigação com pessoal também das faculdades e que irão atrair muito dinheiro dos governos e dos provados”. Logo “o ensino é tal e qual a indústria, tem que ser competitivo”.

O professor do MIT surpreende os presentes ao afirmar: “As Universidades não estão no negócio de ensinar porque ensinar por si só não gera dinheiro”.

“O ensino e as Universidades estamos no negócios de inovar, e é aqui que somos extraordinariamente bons”, refere para logo a seguir acrescentar: “Somos bons porque não temos de executar. Soa mal, mas é verdade. Ao contrário da indústria não temos de produzir, servimos múltiplos mercados, não estamos focados num só”.

E dá o exemplo de uma empresa que produz camisas havaianas, esta empresa não pode saltar para outro ramo de atividade. Mas o “ensino pode”. “Posso estar empenhado em desenhar uma maçaneta de porta, mas se tiver uma ideia para um novo tipo de medicamento, rapidamente posso mudar. Tenho a permissão para mudar a minha investigação para algo totalmente distinto do anterior”.

Uma questão fundamental para quem inova: “É preciso liberdade para inovar, e sobretudo é preciso liberdade para falhar”. “Na verdade para ensinar alguém temos que lhe dar oportunidade para falhar. Se não houvesse essa liberdade para falar não ensinávamos nada. Temos de deixar os alunos falhar. Temos de deixar as empresas falharem“, refere o professor do MIT.

Papel fundamental das startups

Na sua exposição que durou mais de uma hora, o professor do MIT destacou ainda o impacto do empreendedorismo. Hart, que citava um estudo, relembra que o “impacto do empreendedorismo é 40 a 50 vezes maior do que o da tecnologia” o que o leva a afirmar que “as startups compensam”. “É assim que transitamos a inovação das Universidades para as empresas”.

Porém, o que muitos não vêm é que as universidades estão a “falhar porque deixam as investigações em fases muito precoces para as indústrias. E é por isso, que as empresas não compram diretamente às universidades”. Daí, o papel fundamental das startups. Douglas Hart defende ainda que as universidades não podem ser incubadoras porque isso “é contra natura, caso contrário perdíamos a capacidade de inovar”.

De resto, Hart defende que as empresas, sobretudo as grandes empresas, como a Microsoft e a Apple, gostam de estar próximas dos polos universitários porque “o pior que lhe pode acontecer é contratar mal” e “estando ao nosso lado vêm como é que os alunos se comportam no laboratório e em ambientes profissionais”.

Mas essa não é a única razão. “As empresas querem influenciar a direção das nossas investigações, para além de que contactam, numa fase muito precoce, com as novas tecnologias”, diz Hart. Outro aspeto não menos importante é que “muitas vezes são as empresas que financiam as investigações, muitas vezes só para verem quais os processos” com os quais as universidades inovam.

Inovação cria… inovação

Há vários benefícios em ser inovador. E um deles é que inovação cria inovação. Além de que as empresas procuram inovação para elevarem a fasquia do que fazem.

Dougas Hart diz mesmo que “muitas empresas querem investir no ensino porque querem influenciar positivamente a maneira como o público pensa delas”. E isto sobretudo por causa da capacidade de atrair talento. “Quando ingressarem no mercado de trabalho ele não querem ir para uma empresa menos boa, querem ir para a melhor das melhores”.

Hart deixa um repto às empresas para que invistam no ensino e vice-versa. E isto “porque o ensino tem que prestar atenção à indústria pois é ela que nos financia”.

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