Obrigações do Estado chegam hoje ao retalho. Valem a aposta?

O Estado está a oferecer uma taxa de 1% na emissão de obrigações para o retalho que arranca esta quarta-feira. Saiba se compensa subscrever. Ou se há alternativas mais atrativas.

Arrancou o período de subscrição da mais recente emissão de obrigações destinadas aos investidores do retalho. A nova colocação de Obrigações do Tesouro de Rendimento Variável (OTRV), disponível para subscrição até 17 de julho, distingue-se das anteriores por ter um prazo mais alargado, mas oferece também a remuneração mais baixa de sempre. Tendo em conta este cenário, ainda compensará investir nestes títulos de dívida pública?

Nesta sétima emissão de OTRV, o Estado aumentou para sete anos o prazo de investimento face aos cinco anos nas operações anteriores. A decisão de alargar a maturidade destas obrigações surge depois de, em outubro do ano passado, o Governo ter lançado os Certificados do Tesouro Poupança Crescimento (CTPC) também com um horizonte temporal de sete anos em substituição dos Certificados do Tesouro Poupança Mais que tinham uma maturidade de cinco anos.

Algo que não é também uma novidade é a remuneração oferecida que no seguimento do que aconteceu nas operações anteriores também sofreu um corte. O Tesouro oferece uma taxa de juro de 1%, a mais baixa de todas as operações deste âmbito já realizadas. Na emissão imediatamente anterior, a taxa de juro foi de 1,1%. A primeira emissão realizada em maio de 2016 foi disponibilizada a uma taxa de juro de 2,2%.

OTRV pagam cada vez menos

Fonte: IGCP

As restantes características deste produto mantêm-se face às anteriores operações. Quem pretenda investir nesta emissão pode fazê-lo com montantes a partir de mil euros e que podem ir até um máximo de um milhão de euros, sendo a subscrição realizada por múltiplos de mil euros. Vai contar ainda com um pagamento de juros, semestral e postecipadamente, em 23 de janeiro e 23 de julho de cada ano.

Porquê uma taxa mais baixa?

Filipe Silva, diretor de gestão de ativos do Banco Carregosa, explica que a redução da taxa de juro que marca esta emissão de OTRV a aproxima da tendência do mercado. “As condições desta emissão acabam por vir mais alinhadas com as taxas que Portugal paga para os sete anos, nas emissões anteriores existia um prémio bastante maior face ao mercado secundário”, afirma o especialista do banco Carregosa para o mercado de dívida.

As condições desta emissão acabam por vir mais alinhadas com as taxas que Portugal paga para os sete anos, nas emissões anteriores existia um prémio bastante maior face ao mercado secundário.

Filipe Silva

Banco Carregosa

As obrigações do Tesouro a sete anos transacionam atualmente com uma taxa de juro de 1,225%. Ou seja, ligeiramente acima da taxa que o Tesouro oferece nesta emissão de OTRV.

Já Filipe Garcia atribui grande parte da responsabilidade pela quebra da remuneração oferecida nestas obrigações para o retalho, ao forte interesse despertado junto dos investidores pelas anteriores colocações. “As condições parecem querer aproveitar a boa recetividade que estes títulos tiveram no passado recente, bem como o nível recorde de depósitos nos bancos portugueses, depósitos esses que estão maioritariamente à ordem e, por isso, disponíveis”, defende o economista.

OTRV ou CTPC?

Apesar de as emissões de OTRV sempre terem despertado um forte interesse junto das famílias portuguesas, devido em grande medida às taxas mais rentáveis quando comparadas com os produtos de poupança disponíveis no mercado, desta vez o cenário poderá ser distinto. E a opinião dos especialistas reforça essa possibilidade.

Antes de mais, há que ter em conta o efeito corrosivo da inflação. O Governo prevê que a taxa de inflação se situe no final deste ano em 1,4%. Ou seja, acima da taxa de juro anual bruta que está a ser oferecida nesta emissão de OTRV. Há a descontar ainda à remuneração o impacto dos impostos e das comissões que cobradas pelas instituições financeiras que as colocam e que podem “comer” uma parcela considerável do retorno inicialmente previsto. Ou seja, em termos líquidos o retorno das OTRV tenderá a ser bastante inferior aos 1% oferecidos.

Neste sentido, a indicação dos analistas vai no sentido de privilegiar o investimento noutro produto do Estado para o retalho: os CTPC. Estes certificados dão um retorno bruto médio de 1,38%, uma remuneração que poderá ser maior em função do crescimento da economia portuguesa.

Taxas na dívida a 7 anos

Fonte: IGCP e Reuters

“Não há dúvidas que as OTRV têm sido um sucesso, até agora, porque quem as comprou tem tido a oportunidade de as alienar acima do par. Mas continuo com a convicção que, por terem capital garantido a todo o tempo após o primeiro ano (altura em que não podem ser resgatados), os CTPC são mais adequados ao perfil dos aforradores em causa e apresentam um melhor binómio risco/retorno“, defende Filipe Garcia.

Continuo com a convicção que, por terem capital garantido a todo o tempo após o primeiro ano (altura em que não podem ser resgatados), os CTPC são mais adequados ao perfil dos aforradores em causa e apresentam um melhor binómio risco/retorno.

Filipe Garcia

IMF

A mesma opinião é defendida pela Deco. “Não recomendamos a compra” diz a Proteste Investe numa análise comparativa entre o investimento em obrigações do Tesouro e CTPC divulgada nesta segunda-feira. “Para uma maturidade de sete anos, por exemplo, é preferível optar pelos CTPC, que também são títulos de dívida pública e garantem um mínimo de 1% ao ano”, diz a publicação da Deco.

Contra os CTPC, Filipe Garcia salienta apenas um aspeto: “têm apenas como inconveniente a diferença, importante, de não poderem ser resgatados durante o primeiro ano”. Já que respeita às obrigações para o retalho, “é preciso ver bem quais os custos mínimos associados a deter uma OTRV, para que no final o balanço seja positivo” avisa Filipe Silva, com o especialista do Banco Carregosa a alertar que “no que diz respeito a encargos [OTRV], varia muito de instituição para instituição, mas serão sempre menores nos certificados”. Os CTPC não têm associado qualquer tipo de comissionamento.

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