Porque é que as empresas não vão para a bolsa? Não têm dinheiro

A CMVM diz que as empresas, sobretudo as PME, não procuram financiamento junto do mercado de capitais devido aos custos financeiros elevados associados.

Montepio, Cimpor e BPI. Estes são apenas alguns exemplos da longa lista de cotadas que só no último ano decidiram sair de bolsa. Por oposição, são poucas as empresas que avançam com a decisão de entrar para o mercado acionista. Para além da entrada em bolsa da Patris Investimentos no final de 2016, e da Raize que inaugura o seu percurso na Euronext Lisbon na próxima semana, não há registo de mais empresas interessadas em cotar-se. Mas porquê? Em grande medida, porque não têm dinheiro.

No Relatório Anual sobre os Mercados de Valores Mobiliários relativo a 2017, a CMVM explica que os custos financeiros associados figuram entre os principais entraves à procura por parte das empresas de financiamento junto do mercado de capitais.

O mercado de capitais acaba por “ser considerado apenas como último recurso” para as empresas, diz o relatório da entidade liderada por Gabriela Figueiredo Dias, que fala ainda em “baixos níveis de financiamento através da emissão de ações e obrigações observados em Portugal”.

Entre as razões para a fraca adesão à procura de financiamento junto do mercado de capitais, em particular no que respeita às pequenas e médias empresas (PME), o regulador dos mercados enumera as assimetrias de informação, que diz serem “mais acentuadas nestas empresas comparativamente a outras de maior dimensão” e fala ainda em “enviesamentos comportamentais”.

“Os responsáveis pela decisão de financiamento podem, por exemplo, ter tendência a preferir que o financiamento seja ‘como sempre foi’ e ignorar novas fontes de financiamento, ou manifestar excesso de confiança em como a sua decisão de não se financiar no mercado de capitais é a mais acertada”, explica a este propósito a entidade liderada por Gabriela Figueiredo Dias.

Gabriela Figueiredo Dias, presidente da CMVM.Paula Nunes/ECO 27 Junho, 2018

Mas a esses fatores acrescem muitas vezes entraves em termos de custos financeiros. Neste âmbito, a CMVM enumera três tipos de encargos. O primeiro da lista são os custos de assessoria financeira e jurídica — ou seja, os encargos associados ao auxílio à gestão, prospeção de investidores, notação de risco, preparação do prospeto, colocação em mercado das ações, por exemplo — e os custos inerentes à criação de uma estrutura na empresa para o relacionamento com o mercado, acionistas e reguladores.

A esses acrescem, em segundo lugar, os encargos relacionados com a publicação regular de informação e com a auditoria às contas, nomeadamente para mitigar assimetrias de informação.

O regulador inclui ainda nesta lista ainda os encargos decorrentes das taxas cobradas pelos mercados e pelos reguladores, embora saliente que o mercado português compara bem com a média europeia, pelo menos no que respeita aos custos do contexto regulatório. “Em comparação com França, Espanha, Itália, Alemanha, Holanda, Reino Unido e Bélgica, os custos de aprovação de um prospeto de ações ou de obrigações e os custos anuais de supervisão dos emitentes em Portugal são dos mais reduzidos”, especifica a CMVM.

As vantagens de entrar para a bolsa

Ao verem-se condicionadas pela falta de dinheiro para avançar para a bolsa, as empresas veem restringido o acesso a um conjunto de benefícios que o mercado lhes pode trazer.

Entre eles, a CMVM refere, por exemplo, os montantes disponíveis para financiamento que “são potencialmente mais elevados do que os disponibilizados pelo setor bancário”. Para além disso, não existem também limitações ao montante de investimento a pedir, ao contrário do que acontece com o financiamento bancário que “está limitado devido aos limites impostos nos balanços dos bancos”

A esses fatores positivos acrescem também, por exemplo, a não exigência de tantas garantias como as necessárias para obter financiamento através de outras fontes. “As empresas não necessitam de deter ativos tangíveis que sirvam de garante, e que seriam exigidos pelos bancos no financiamento bancário”, explica o regulador do mercado de capitais.

(Notícia corrigida relativamente à entrada em bolsa da Patris Investimentos que foi através de uma colocação privada e não de uma Oferta Pública de Venda)

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