Portugueses poupam 48 cêntimos em cada dez euros

Há um ditado popular que diz que "no poupar é que está o ganho". Mas a subida de rendimentos no pós-troika não se traduziu em mais reservas. Pelo contrário, os portugueses nunca pouparam tão pouco.

Os portugueses nunca pouparam tão pouco e o que optam por pôr de lado do seu orçamento é menos de metade do que conseguem fazer os cidadãos da zona euro. Esta é a fotografia tirada pelo Eurostat à evolução da taxa de poupança entre 2000 e 2017 em Portugal e nos restantes países do espaço da moeda única.

No ano passado, em cada dez euros de rendimento, as famílias portuguesas punham de lado 48 cêntimos. Na Zona Euro, em cada dez euros, quase 1,20 euros eram guardados para fazer face a despesas futuras. Dito de outra forma, a taxa de poupança das famílias era em Portugal de 4,8% em 2017 ao passo que no conjunto de países da Zona Euro a taxa chegava a 11,9% do rendimento disponível.

 

Esta divergência acontece no ano em que Portugal registou o maior crescimento económico desde 2000, três anos depois da saída da troika e com o Executivo liderado por António Costa a aplicar um programa económico de devolução de rendimentos. Ou seja, neste período os portugueses optaram por aumentar o consumo em vez de poupar. O consumo privado cresceu 2,3% face ao ano anterior e juntamente com o investimento e o consumo público deram um contributo de quase metade para o crescimento do PIB.

Rui Constantino, economista-chefe do Santander, explica que “a devolução de rendimentos não se tem materializado numa subida do rendimento disponível, a nível agregado, que permanece num patamar estável face ao PIB”. “A descida do desemprego, a melhoria das condições económicas em geral, por seu lado, permitiu uma recuperação da despesa de consumo, em especial a discricionária, que tinha sido cortada durante a crise, resultando na descida recente da taxa de poupança”, acrescenta. Ou seja, as famílias ainda estarão numa fase de recuperação, impedindo ainda a recuperação da taxa de poupança.

Segundo a série do Eurostat, que permite comparar Portugal com os restantes países da Zona Euro, a capacidade de poupança das famílias portuguesas é a mais baixa desde 2000. Mais: no início do milénio os portugueses poupavam mais do dobro do que poupam agora. Na altura, de lado ficava mais de um euro em cada dez, enquanto agora são só 48 cêntimos.

Poupar é essencial, para gerar o capital que, através do investimento, permita aumentar a capacidade de crescimento da economia portuguesa.

Rui Constantino

Durante a crise económica mundial que se seguiu à falência do Lehman Brothers tanto em Portugal como na Zona Euro as famílias reforçaram as poupanças. A taxa de poupança saltou de 6,8% para 10,4% entre 2008 e 2009 — revelando uma “capacidade de recuperação” que deve ser realçada, argumenta o economista do Santander –, mas a partir daí começou a traçar uma trajetória de descida e nem a estadia da troika entre 2011 e 2014 mudou esta tendência. No ano da “saída limpa”, a taxa caiu para a casa dos 5% e ainda não saiu daí.

Pelo contrário, na Zona Euro a taxa de poupança saltou pouco mais de um ponto entre 2008 e 2009 para 14,1%, mas regressou de seguida aos valores habituais que andam à volta de 12%.

E o que pode explicar o que parece ser uma predisposição tão diferente quanto à poupança entre os portugueses e os seus homólogos no espaço da moeda única? “A decisão de poupança depende de vários fatores, entre os quais o rendimento e o património, real e financeiro, das famílias”, recorda Rui Constantino, que admite que as famílias portuguesas podem olhar para as suas casas próprias como uma outra forma de poupança. “Atendendo a que muitas famílias dispõem de ativos reais (imobiliário) podem considerar que a sua valorização substitui a poupança, na atual fase do ciclo económico”, explica Rui Constantino.

No entanto, o economista não tem dúvidas quanto aos benefícios da poupança e dá uma ideia de quanto todos os agentes deviam poupar para os níveis de investimento voltarem aos patamares em que estavam antes da crise. “Poupar é essencial, para gerar o capital que, através do investimento, permita aumentar a capacidade de crescimento da economia portuguesa. Se quisermos considerar uma taxa de investimento de 25% (níveis pré-crise), a taxa de poupança da economia deveria ser de 25%, sem recurso a endividamento externo. Atualmente, a taxa de poupança agregada (isto é, de todos os setores da economia) situa-se em redor de 17%. Logo, para crescer mais, é necessário poupar mais.”

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