“Não há razões para temer uma crise só porque os mercados caem”

Apesar das quedas nas bolsas, a perspetiva é de recuperação até ao final do ano. As ações da banca são as preferidas do Bankinter, mas a recente queda das tecnológicas pode ser uma oportunidade.

Uma crise económica pode surgir sem se fazer anunciar, mas — para já — não há indícios de que esteja para breve, segundo João Pisco, CFA do departamento de análise de mercados financeiros do Bankinter. Por outro lado, as quedas nos mercados acionistas podem ser uma oportunidade de entrada para investidores mais audazes, na perspetiva do banco, cujo mercado preferido é o dos EUA.

“As crises são imprevisíveis, mas há sinais que nos podem dar indicações”, afirmou Pisco, na apresentação da nova plataforma Bankinter Broker. O analista apontou para os quatro excessos que sinalizam uma potencial crise — consumo, investimento, bolha imobiliária e salários –, considerando que não se verificam.

“Nenhum destes se cumpre atualmente. O consumo e o investimento crescem a um nível sustentável. No mercado imobiliário, estamos muito focados na realidade de Portugal. As valorizações no mercado imobiliário em Portugal e Espanha estão a responder à lei básica da procura depois de uma década em que a construção esteve praticamente parada. A nível global não é apropriado falar de uma bolha imobiliária. O mercado laboral está pressionado, mas não há crescimento excessivo dos salários.

A projeção do Bankinter é que o ciclo de crescimento económico global estabilize, mas não veem uma recessão no horizonte. No caso de Portugal estimam uma expansão em torno de 2%, ligeiramente abaixo dos 2,2% que o Governo espera para os próximos dois anos.

Há, no entanto, riscos. O primeiro é a guerra comercial, que o Bankinter considera irá continuar focada entre EUA e China, afastando a hipótese de uma escalada a conflito global. A política europeia — centrada em Itália, Brexit e emergência de partidos populistas –, bem como a crise dos países emergentes — especialmente Turquia, Argentina e Brasil — são também fatores de incerteza. Sublinha ainda que a dívida está muito elevada, mas está muito concentrada no setor público e é o endividamento privado que nos deve tirar o sono.

Mas tal como o endividamento, também a quebra das bolsas não faz soar alarmes. “Não há razões para temer uma crise só porque os mercados caem“, disse João Pisco, na semana em que Wall Street entrou em terreno negativo no acumulado de 2018. “Acredito que os mercados vão recuperar até ao final do ano”, afirmou, sublinhando que os resultados das empresas têm batido as estimativas dos analistas de forma expressiva e o ajuste de múltiplos gera oportunidades para investidores com maior perfil de risco.

A estimativa do banco é que as cotadas do S&P 500 aumentem os lucros em 31,6% este ano e 10,3%, face aos 12,5% em 2017. A projeção para as empresas do EuroStoxx 50 é de 10,8% este ano e 10,9% no próximo, em comparação com os 28,5% do ano passado.

Correção é oportunidade. EUA no topo

“A correção de outubro e novembro está a ser digerida lentamente”. Wall Street foi arrastado para o vermelho seguindo a tendência que já se vivia nas praças europeias. Apesar disso, o analista explica “que comprar ações norte-americanas é a nossa maior recomendação e os EUA são o nosso mercado preferido tanto para ações como obrigações”.

Entre as ações norte-americanas, o Bankinter está a investir principalmente na banca devido ao cenário de subida de taxas de juro pela Reserva Federal dos EUA e aumento do crédito no país, que leva a um ganho de liquidez. A top selection de ações dos EUA em que o banco espanhol investe acumula uma valorização de 8,16% em 2018 e de 16,1% desde a criação da carteira, em 2010.

Em sentido contrário, Pisco é mais conservador em relação às gigantes tecnológicas. As cinco maiores — Facebook, Amazon, Apple, Netflix e a dona da Google (Alphabet) — entraram também esta semana em bear market com uma desvalorização superior a 20% desde o último pico no valor das ações. “As FAANG subiram muito e tenho uma postura cautelosa. Com as novas quedas, estão com preços que já oferecem valor, mas a volatilidade continua muito grande”, alertou o analista.

Em Lisboa, BCP merece destaque

Olhando para o mercado nacional, o Bankinter está a apostar no representante da banca no PSI-20, o BCP, porque beneficia do sentimento global na banca, associado ao preço “barato” e solidez oferecida por ter limpo o balanço. A estabilidade da REN e da Navigator (que está ganhar com a subida dos preços da matéria-prima) também agradam.

O retalho também está entre as ações preferidas, mas com uma ressalva. “Se a Sonae MC voltasse, preferia do que à holding Sonae“, diz. No caso da Jerónimo Martins é o preço baixo que atrai já que o forte investimento na Polónia está levar a uma distorção em baixa dos preços. “A situação é boa, mas não irá melhorar muito mais. Há que adaptar expectativas à volatilidade normal. Fim do bull market? Não, de todo. É só o regresso à normalidade”, acrescentou.

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