Coreia do Sul tem a economia mais digital do mundo. Portugal é um país a duas velocidades

Com quase 52 milhões de habitantes, a Coreia do Sul é hoje o 15.º país mais competitivo do mundo, após várias décadas de investimento na digitalização da economia. Pode ser exemplo para Portugal?

O que é que a Coreia do Sul tem e Portugal não tem?Ana Raquel Damas/ECO

A guerra com os vizinhos do norte fez da Coreia do Sul um dos países mais pobres do mundo. Mas hoje, cerca de 65 anos depois do fim do conflito, o país tem uma economia bastante competitiva e com boas perspetivas de crescimento. Com uma capital dinâmica e cheia de luz, a Coreia do Sul, liderada por Moon Jae-in, até ambiciona ser vista como modelo de desenvolvimento para a comunidade internacional. Mas o que é que eles têm que nós, Portugal, não temos? Em linhas gerais, a resposta é “tecnologia”. Muita tecnologia.

A Coreia do Sul tem quase 52 milhões de habitantes e é um dos países mais permeáveis do mundo às TIC, sigla para Tecnologias da Informação e da Comunicação. Conhecida por ser a “casa-mãe” de gigantes como a Samsung e a LG, tem beneficiado de sucessivas décadas de investimento na digitalização. Graças a isso, figura como líder global em adoção de TIC e de subscritores de serviços de telecomunicações em fibra ótica, de acordo com o ranking elaborado pelo Fórum Económico Mundial (FEM). É também o 15.º país mais competitivo do mundo, posição que compara com a 34.ª ocupada por Portugal.

Comparação de indicadores no ranking do FEM

Fonte: Fórum Económico Mundial

Para perceber esta discrepância, é pertinente ter em conta alguns números. Alguns, aliás, têm feito eco na comunicação social. É o caso da avaliação que a Comissão Europeia fez das competências digitais nos 28 Estados-membros da União Europeia (UE) e concluiu que, em Portugal, 52% da população entre 16 e 74 anos não tem as competências básicas para a era digital. O número fica muito aquém da média europeia. É por isso que se ouve dizer tantas vezes que vivemos num país a duas velocidades, em que uma parte da população tem acesso a um leque de serviços digitais que a outra parte não tem.

O problema parece não passar ao lado da classe política. Em 2016, na conferência anual da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento das Comunicações (APDC), o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, alertou que “muitos” portugueses “usam as ferramentas básicas” da era digital, “mas não usam o digital como forma básica de comunicação”. Uma intervenção subscrita no mesmo fórum pelo próprio presidente da APDC: “Metade da nossa população não tem os skills digitais básicos”, alertou Rogério Carapuça.

O ciclo vicioso reflete-se noutras áreas económicas. E, apesar de os portugueses serem conhecidos como early adopters (isto é, são adeptos de tecnologias acabadas de sair do forno), ainda fazem poucas compras na internet, como mostram dados recentes do Eurostat: apesar de o volume de compras online estar a crescer, continua muito abaixo da média dos países da UE em praticamente todas as categorias de produtos (à exceção das viagens).

A questão não parece assentar, de todo, num problema de cobertura de redes no território. Até porque, nisso, Portugal é bom exemplo: “Portugal já alcançou, a nível nacional, uma cobertura básica de banda larga e uma boa cobertura em redes de nova geração”, refere a Comissão Europeia. A Meo, a Nos e a Vodafone têm investido milhões de euros na expansão das respetivas redes de fibra ótica de norte a sul de Portugal (e ilhas) e na cobertura de várias regiões com rede móvel de quarta geração (4G). Contrariadas, também têm feito alguns testes para a nova era do 5G.

Ainda assim, os dados mais recentes da Anacom apontam para a existência de apenas 2,4 milhões de clientes residenciais de serviços de alta velocidade no final do primeiro semestre, um número que continua a crescer, mas que representa cerca de 21% do total da população portuguesa, e 53% das 4,5 milhões de casas cabladas com redes de alta velocidade.

Seul, a capital da Coreia do Sul, tinha 9,77 milhões de habitantes em 2017.Pixabay

Enquanto isso, a mais de 10.400 quilómetros de distância, a Coreia do Sul desenvolve-se com o apoio da tecnologia, contando com “praticamente todas as casas ligadas à internet”, de acordo com o portal ITU News, um serviço da União Internacional de Telecomunicações (ITU), que é uma agência especializada no seio da ONU. É por isso que os sul-coreanos são descritos por esta agência como sendo das nações “mais conectadas do mundo”, onde “os pagamentos digitais são aceites em praticamente todas as lojas” e onde “os taxistas trabalham não com um, mas com quatro ecrãs montados no tablier do automóvel”. “O crescimento económico da Coreia do Sul assenta no digital”, sublinha a ITU.

Para se entender a dimensão da aposta da Coreia do Sul na digitalização, basta dar como exemplo o programa Broadband Convergence Network (BnC), lançado pelo Governo sul-coreano em 2004. O objetivo foi o de levar a internet às zonas mais remotas do país, o que, de acordo com a ITU, ajudou a ultrapassar a divisão entre zonas rurais e zonas urbanas, que, por norma, têm um acesso mais rápido a tudo o que tem a ver com tecnologia.

Mais: a Coreia do Sul é vista como estando um passo à frente na investigação e desenvolvimento em torno do 5G, a quinta geração de rede móvel, que se prevê que traga avanços significativos no setor industrial, ou até para os consumidores, que deverão passar a ter acesso a carros autónomos sem condutor e a viverem em cidades cada vez mais inteligentes. Um exemplo? O país foi pioneiro a realizar um teste comercial de uma rede 5G. Quando? Precisamente este ano, durante os Jogos Olímpicos de Inverno, em Pyeongchang, segundo a Fortune. O piloto foi desenvolvido pela KT, a maior operadora de telecomunicações sul-coreana, numa altura em que Bruxelas tem pressionado os Estados-membros da UE para que comecem a implementar redes 5G em 2020.

Posto isto, a economia portuguesa poderia beneficiar de uma maior adoção de TIC e de uma maior educação da população para as ferramentas do mundo digital. Sobretudo numa altura em que o Governo tem promovido a modernização dos serviços públicos, e em que o talento na tecnologia se tem revelado escasso ao nível europeu, setor onde existem áreas com elevadas taxas de empregabilidade.

O que eles têm e nós não?

Portugal podia ser um país mais competitivo? Podia. Como? Se imitasse os melhores. Seríamos os primeiros se tivéssemos a percentagem de utilizadores de Internet da Islândia, um serviço de saúde igual a Espanha, uma oferta de comboios idêntica à da Suíça, o sistema judicial da Finlândia ou uma tolerância ao risco das startups semelhante a Israel. E há mais, muito mais.

Para assinalar os dois anos do ECO, olhamos para Portugal no futuro. Estamos a publicar uma série de artigos, durante três semanas, em que procuramos saber o que o país pode fazer, nas mais diversas áreas, para igualar os melhores do mundo.

Segundo o World Economic Forum, Portugal está em 34.º no ranking da competitividade de 2018. Vamos “visitar” os mais competitivos do mundo, nas mais diversas áreas, e tentar perceber “O que eles têm e nós não?”. Clique aqui para ver todos os artigos da série.

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