Comércio entre Espanha e Portugal blindado à incerteza política

Apesar de três eleições legislativas em pouco mais de três anos, relações com o maior parceiro comercial de Portugal resistem e denotam estabilidade económica, mesmo perante tanta incerteza política.

Os principais indicadores que medem a relação comercial entre Portugal e Espanha evidenciam uma estabilidade resistente à crise política em que o maior parceiro da economia portuguesa mergulhou desde o final de 2015, crise essa sem fim óbvio à vista. E a resiliência da relação económica entre empresários e industriais dos dois países não é de hoje, já tendo mostrado imunidade a incertezas noutros períodos.

“Os resultados são imprevisíveis, mas estou certo que qualquer que seja o resultado, e tudo aponta para a necessidade de se formar um governo de coligação de esquerda, ou de centro-direita com o apoio do novo partido VOX, não afetará a atividade comercial entre os dois mercados, que é muito intensa”, aponta Enrique Santos, presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola (CCILE), ao ECO.

As tendências de crescimento ou recuo que os indicadores comerciais entre Portugal e Espanha mostravam antes do eclodir da crise mantiveram-se ao longo dos anos seguintes, tanto que olhando apenas para estes números, mal se perceberia que Espanha vive em crise política desde o final de 2015. E se há um indicador onde sobressai uma alteração mais pronunciada desde 2015, esta provavelmente talvez se deva mais às certezas económicas do governo português, do que às incertezas políticas no governo de Espanha.

Falamos do saldo global das trocas comerciais entre Portugal e Espanha que, apesar de ser historicamente negativo para o lado de Lisboa, registou um agravamento significativo em 2017 e 2018, muito por culpa do aumento das importações portuguesas, que saltaram de 20,3 mil milhões para 23,5 mil milhões em 2018. Em resultado, a balança, que em 2016 era negativa em 7,5 mil milhões, viu o défice crescer até 8,8 mil milhões.

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“A relação [entre Portugal e Espanha] é muito intensa e anualmente representa mais de 32 mil milhões de euros em produtos e serviços transacionados, tendo vindo a crescer todos os anos, prova de uma relação consolidada e com uma importante interdependência em setores tão importantes como o automóvel, maquinaria, mecânica, materiais plásticos ou combustíveis”, detalha Enrique Santos.

Esta interdependência em crescendo constata-se também se olharmos para o total de empresas portuguesas com operação do lado de lá da fronteira, indicador que ao longo dos anos de crise política em Espanha manteve o ritmo de crescimento. Portugal contava com 5.278 exportadores para Espanha em 2014, valor que foi subindo ligeiramente ao longo dos anos posteriores, a um ritmo relativamente estável. Em 2015 havia mais 3,6% exportadores portugueses para Espanha, em 2016 mais 2,56% e em 2017 mais 4,72%. No final desse ano, eram já 5.874.

Serão também estes números que levam o líder da CCILE a não mostrar grandes dúvidas que, independentemente do cenário que resulte das eleições deste domingo, empresários e industriais de ambos os países continuarão a traçar a rota da consolidação em conjunto, lembrando inclusive que recentemente, noutros períodos críticos, foi precisamente isso que se verificou.

Portugal é e continuará a ser um importante sócio comercial de Espanha e se analisarmos dois momentos do passado recente, como foi a crise económica com início em 2007 ou a questão mais política do ‘processo’ na Catalunha, a evolução do comércio bilateral manteve sempre ritmos de crescimento.”

Como é que Espanha chegou aqui?

A génese da atual crise política, e a sua continuação, encontram-se intimamente ligadas a estes dois momentos do passado elencados pelo presidente da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Espanhola ao ECO.

Os espanhóis são este domingo chamados pela terceira vez a eleger um governo desde o final de 2015. Nas legislativas de dezembro de 2015, Mariano Rajoy enfrentou pela primeira vez os eleitores desde as políticas de austeridade assumidas desde 2011. Ao desagrado face a estas políticas, juntaram-se vários escândalos de corrupção a envolver políticos de diferentes partidos e que, pouco a pouco, foram minando a confiança dos espanhóis nos partidos tradicionais.

Nas legislativas de 2015, e lá como cá, o governo dos “anos da austeridade” conseguiu manter-se como o mais votado, já que a oposição socialista, também como cá, não conseguiu “cavalgar” o desagrado dos eleitores. O Partido Popular caiu de 44,6% para 28,7% em 2015 e o PSOE caiu de 28% para 22%. Porém, e ao contrário do que aconteceu cá, em Espanha não nasceu nenhuma ‘geringonça’, provavelmente porque lá os votos não foram transferidos para outros partidos tradicionais, antes para os emergentes Podemos (20,7%) e Cidadãos (13,9%).

Às eleições de 2015, seguiram-se meses de negociações entre grupos parlamentares, mas o Congresso acabou dissolvido pouco depois, tendo sido convocadas novas eleições para junho de 2016. O cenário repetiu-se, ainda que com ligeiras alterações, a favor de Rajoy: o PP conseguiu reforçar a sua votação para 33%, o PSOE permaneceu sensivelmente no mesmo patamar (22,7), tal como Podemos (21,1%) e Cidadãos (13,1%).

Mariano Rajoy, desta feita, conseguiu formar governo, sobretudo graças ao apoio do Cidadãos e à crise de liderança em que caiu o PSOE, que levou os socialistas a absterem-se na votação para a formação do novo governo. Mas se a situação parecia finalmente minimamente estável, tal não durou muito.

Rajoy ficou sob alta pressão depois da reação musculada contra o referendo à independência da Catalunha e, juntando a isto as conclusões judiciais a confirmar a existência no interior do PP de esquemas de contabilidade e financiamento ilegal, a moção de desconfiança apresentada pelo PSOE já em 2018 foi aprovada com maioria e Rajoy caiu em junho desse ano.

Pedro Sanchéz tomou então as rédeas ao executivo espanhol, mas não por muito tempo. Em fevereiro deste ano, o líder socialista viu a sua proposta de Orçamento do Estado chumbada no Parlamento e, dizendo-se bloqueado pelos outros partidos, convocou novas eleições — as que decorrem este domingo.

Os próximos capítulos

Agora, e segundo as últimas sondagens, o PSOE poderá alcançar 28,8% dos votos, enquanto o PP arrisca nem chegar aos 18%. E se os “já-não-tão” emergente Unidos Podemos e Ciudadanos não conseguem recolher mais de 15% das intenções de voto, cada, é ainda mais à direita do PP que surge um novo emergente para baralhar um já confuso quadro, com as sondagens a darem 12,5% ao VOX.

Sem nenhuma maioria à vista, e com os eleitores tão dispersos, antecipa-se que das eleições deste domingo não saia mais do que as posições de partida para um jogo complexo de negociações que se pode prolongar por meses e que, dado a história dos últimos anos, pode resultar em… novas eleições.

Independentemente das oscilações do pêndulo político em Espanha nos últimos anos, e talvez de ambos os países nos próximos, os dados sobre o comércio entre Portugal e Espanha evidenciam laços resistentes à crise política. Antes e depois de 2015, os espanhóis responderam por 23% a 25% das vendas de Portugal ao exterior. Já as compras portuguesas a Espanha continuaram a valer entre 32% e 33% do total das importações da economia portuguesa no período, ainda que caindo para 31,4% em 2018.

Tendo em conta estes e outros valores das trocas comerciais entre Portugal e Espanha, e a sua evolução nos últimos anos, é de esperar que no imediato não se registem profundas alterações nas relações entre os dois países mesmo no provável cenário de continuação da incerteza política em Espanha. Contudo, nem as relações mais resilientes resistem a crises intermináveis.

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