Petróleo, ações e moedas em queda. Bastaram dois tweets de Trump para lançar o pânico nos mercados mundiais

O presidente norte-americano voltou a usar o Twitter para falar da guerra comercial. Confiantes que o conflito estava próximo de ser resolvido, os mercados reagiram em queda.

Desde o início do ano que o medo nas bolsas não era tão elevado. O presidente dos EUA, Donald Trump usou o Twitter para anunciar o reforço das taxas aduaneiras à importação de produtos chineses e para se queixar de que as negociações entre os dois países estão a demorar demasiado. Petróleo, ações e moedas afundam em reação, enquanto os investidores fogem para ativos refúgio.

“O mercado estava a assumir que nada de mau poderia acontecer nem no Brexit nem na guerra comercial portanto qualquer desenvolvimento negativo causa um choque nas ações, especialmente após o rally deste ano”, afirmou o chief investment officer da gestora de ativos Dunas Capital, Alfonso Benito, à Bloomberg.

O presidente dos EUA anunciou este domingo uma subida nas tarifas de alguns produtos chineses para 25%. Os novos preços entram em vigor na sexta-feira e significam um agravamento face aos 10% suportados até agora. A decisão vem deitar por terra a perspetiva de um acordo, dizem os analistas, levando a quedas expressivas nos mercados acionistas, a começar pelas praças chinesas. O índice de Xangai tombou 5,6%, no maior tombo diário em três anos.

O sentimento negativo estendeu-se à Europa, com o índice pan-europeu Stoxx 50 a registar uma queda de 2,2% — para mínimos de um mês e a caminho da pior performance diária desde finais de dezembro –, e o Stoxx 600 a perder 1,4%. Tanto os automóveis (que afundam 3,8%) como a banca (que desvaloriza 1,7%) estão a ser especialmente penalizados.

Bolsa portuguesa acompanha quedas da Europa

A bolsa de Lisboa não é exceção e afunda 1,4% para 5.301,41 pontos e com todas as cotadas no vermelho, duas horas após a abertura. A liderar as perdas do PSI-20 está a Mota-Engil — uma das cotadas portuguesas mais vulneráveis ao sentimento externo e às flutuações no mercado cambial –, que desvaloriza 3,2% para 2,238 euros por ação. Também o BCP tomba 2,7% para 0,249 euros por ação, em linha com o setor bancário europeu.

Medo dispara. Ativos refúgio brilham

Após meses a negociar flat face ao dólar (com os investidores à espera da resolução do impasse entre EUA e China), a moeda chinesa, o renmimbi, regista uma queda de mais de 1%. Igualmente, o euro deprecia-se face à moeda dos EUA, recuando 0,12% para 1,186 dólares, enquanto a libra esterlina perde 0,45% e o iene japonês recua 0,32%. O dólar é um dos ativos de refúgio dos investidores.

A tendência não é exclusiva das ações e, além das moedas, afeta também o petróleo. “A perspetiva de meses de negociações comerciais a descarrilarem por causa de Trump aumentou as preocupações sobre o futuro da procura por petróleo”, explicou Jasper Lawler, head of research de futuros da corretora britânica London Capital Group, à Reuters. O brent londrino perde 1,4% para 69,87 dólares por barril e o crude WTI recua 1,68% para 60,90 dólares.

“O endurecimento repentino da posição de Trump sobre as tarifas à China assustou os investidores, que se estão a mexer para reduzir os níveis de risco nos mercados”, acrescentou Lawler. O reflexo é claro: o índice de medo CBOE Volatility Index (VIX) dispara 45% para os níveis para elevados desde final de janeiro, com os futuros de Wall Street a perderem 1,7%.

Em sentido contrário, os ativos refúgio brilham. O sell-off acionista está a levar o ouro a valorizar 0,25% para 1.282,20 dólares por onça, enquanto a yield das Bunds alemãs a 10 anos recua 1,5 pontos base para apenas 0,01%, aproximando-se novamente de terreno negativo.

Os analistas antecipam que a sessão seja negativa por as declarações terem sido inesperadas, mas também desvalorizam a situação, considerando que poderá ser uma manobra. “Os tweets de Trump são uma estratégia de negociação”, referiu Raoul Leering, head of international trade analysis do ING, numa nota. “Apesar de a estratégia ser arriscada porque a China poderá recusar negociar com uma arma apontada e decidir abandonar as conversações, ambos os lados investiram muito capital político nas negociações para deixar que isso aconteça”.

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