Prémios Inovdesign ou como pôr o design ao serviço da sustentabilidade

  • Fátima Castro
  • 1 Julho 2019

Mobiliário urbano em betão, brinquedos produzidos com plástico reciclado e bases de copos feitos à base do engaço: o design ao serviço da sustentabilidade na Fundação de Serralves.

Sabia que a prestigiada marca Chanel comprou placas de engaço produzidas por uma empresa portuguesa? No lançamento da coleção dos vinhos da Chanel, em Tóquio, a prestigiada marca fez uma encomenda à Matter que escolheu este material feito com engaço para apresentar os seus vinhos. A empresa portuguesa desenvolveu o projeto UVA que tem como foco principal criar objetos únicos a partir do engaço do vinho.

Usar os recursos da terra e aproveitar o desperdício do engaço – um dos resíduos da produção do vinho – foi o projeto a ideia vencedora da edição do Inovdesign 2018, prémio promovido pela Fundação de Serralves, que tem como objetivo a sensibilização e capacitação das Pequenas e Médias empresas da Região Norte de Portugal para a adoção de modelos inovadores de desenvolvimento e design de produtos e bens. Mesas de apoio, bases de mesa, objetos acústicos de parede, revestimentos de paredes e tetos são alguns dos produtos que a marca já disponibiliza.

Ana Lima, mentora do projeto, salienta que premissa da Matter é “pegar no resíduo de produção, tal como ele se encontra, agregá-lo de uma maneira impercetível e conseguir levar a natureza ao cliente final”. Acrescenta que para além da coleção com os resíduos do vinho usam também os resíduos do café, da cerveja e do chocolate para criarem objetos únicos.

Na opinião da fundadora do projeto, Ana lima, foi o tema da sustentabilidade juntamente com a sensorialidade dos materiais que conquistou o júri. A mentora de UVA conclui que “o planeta é só um e temos, cada vez mais, que reutilizar os nossos recursos”.

Reduzir o impacto do desperdício no planeta

A economia circular foi um dos temas que se destacou nesta edição do Inovdesign e conquistou grande parte dos jurados. Para além do desperdício do engaço, reutilizar o desperdício do couro – indústria com bastante peso na economia portuguesa – foi uma das ideias vencedoras. Considerando o impacto nefasto no planeta destes resíduos e preocupado com esta questão, Hugo Pereira criou o projeto Prêt-à-Porter que tem como principal missão reutilizar o desperdício do couro na indústria do calçado.

Segundo o jovem designer, esta ideia pretende “dar uma segunda vida” ao desperdício do couro e “diminuir o impacto que tem no nosso ecossistema”. Um produto ecofriendly que conquistou o júri e levou para casa o segundo lugar do Inovdesign 2018

Depois de uma profunda investigação de mestrado, o designer percebeu que era possível reutilizar os desperdícios do couro através da criação de um material formado por placas, provenientes do desperdício do couro que mais tarde resultariam em produtos funcionais.

O mentor do projeto explica que começou a perceber o “potencial do material” e a partir dessas placas com restos de couro prensado começou a explorar a possibilidade de incutir o material em produtos. E através dessas mesmas placas resultaram numa coleção de mobiliário: banco, espelho, prateleira e mesa de apoio. Um dos próximos objetivos de Hugo Pereira passa por apostar na comercialização de pranchas de skate totalmente construídas através do desperdícios do couro.

Há uma segunda vida para o plástico

Devido ao consumo desacerbado é cada vez mais urgente agir estrategicamente e caminhar no sentido do reaproveitamento das matérias-primas e reutilização do desperdício. O plástico é hoje um dos maiores inimigos do planeta. 80% dos plásticos recolhidos acabam em aterros, em incineradoras ou mesmo nos oceanos e para ajudar a combater este facto surgiu o projeto Precious Plastic que transforma o plástico em objetos novos.

Geppetto foi uma das ideias que conquistou o júri e alcançou o segundo lugar. Este é um projeto que envolve crianças do ensino básico juntamente com a equipa do PreciousPlastic Portugal, no âmbito da reciclagem de plástico. O objetivo é criar um brinquedo com um kit de montagem feito a partir da transformação de desperdício.

"90% dos brinquedos são feitos em plástico e tem apenas uma duração de vida de apenas seis meses.”

João Feyo

Mentor do Geppetto

Segundo o mentor do projeto João Feyo, “o objetivo é dar uma segunda vida aos materiais” e a atribuição deste prémio faz o mentor acreditar que “existem pessoas preocupadas com o impacto do plástico no planeta“. João Feyo alerta que em 2050 “vamos ter mais plástico do que peixe nos oceanos” e face a esta grande problemática é preciso agir”.

Irena Uber, designer de produto, explica que “este kit tem vários elementos e é possível ser montado em milhares de formas diferentes”. Destaca que a próxima meta é “elaborar cada vez mais a ideia que ainda é um protótipo” e caminhar para a comercialização destes brinquedos criados a partir do “lixo” do plástico.

O design é cada vez mais uma ferramenta para a sustentabilidade

Roma Collection é uma nova linha de mobiliário urbano da empresa Ereserv, que tem como premissa principal a sustentabilidade dos materiais, a criação de equipamentos de inclusão social ilimitada e adequação à mobilidade ecológica. Procura o conforto físico e visual do ser humano aliado a uma vontade de viver no espaço exterior comunitário. O projeto Roma Collection foi a ideia vencedora da edição do Inovdesign 2019.

As designers da coleção, Rosana Sousa e Sofia Vieira acreditam que ainda existem muito mobiliário urbano em défice e decidiram fazer uma coleção que reformula-se essa mesma falha. Com uma abordagem às cidades contemporâneas, a coleção consiste em cinco peças: banco, caixote de lixo, um suporte para bicicletas, mesa, uma floreira e também um bebedor.

A coleção tem a particularidade de ter um único molde de metal para todas as peças da coleção. A gestão consciente de recursos materiais foi uma preocupação ao conceber este projeto. Sustentabilidade dos materiais, a durabilidade e resistência ao tempo foram alguns dos motivos que convenceram o júri.

Segundo as jovens designers, o próximo passo é a comercialização dos moldes – através de um único molde de metal é possível extrair toda a coleção a partir de vários compartimentos em betão. A aposta em vender este mobiliário urbano para o mercado ibérico poderá ser uma forte possibilidade.

Linha de louça adaptada a pessoas com mobilidade condicionada

Aliar o design tradicional à funcionalidade foi uma das ideias premiados no Inovdesign. O simples ato de comer é habitualmente um prazer, mas para muitos pode representar uma grande dificuldade. E por isso mesmo Maria Tavares, Frederico Quinaz e Filipe Quinaz criaram uma linha de louça com dois modelos de pratos adaptados a pessoas com mobilidade condicionada, que dependem apenas de uma mão para comer, seja por estarem lesionadas, amputadas, portadores de problemas neuromotores e até para as crianças.

O projeto Olaria Olé – À mesa com todos, já tem disponível dois pratos – raso e sopa, que têm como principal missão anular dificuldades que os utilizadores possam ter quando utilizam pratos nos modelos convencionais. Esta ideia conquistou o terceiro lugar da edição de 2019 do Inovdesign.

O prato de sopa tem o fundo inclinado que permite que a sopa escorra sem a necessidade de levantar ou inclinar o prato. Já o prato raso tem a peculiaridade de ter uma zona angular de 90 graus no rebordo do prato de forma a tornar desnecessário o recurso à faca para conseguir encher o garfo ou a colher.

O grupo de jovens empreendedores acredita que a “diferenciação e a utilidade do produto” foram as principais características que convenceu o grupo de sete jurados. O próximo passo para além de completar o serviço de louça é comercializar o produto e quem sabe apostar na exportação, destaca a designer Maria Tavares.

Pegada ecológica como tema principal na atribuição dos prémios do Inovdesign

Candeeiro Bolhas é uma coleção de candeeiros feitos em papel de cartão reciclado e foi a ideia que conquistou o terceiro lugar do inovdesign 2018. Victor Alonso e Pedro Favaretto são as mentes por trás do projeto e explicaram ao ECO que o objetivo desta coleção foi “explorar as possibilidades da fabricação digital e utilizar uma matéria-prima simples, ecológica e acessível”.

As peças podem ser fabricadas digitalmente em máquinas CNC laser diretamente no papel de cartão com 2mm. Todos os candeeiros nesta coleção são 100% ecológicos – feitos através de papel de cartão reciclado. A montagem é feita por encaixes, pelo que não é necessário usar cola ou parafusos. Estes candeeiros podem ser utilizados como iluminação pendente, de mesa ou de chão.

Segundo os mentores do projeto, “o design foi codificado e programado para que se possa alterar parâmetros como altura, largura, quantidade de bolhas, tamanho de bolhas e posição”. A fabricação é por corte à laser e pode ser feita através de uma vasta gama de materiais: acrílico, papel cartão reciclado e contraplacado em madeira. O corte à laser permite que as peças sejam diagramadas de modo a economizar o máximo de material possível no corte.

Aproveitar o desperdício das matérias-primas foi um dos temas que esteve em voga na atribuição dos prémios do Inovdesign. A fundação de Serralves juntou a edição de 2018 e 2019 na atribuição dos prémios às seis melhores ideias.

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