Quem vai a votos na corrida ao FMI?

Sem consenso, os ministros das Finanças da União Europeia vão votar esta sexta-feira as vezes que forem necessárias até escolherem o seu candidato ao FMI. Ninguém desistiu, Centeno também vai a votos.

Sem um candidato óbvio e sem consenso, ninguém cedeu e os ministros das Finanças da União Europeia vão ter de votar até encontrarem o candidato da Europa para diretor-geral do Fundo Monetário Internacional, cargo esse deixado vago pela nomeação de Christine Lagarde para a presidência do Banco Central Europeu.

Não se antevê uma manhã fácil para os ministros das Finanças. França, que está a gerir o processo, pediu uma votação argumentando que o processo não se pode arrastar, sob pena de os países emergentes apresentarem candidatos e a Europa perder a direção do FMI, algo que tem sido a sua prerrogativa desde a fundação da instituição no seguimento dos acordos de Bretton Woods, resultado de um acordo de cavalheiros com os Estados Unidos.

Graças à nomeação recente do presidente do Banco Mundial, que é mais uma vez um americano, a Europa continuará a ter o apoio do país com mais direitos de voto no FMI, os Estados Unidos. Mas os países emergentes têm reclamado o fim deste acordo de cavalheiros. A Europa quer um candidato forte, mas não o conseguiu. Agora restará aos países escolherem um candidato único e tentar antecipar-se a países com a China, Rússia ou até o México.

Os candidatos já estão escolhidos e entre eles há um português, uma búlgara, um holandês, um finlandês e uma espanhola.

Kristalina Georgieva

Pontos fortes

  • É economista e tem um longo currículo. Começou no Banco Mundial em 1993 e chegou a ser vice-presidente, até que em 2010 saiu do grupo para ser comissária europeia na segunda Comissão Barroso. Voltou a ser comissária com Jean-Claude Juncker, Comissão durante a qual foi vice-presidente, até que voltou para Washington e assumiu o cargo de diretora-executiva do Banco Mundial.
  • Um dos principais apoiantes de Kristalina Georgieva tem sido a França, que tentou promover a sua nomeação desde que assumiram a coordenação do processo. Teve o apoio de Angela Merkel para a corrida às Nações Unidas e voltou a ser falada para a presidência do Conselho Europeu.
  • Seria o primeiro cargo de relevo para um dos países que mais recentemente entraram na União Europeia e daria a representação geográfica que os países da Europa Central e de Leste têm exigido.

Pontos fracos

  • É um nome que vai surgindo, mas nunca consegue apoio suficiente para chegar a um cargo de topo. A campanha a secretária-geral das Nações Unidas deixou marcas. Chegou à corrida na fase final, com o apoio de Angela Merkel (que já tinha prometido o apoio a António Guterres), não só não conseguiu a vitória como sofreu uma pesada derrota, ficando atrás até da outra candidata da Bulgária, que se recusou a retirar da corrida para abrir espaço para Georgieva.
  • Não tendo anticorpos, também não consegue um apoio mais vasto. Pode ser uma solução de recurso, mas está longe de ser a primeira escolha dos ministros das Finanças, mesmo com a pressão que tem vindo a ser feita pela França.

Jeroen Dijsselbloem

Pontos fortes

  • A experiência como presidente do Eurogrupo durante cinco anos faz com que seja um velho conhecido entre as principais instituições internacionais e os principais interlocutores, como os ministros das Finanças e os líderes europeus. Foi ministro das Finanças e líder do Eurogrupo num período especialmente crítico da crise.
  • O estilo de liderança do Eurogrupo — mais prático e eficaz do que o seu antecessor, Jean-Claude Juncker — foi uma melhoria bem-vinda ao seio das reuniões dos ministros das Finanças do euro.
  • Tem o apoio dos países do Benelux, numa contenda em que França e a Alemanha não têm qualquer candidato, o que poderá permitir a convergência em torno de uma cara mais conhecida que a dos restantes candidatos.

Pontos fracos

  • Ser o delfim de Wolfgang Schäuble valeu-lhe o posto de presidente do Eurogrupo durante dois mandatos, e até continuou mais uns meses sendo pago através do Mecanismo Europeu de Estabilidade já depois de deixar de ser ministro das Finanças da Holanda — fruto de uma pesada derrota eleitoral —, mas também fez com que o holandês fosse visto como uma marionete do poderoso, e muito controverso, ex-ministro das Finanças da Alemanha num período especialmente delicado para vários países na Europa. Foi a cara do Eurogrupo durante as mais complicadas negociações com a Grécia e teve várias ‘pegas’ com os governantes gregos.
  • A sucessão de casos durante o período em que foi presidente do Eurogrupo levanta várias questões sobre a sua credibilidade e capacidade para gerir uma questão da dimensão do FMI. Primeiro levantou a hipótese de os depositantes serem chamados a pagar parte do resgate ao Chipre — o que foi rapidamente qualificado com um dos maiores erros de um presidente do Eurogrupo –, depois as palavras para os países do sul: “não se pode gastar o dinheiro todo em copos e mulheres e depois pedir ajuda”. Nunca pediu desculpa por estas palavras, nem no Parlamento Europeu. Pelo meio ainda teve de alterar o seu currículo um mestrado em economia empresarial na Universidade de Cork, que nem existia. Substituiu-o por investigação tendo em vista a obtenção de um mestrado.
  • Tem a oposição firme dos países do sul da Europa, que dificilmente conseguirá reverter, e até a Alemanha que o apoiava inicialmente se retraiu nesse apoio. Além disso, a maior parte dos cargos mais importantes na Europa já estão distribuídos pelo núcleo de países entre França e Alemanha. A sua escolha representaria uma ainda maior concentração geográfica.

Olli Rehn

Pontos fortes

  • Foi chefe de gabinete de Errki Liikanen durante a Comissão de Romano Prodi, tendo chegado a ser comissário já nos dias finais dessa Comissão. Voltou à Comissão Europeia para dois mandatos durante a Comissão Barroso. Já foi deputado, eurodeputado, comissário europeu, ministro da Economia e é há um ano governador do Banco central da Finlândia.
  • Os muitos anos na arena política e na pasta de comissário de Assuntos Económicos durante crise das dívidas soberanas na Europa deu-lhe a experiência de negociar com os vários governos e capacidade de gestão de crises. Conhece vários dos principais interlocutores, como Christine Lagarde que agora deixou o cargo.
  • Tem o apoio dos países bálticos e alguns dos países do chamado grupo de Visegrado. Além disso, não há qualquer país do Norte da Europa representado nos principais cargos da União Europeia.

Pontos fracos

  • A experiência política acumulada também traz consigo anticorpos. Durante a crise Olli Rehn foi um dos maiores defensores das duras medidas de austeridade aplicadas aos países que pediram resgates à União Europeia e ao FMI, em especial a Grécia (mas também Portugal). Numa altura em que o FMI já fez o seu ato de contrição sobre os erros dessas políticas, Olli Rehn ainda não. A sua escolha poderia enviar um sinal de favorecimento a uma política ortodoxa que provou ter maus resultados na Europa.
  • Apesar de ter apenas um ano de experiência como governador do Banco da Finlândia foi um dos candidatos nomeados pelo governo finlandês à presidência do Banco Central Europeu, que Mario Draghi deixará vaga no final de outubro. Na altura já lhe era apontado que era demasiado político e pouco técnico.
  • O apoio que tem no Norte e na Europa de Leste não é traduzido nos restantes blocos, nomeadamente nos países mais a sul e na Itália. Pode ser uma escolha de recurso, mas ainda não tem o apoio de nenhuma das maiores economias.

Nadia Calviño

Pontos fortes

  • É uma figura relativamente nova na arena internacional, o que faz com que não tenha ainda tantos anticorpos como os que alguns dos outros candidatos geraram ao longo das suas carreiras políticas, especialmente Olli Rehn e Jeroen Dijsselbloem.
  • Não sendo uma candidata óbvia, pode ser uma solução de compromisso e teria sempre o apoio dos países do sul caso seja escolhida em detrimento de Mário Centeno numa das rondas de votações que acontecem esta sexta-feira.
  • Tem uma década de experiência no Ministério das Finanças de Espanha em funções diferentes das que desempenha atualmente e outra década em algumas das mais importantes direções gerais da Comissão Europeia — como as da Concorrência, do Mercado Interno e da Estabilidade Financeira e Serviços Financeiros, chegando à liderança da Direção-Geral para o Orçamento, nomeada pelo alemão Günther Oettinger. Tem o conhecimento dos dossiês mais importantes que teria de gerir caso fosse a escolhida.

Pontos fracos

  • É aparentemente a candidata com menos hipóteses e disputará com Mário Centeno o apoio dos países do sul. Está longe de ser primeira escolha. É a candidata com menor experiência governativa e não desempenhou qualquer cargo internacional de relevo.
  • Espanha reclamou durante muitos anos um cargo de relevo na Europa, fruto de ser um dos maiores países da União Europeia e a sua quarta maior economia. Isso mudou recentemente com a eleição — apesar das reservas — de Luis de Guindos para a vice-presidência do Banco Central Europeu e ainda da escolha de Josep Borrell para Alto Representante da União Europeia para a Política Externa, com uma pasta reforçada.
  • O primeiro-ministro espanhol Pedro Sanchéz capitalizou as mudanças políticas na Europa para colocar Espanha no centro das decisões, mas também gastou todo o seu capital político com a escolha de Josep Borrell. As dificuldades em formar Governo não ajudam, tal como a tentativa anterior de tentar nomear Nadia Calviño para o BERD.

Mário Centeno

Pontos fortes

  • Assumiu a pasta de Ministro das Finanças de Portugal com o país ainda num Procedimento dos Défices Excessivos e muito pressionado pelas autoridades europeias e o Eurogrupo, que duvidavam da capacidade do Governo português de apresentar resultados. Retirou Portugal do Procedimento dos Défices Excessivos, reduziu o défice para níveis historicamente baixos e acabou a ganhar a alcunha de “Ronaldo do Ecofin” dada por um dos seus maiores críticos, o alemão Wolfgang Schäuble.
  • É apenas o terceiro ministro a ocupar o lugar de presidente do Eurogrupo, depois de Jean-Claude Juncker e Jeroen Dijsselbloem, o primeiro de um país do sul e foi dado como exemplo de um país que teve sucesso com o resgate, um resgate com medidas e uma estratégia que o própria criticou sucessivamente. O cargo permitiu criar um perfil internacional que não tinha, a experiência a gerir um grupo de alto nível e a rede de contactos indispensável para um cargo como o de diretor-geral do FMI.
  • A carreira académica e no Banco de Portugal dá-lhe vantagem competitiva e conhecimentos que podem ser uma vantagem na disputa com os restantes candidatos. Se for escolhido como candidato sul, deverá ter o apoio de países de Itália e Espanha, assim como Grécia, Chipre e Malta.

Pontos fracos

  • Só iniciou funções como presidente do Eurogrupo há um ano e meio, o que faz com que a sua experiência e perfil na arena internacional seja mais limitado que, por exemplo, os de Kristalina Georgieva, Olli Rehn e Jeroen Dijsselbloem.
  • Tem mais experiência e perfil que Nadia Calviño, e por isso pode ser mais fácil conseguir os apoios dos países do sul, mas não tem até ao momento um apoio alargado de países mais fortes, tornando mais difícil a sua eleição.
  • Portugal é um país pequeno em termos relativos e já tem a liderança das Nações Unidas. Apesar de não relacionado, pode haver alguma relutância dos maiores países da União Europeia em apoiar um candidato português quando não há qualquer cargo atribuído a uma pessoa de um país da Europa Central e de Leste.

Comentários ({{ total }})

Quem vai a votos na corrida ao FMI?

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião