O dia depois da queda do BES nos jornais

Eram 22h45 de domingo quando Carlos Costa anunciou a resolução do BES, dando origem ao Novo Banco que conhecemos hoje. Decisão foi manchete em toda a imprensa nacional no dia seguinte.

O Benfica averbava nova derrota na pré-temporada e deixava treinador Jorge Jesus em maus lençóis. Portugal subia ao placo para receber 16 “óscares” que distinguiam o melhor do turismo na Europa. O país discutia ainda o caso da mãe Judite que lutava em tribunal para ter de volta os quatro filhos.

Estas eram algumas das principais notícias nas capas dos jornais do dia 4 de agosto de 2014, há cinco anos. Mas um assunto principal ganhou destaque na edição desse dia: a queda do BES. Nenhum diário nacional deixou de abordar a histórica medida de resolução imposta ao histórico banco da família Espírito Santo e que deu origem a um “Novo Banco”. Lá fora, entre os principais jornais, apenas o El País da vizinha Espanha deu destaque na edição em papel.

Diário de Notícias

BES deixa de existir nasce o Novo Banco que recebe injeção de 4,9 mil milhões

Estávamos na pré-época futebolística, o Benfica de Jorge Jesus tinha perdido (sexta derrota, lembra o jornal) por 3-1 diante do Valência. Mas um assunto ocupa quase toda a primeira página do Diário de Notícias. Dando corpo à notícia estavam três figurais principais: Carlos Costa, o então presidente do BES, Vítor Bento, e a ministra das Finanças do anterior Governo, Maria Luís Albuquerque.

“Incertezas que ameaçavam a instituição foram afastadas”, assegurava Vítor Bento, que se manteria na gestão do banco com a missão de procurar novos acionistas, seja por via de dispersão do capital em bolsa ou por venda direta, referiu o jornal. O Fundo de Resolução acabaria por vender diretamente a instituição em outubro de 2017 ao Lone Star, já após ter falhado uma primeira tentativa. Sobre o futuro do novo banco acabado de nascer, dizia o jornal: “Novo Banco nasce livre de todos os problemas e dívidas. Banco de Portugal e Governo tranquilizam e dão garantias a clientes e depositantes”.

Público

Estado e banca injetam 4,9 mil milhões para criar um “novo BES”

Por “novo BES” entendia-se Novo Banco, uma marca que tinha acabado de nascer e cuja originalidade foi questionada nos primeiros dias. Neste dia, embora o turismo nacional tenha conquistado 16 “óscares” do turismo europeu, Carlos Costa ocupava uma grande mancha na capa do Público por causa da resolução ao banco.

A letras mais pequenas, o jornal explica o que acontecerá com o BES, que “vai ser dividido em dois: um banco bom, que passa a ser propriedade do setor bancário; e um banco mau, que fica com os atuais acionistas. Também se destacam as garantias do Banco de Portugal e do Ministério das Finanças de que não haverá perdas para os contribuintes.

Jornal de Notícias

Salvar BES custa 4,9 mil milhões

A mãe Judite tinha 33 anos e lutava em tribunal para ter de volta os quatro filhos que a juíza mandou para adoção. A assunto merecia destaque de imagem no Jornal de Notícias, que tinha, ainda assim, como manchete em parangonas “Salvar BES custa 4,9 mil milhões”.

Tinha sido este o plano apresentado no dia anterior pelo Banco de Portugal: “O Estado entra com 4,4 mil milhões de euros”, mas o “risco é nulo para contribuintes, clientes e trabalhadores”, garantia o Governo. O dinheiro injetado no banco ia ser recuperado com a venda da instituição. “Falhada esta hipótese, serão os restantes bancos a pagar”, dizia o jornal.

Correio da Manhã

Espírito Santo fora do novo BES

No Correio da Manhã, mais do que o dinheiro injetado no banco, salientava-se outro pormenor: a família Espírito Santo estava fora do Novo Banco. E para acompanhar a manchete duas fotografias com Ricardo Salgado e Carlos Costa como se estivessem olhando um para o outro em jeito de desafio.

A letras mais pequenas, o jornal contextualizava: a “família fica só no banco mau, que vai gerir os ativos tóxicos”.

i

Estado empresta 4.400 milhões para salvar Novo Banco

Família Espírito Santo fica com o “BES mau” que entra em falência

O i também optou uma primeira página em que Carlos Costa e Ricardo Salgado surgem frente a frente. Para segundo plano fica a “dupla” manchete onde se salienta o facto de o Estado emprestar 4.400 milhões de euros para salvar um banco acabado de nascer e ainda a situação inédita de a família Espírito Santo ficar na parte falida do banco.

 

Jornal de Negócios

Novo BES

Nos jornais de economia, o Jornal de Negócios dava destaque ao regresso às aulas, com dicas para poupar na compra de material e livros escolares. Até Cristiano Ronaldo aparecia na primeira página, com a sua marca de sapatos a fazer a estreia em Milão. Mas Carlos Costa era o protagonista (só não aparece na capa do Jornal de Notícias). “O governador do Banco de Portugal falou ontem ao país já passava das 22h45. Carlos Costa repetiu várias vezes que o dinheiro dos depositantes está seguro”, lê-se na legenda da foto.

Sobre o dinheiro injetado no “Novo BES”, o jornal explicava as consequências da intervenção: “Resgate aumenta défice. Acionistas perdem (quase) tudo, depositantes protegidos no Novo Banco. Analistas temem impacto negativo no BCP e BPI“.

 

Diário Económico

Resgate

No Diário Económico, a resolução ao BES foi tema único na capa e com o governador do Banco de Portugal a assumir papel principal. Explicava o diário de economia: “O Banco de Portugal assumiu a liderança do plano de recapitalização do BES para evitar contaminação ao sistema financeiro nacional. Banco vai receber 4,9 mil milhões em dinheiros públicos, via fundo de resolução, e será dividido entre o banco normal e um bad bank“.

Destacam-se ainda as palavras da ministra das Finanças: “Contribuintes não terão de suportar os custos com a decisão tomada”. Elisa Ferreira, na altura eurodeputada e hoje vice-governadora do Banco de Portugal, temia o impacto deste acontecimento no futuro do país após ajustamento da troika: “Portugal estava a sair do ajustamento e isto não colabora”.

El País

Portugal intervém Banco Espírito Santo

O espanhol El País foi o único entre os grandes jornais internacionais a dar relevo à resolução do BES na primeira página, num assunto tratado pelo correspondente em Lisboa Javier Martín, que contava a história desta forma: “O Banco Espírito Santo, a maior entidade financeira em Portugal, com 94 anos de história, consumou na passada noite a queda devido à gestão irregular dos seus responsáveis“.

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