Viajar de avião é cada vez mais seguro, menos para as seguradoras

  • ECO Seguros
  • 14 Novembro 2019

Se o tráfego no ar está mais seguro, a saturação dos aeroportos em passageiros, máquinas e aviões aumenta os riscos em terra. As seguradoras continuam sem ganhar dinheiro com este negócio.

É cada vez mais seguro andar de avião, conclui a seguradora Allianz na apresentação do do relatório Aviation-Risk-Report-2020, que a sua filial AGCS realizou em associação com a Universidade de Aeronáutica Embry – Riddle, nos Estados Unidos da América. Contudo, isso não significa que este não seja um negócio com risco para o setor segurador. Há riscos e são cada vez mais onerosos.

Se entre os anos de 1959 e 2017 houve 29.298 mortos em 500 acidentes com aviões a jato, entre os anos 2008 e 2017, registaram-se 2.199 mortes em sete acidentes de passageiros, em voos comerciais, em todo o mundo, o que representa um decréscimo de 8% do total, desde 1959. No ano de 2017, pela primeira vez em 60 anos, não ocorreu nenhuma morte por queda de avião.

Aliás, o estudo, que resulta de uma análise a mais de 50 mil participações e queixas apresentadas a seguradoras entre 2013 e 2018, destaca o facto de os últimos anos terem sido “dos mais seguros” na história da aviação mundial. Segundo informação de 2017, do National Safety Council dos Estados Unidos mas usando estatísticas mundiais, a probabilidade de alguém morrer num desastre de avião é de 188.364 para um, mais improvável só ser vítima de um raio em que o risco é 218.106 para um. Morrer pelo ataque de um cão tem uma probabilidade de 115.111 para um, mas de ser atingido por uma arma de fogo é já de 8.527 e a praticar ciclismo 4.047. No entanto, o maior risco é andar de carro onde a probabilidade de morrer por acidente ao longo de uma vida é de 1 em apenas 103.

No entanto, Dave Warfel, chefe regional de aviação da América do Norte da Allianz Global Corporate and Specialty (AGCS), afirma no referido estudo que “o grande volume e magnitude das reclamações tratadas pelas seguradoras da aviação, são, geralmente, subestimados”. E adianta: “A todo o momento, a Allianz processa, sozinha, milhares de reclamações do setor da aviação, incluindo aeroportos e fabricantes. Muitas das queixas dizem respeito a escorregões e quedas mas, mesmo essas, podem ser muito caras”.

Apesar da análise de vários acidentes aéreos, como o da companhia Lion Air, em final de outubro de 2018 e, o da Ethiopian Airlines, em março passado, que registaram um total de 346 mortes, o relatório aponta para uma diminuição dos acidentes aéreos fatais.

Vários pontos positivos são apontados para o aumento da segurança em voo. Os aviões estão mais confiáveis, a cultura e sistemas de segurança melhoraram significativamente, muitos aperfeiçoamentos de design, incluindo aerodinâmicos e melhorias na instrumentação presente no cockpit tiveram um efeito enorme na redução de acidentes.

O estudo dá indicações das grandes realidades:

  • Estima-se que em 2037 o número de passageiros a nível global seja de 8 mil milhões por ano, o dobro do que é hoje.
  • 10 mil milhões de dólares por ano é o custo de incidentes em aeroportos.
  • 360.000 dólares é o custo médio da reparação de uma colisão de um pássaro com um avião.
  • As principais causas de participações ou queixas a seguradoras deveram-se 57% em valor a colisões ou quedas, 12% de defeitos de manutenção ou de mão-de-obra e 6% a falha mecânica.
  • Nos anos mais recentes, os custos com indemnizações têm custado mais às seguradoras do que estas recebem de prémios das companhias aéreas.

Relativamente a queixas e participações a seguradoras, as tendências para 2020, segundo o estudo a AGCS, são:

  • Maior volume e magnitude de reparações e indemnizações: Os motores têm maior necessidade de reparação e os seus custos são superiores. Outras causas são danos causados por objetos exteriores, acidentes no solo, escorregões e quedas de pessoas e erros de abastecimento de combustível.
  • Maior número de colisões, quedas e incidentes de voo: Inclui aterragens forçadas, colisão com pássaros e incidentes na pista em descolagem ou aterragem. Em 10 anos foram 470 as incursões pelo fim da pista.
  • Aeronaves mais sofisticadas: Os motores são mais complexos e existem muitos materiais compósitos, como camadas de fibras de carbono coladas com resina que são leves e fortes, melhorando a eficiência do combustível, mas são mais caras e demoradas de reparar. Tudo é mais dispendioso que as tradicionais ligas metálicas.
  • Paragens de modelos de aviões mais custosas: A maior complexidade de design, tecnologia e fabrico está a levar a paragens de frotas inteiras como foi o caso do Boeing 787 Dreamliner em 2013 ou a mais recente paragem dos Boeing 737 Max. Para além do tempo de diagnóstico e solução para problemas, existe ainda um tempo longo para recolocar as frotas em operação. A aviação civil e as autoridades aeronáuticas estão cada vez mais exigentes em normas de segurança.
  • Responsabilidade civil por passageiro está a aumentar: Uma bateria de advogados especializados na captação de indemnizações por vítimas de incidentes estão a alargar o tipo de queixas face à diminuição do número de sinistros. O potencial de indemnizações por passageiro ultrapassa o milhão de dólares pelo que, no total, um grande acidente aéreo pode custar mil milhões de dólares.
  • Colisões com objetos estranhos mais frequentes: Só em 2018 foram reportadas 14.600 colisões com aves e, destas, nos últimos 5 anos as seguradoras receberam mil queixas, principalmente de embates de aves nos para-brisas dos aviões ou sugadas pelos motores. A média do custo de cada incidente reportado foi de 360 mil dólares, mas só uma chegou a custar 16 milhões.
  • Troca de tipo de combustível: Não é tão raro quanto se possa pensar, os diferentes tipos de combustíveis e aditivos usados causam confusões nas equipas em terra e provocam avarias longas e dispendiosas, com motores danificados e sistemas de alimentação a necessitarem serem substituídos, em resultado de enganos no abastecimento das aeronaves. No limite, este erro pode causar grandes problemas como a paragem brusca de motores em pleno voo.

Quais os grandes riscos que as seguradoras enfrentam:

  • Problemas causados pela falta de pilotos: Serão precisos mais 800 mil pilotos de aviões comerciais nos próximos 20 anos, o dobro dos que atualmente existem, devido ao maior número de aeronaves a operar, da procura por parte de passageiros e à existência de cargas horárias laborais mais restritas. Para já as escolas de aviação estão a registar uma procura crescente, com aeronaves de instrução mais sofisticadas e maior número de sinistros nas aterragens. As seguradoras estão atentas aos riscos que podem resultar de instrução pior e menos transparente de forma a dar resposta à procura e para contornar a fadiga dos pilotos.
  • Excesso de confiança nos sistemas automáticos: à medida que a tecnologia se torna mais complexa, mais ameaçadora se torna a confiança que os pilotos depositam nos sistemas de controlo da aeronave. O estudo recomenda que os pilotos devem ser mais bem preparados para, em casos raros, precisarem de pilotar sem apoios cibernéticos.
  • Alterações climáticas trazem turbulência: As rotas do Atlântico norte, utilizadas por 3 mil voos por dia, serão as mais afetadas pelo aumento da turbulência causado pelas alterações climáticas nos próximos anos. A turbulência extrema pode causar danos estruturais nas aeronaves e uma dispendiosa reparação, mas evitar essas zonas custou cerca de 100 milhões de dólares num ano às companhias aéreas nos Estados Unidos.
  • A febre dos drones: Com a regulação sempre atrás da inovação, os drones começam a ser problemas sérios de segurança. Até fevereiro de 2014 havia zero ocorrências com drones nos Estados Unidos, em junho de 2017 houve 250 casos. No Reino Unido, em 2018, foram 125 os incidentes. A entrada de um drone num motor pode custar até 10 milhões de dólares, adicionando a reparação a todos os custos relativos a uma aterragem de emergência.
  • Ciber riscos: Ataques de hackers, desligamento abrupto de sistemas e violação de dados, foram as ameaças mais consideradas por um inquérito realizado, a CEO de grandes empresas, pela Allianz no início deste ano. Confiando nas tecnologias de informação para reservas, emissão de bilhetes e operações de voo, a indústria aeronáutica está particularmente vulnerável a eventos eletrónicos sejam ataques maliciosos, erros humanos ou falhas técnicas. A gestão deste risco é muito diferente no setor da aviação, do bom ou mau, do muito ao pouco.
  • Acidentes no solo: A capacidade dos aeroportos começa a estar nos limites e muitos já estão a enfrentar problemas de saturação para as suas estruturas. Mais aviões significam maior tráfego também em terra e, só em 14 aeroportos alemães aconteceram 500 acidentes num ano, todos abrangidos por apólices de seguro, envolvendo tratores, trolleys de carga, escadas para aviões e sistemas de lavagem.

Estando o terrorismo fora desta equação, mais objetiva e previsível, o estudo da AGCS reforça a maior segurança que existe ao viajar de avião. Apesar de existirem menos probabilidades de acontecerem incidentes, como há mais aviões no ar e em terra, haverá maior número de ocorrências.

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