Se o coronavírus durar “mais um ou dois meses, paramos todos”, não só o têxtil

Coronavírus está a ter impacto em vários setores, sendo que o têxtil e o vestuário não são exceção. As empresas já sentem o efeitos. Se o surto se prolongar, a situação vai agravar-se.

2019 foi um ano difícil para as empresas portuguesas, especialmente as do setor têxtil. Com a guerra comercial entre EUA e China, a saída do Reino Unido da União Europeia, mas também, e principalmente, com o abrandamento da economia mundial, as exportações o vestuário e o têxtil, a crescer há uma década, caíram. E 2020 não está a ser melhor. Com o peso que a Ásia conquistou no setor, o coronavírus veio agravar a situação. Há quem tenha tomado precauções, mas se o surto continuar, parar é a única solução.

Atualmente, mais de 85% de toda a roupa consumida na Europa advém da China, diz César Araújo. É assim que se explica que o coronavírus esteja a afetar as empresas de têxtil e vestuário, que exportam a sua produção para aquele mercado. A Europa já estava “desequilibrada e que o vírus veio acentuar ainda mais esse desequilíbrio”, diz o presidente da Associação Nacional das Industrias de Vestuário e Confeção (Anivec).

“A Europa está refém da Ásia”, atira o responsável em declarações ao ECO, salientando que, por isso mesmo, “o coronavírus tem um impacto brutal nas empresas”. José Alexandre, presidente da Riopele, uma das têxteis mais antigas de Portugal, diz que o coronavírus, surto que surgiu no final de dezembro em Wuhan, em Hubei, tendo provocado já mais de 2.000 mortes e infetado dezenas de milhares de pessoas, “está a afetar o mundo inteiro”, tanto empresas internacionais como nacionais.

O prolongamento da paragem das fábricas devido ao coronavírus já está a causar impactos a nível mundial (…) e se isto durar mais um ou dois meses, paramos todos, e não é só no têxtil e vestuário”. Não há stocks que resistam.

José Alexandre

Presidente da Riopele

O presidente da Riopele alerta que “o prolongamento da paragem das fábricas [na China] já está a causar impactos a nível mundial”. “Se isto durar mais um ou dois meses, paramos todos, e não é só no têxtil e vestuário. Não há stocks que resistam”, afirma o presidente da empresa que já conta com 93 anos de existência. César Araújo explica que “uma empresa tem o aprovisionamento entre três a quatro semanas, se o vírus se prolongar por muito tempo vai ser dramático”.

No caso particular da Riopele, para já o coronavírus não está ainda a ter impacto na empresa. “Não há qualquer impacto na produção até ao momento (…) o único impacto é que exportamos cerca de 4% para a China e neste momento temos mercadoria que já deveria ter seguido em janeiro e ainda cá está”, explica José Alexandre. Espera conseguir exportar essas encomendas pendentes para a China no próximo mês.

O presidente da Associação Nacional de Vestuário explica que o facto de muitas companhias áreas terem deixado de voar para a China “está a pôr em causa toda a logística e que vai demorar algum tempo a operacionalizar todos os processos”, refere César Araújo.

A Adalberto, que produz cerca de 50 a 60 mil metros de tecidos por dia, e fabrica roupa para grandes marcas como a Inditex, Moschino, Cavallaro, Balenciaga, tomou precauções logo após o alerta. “Assim que houve o alerta do coronavírus nós antecipamo-nos e compramos algumas matérias -primas para eventuais problemas que possam vir a acontecer”.

Susana Serrano destaca que se a Adalberto não tivesse tomado essa medida “provavelmente iríamos ter alguns problemas, apesar de não ter um impacto assim tão grande, uma vez que nós não dependemos muito dessas matérias-primas”, explica a CEO da empresa.

Manuel Serrão, CEO da Associação Selectiva Moda, põe “água na fervura”. Considera que existe “alguma especulação”, sendo “precipitado tirar grandes conclusões” do impacto que o vírus terá no setor. “Acredito que existam um caso ou outro que tenha sido apanhado mesmo no meio do furacão e que esteja com dificuldades, mas em termos do setor, em geral, é muito complicado dar já uma previsão daquilo que vai acontecer”, refere.

Coronavírus pode ser um oportunidade para a Europa

O coronavírus está a ter impacto, podendo este ser ainda mais expressivo caso o surto se prolongue no tempo. É uma ameaça, uma vez que pode condicionar o setor a uma escala global, mas também pode ser uma oportunidade para a Europa. Susana Serrano, CEO da Adalberto, está consciente que o coronavírus pode ter um impacto negativo nas empresas portuguesas, mas também pode dar um novo fôlego ao setor do Velho Continente.

“Nós temos clientes que compravam na China e, neste momento, está toda a gente a querer vir comprar à Europa”, diz. “Podemos encarar esta problemática como uma oportunidade para a Europa. Há clientes que já estão a avaliar o que o continente europeu tem para oferecer”, refere a CEO da Adalberto.

Manuel Serrão corrobora a ideia, salientando que “o coronavírus não afeta as empresas todas da mesma forma, depende das relações que essas empresas têm com o mercado chinês. É evidente que as empresas sentem o impacto, mas acredito que algumas empresas sejam afetadas positivamente”.

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