Porque é que o petróleo vale 25 dólares em Londres e está negativo em Nova Iorque?

Tempestade perfeita afundou os preços do crude WTI e atirou o diferencial face ao Brent para máximos de sempre. Apesar da diferença, em ambas as geografias, não se esperam subidas no preço.

Este é um dia histórico para o mercado petrolífero. Nunca o crude tinha negociado em terreno negativo e nunca a diferença entre o preço do petróleo em Nova Iorque e em Londres tinha sido tão grande. A matéria-prima atingiu esta segunda-feira, no mercado norte-americano, -40 dólares, após uma conjugação de fatores ter agravado a situação no mercado petrolífero.

“Os dois principais motivos para a forte desvalorização do crude são a aproximação do final do prazo dos futuros e a diferença entre a matéria-prima em stock e aquilo que é a procura real“, diz David Silva, analista da corretora Infinox, sobre o tombo do West Texas Intermediate (WTI).

O barril chegou a desvalorizar 300% para -40,32 dólares, num movimento inédito. Nunca valeu tão pouco. A diferença face ao Brent do mar do Norte atingiu quase 65 dólares, o valor mais elevado de sempre. O mercado tem sido castigado pela pandemia e o agravamento aconteceu na véspera de os contratos de futuros de maio atingirem as maturidades.

“À medida que os contratos de futuros se aproximam do vencimento, perdem liquidez uma vez que muitos agentes de mercado não desejam realmente adquirir a mercadoria, mas apenas negociá-la ou especular sobre o seu preço”, explica André Neto Pires, analista e account manager da XTB.

À medida que os contratos de futuros se aproximam do vencimento, perdem liquidez uma vez que muitos agentes de mercado não desejam realmente adquirir a mercadoria, mas apenas negociá-la ou especular sobre o seu preço.

André Neto Pires

Analista e account manager da XTB

Daí que o mercado esteja em contango, isto é, especula-se que o preço atual seja superior ao preço spot (no momento do vencimento). Como os dois preços tendem a convergir na data de vencimento, o preço sente pressão de queda”.

Os investidores direcionam, assim, atenções para os futuros de junho, o que faz com que haja maior liquidez e volume de negociação nos contratos do próximo mês do que nos que terminam esta terça-feira.

No mesmo dia, outras duas notícias penalizaram o sentimento face ao mercado petrolífero. Por um lado, um grande ETF de petróleo dos EUA anunciou que mudará cerca de 20% da sua posição para os futuros de julho, levando à venda de contratos com vencimentos anteriores (maio e junho).

Por outro, a Hin Leong Trading, maior trader de petróleo de Singapura, entrou em falência após esconder a perda de 800 milhões de dólares em investimentos em futuros. Esta conjugação de fatores levou o crude WTI a afundar numa proporção muito superior à do Brent. Isso não significa, no entanto, que o petróleo não tenha desvalorizado igualmente em Londres.

Evolução dos preços do Brent

Preços a subir só com maior ação dos produtores

Também o Brent perdeu esta segunda-feira quase 9% para 25,60 dólares por barril, a prolongar o sentimento negativo que já se vivia, embora mantendo um custo mais de seis vezes superior ao do WTI. “O excesso de produção face à procura real do ouro negro nas últimas semanas, conduziu a uma enorme diferença entre o stock das petrolíferas e o consumo“, aponta David Silva.

O excedente é causado pelo forte impacto da pandemia de Covid-19 na procura por petróleo. Após uma guerra de preços entre Arábia Saudita e a Rússia devido ao desacordo em relação à abordagem ao problema, os maiores produtores de petróleo do mundo — o grupo conhecido como OPEP+ — acabaram por alinhar num corte de produção.

Este grupo — que inclui 23 países, dos quais os 13 são os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) — vai cortar a produção em 9,7 milhões de barris por dia. Mas a estimativa é que a procura por petróleo diminua em 30 milhões de barris por dia devido à pandemia.

Devido ao excedente, há mais de 100 milhões de barris por vender no mundo. Só nos EUA, há 55 milhões de barris em stock, o que representa 72% da capacidade máxima de armazenamento. Este problema foi determinante para o movimento histórico. A situação leva a que os produtores, que começam a estar perto da capacidade máxima de armazenamento, prefiram escoar o produto a um preço mais baixo (ou mesmo negativo) para não atingirem esse mesmo limite ou para evitarem os gastos do armazenamento.

Para voltarmos a ver o petróleo a valorizar nos próximos tempos até ao preço de 30 a 40 dólares por barril, creio que terão de ser tomadas medidas mais agressivas no corte de produção por parte dos maiores produtores.

David Silva

Analista da corretora Infinox

“Para voltarmos a ver o petróleo a valorizar nos próximos tempos até ao preço de 30 a 40 dólares por barril, creio que terão de ser tomadas medidas mais agressivas no corte de produção por parte dos maiores produtores”, diz o analista da Infinox.

Em relação ao Brent, será natural que acompanhe a evolução do preço do WTI, uma vez que, apesar de ser o preço de referência para a Europa, existe uma forte correlação de preços e também a sua procura foi impactada pelo coronavírus”, aponta.

Já o analista da XTB acrescenta que, além de medidas dos produtores, também o levantamento das restrições ao livre-trânsito, bem como a falência ou suspensão de atividades de pequenos empresários, como os produtores de petróleo de xisto nos EUA poderão influenciar os preços. “De outra forma, é provável que a tendência de queda continue a pairar nesse mercado“, diz.

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