Qual a lógica de vender petróleo a preços negativos?

Preço do barril de petróleo atingiu em Nova Iorque, esta terça-feira, um valor praticamente impensável: -40 dólares. Como poderá uma matéria-prima assumir um valor negativo?

Fez-se história em Wall Street esta segunda-feira. Aconteceu algo que nunca se pensou alguma vez ser possível. A cotação do petróleo entrou em queda livre no mercado nova-iorquino, com o preço do barril a entrar mesmo em terreno negativo, indo até ao mínimo de -40 dólares, segundo a Reuters. Impõe-se a questão: como pode ficar negativo o preço de uma matéria-prima, algo que existe fisicamente?

Antes de mais, aquilo que está a acontecer atualmente no mercado petrolífero deve-se a uma questão de desequilíbrio entre oferta e procura. Já é certo que a pandemia do coronavírus vai provocar uma crise económica histórica, ditando uma queda abrupta do consumo de petróleo a nível global, o que já estava a pressionar as cotações da matéria-prima nos mercados internacionais. Situação que nem o recente acordo entre os países da OPEP+ com vista a baixar ainda mais o teto da produção de petróleo conseguiu estancar.

Não só se espera que a queda na procura de petróleo seja superior ao corte, como os EUA não alinharam na estratégia. Segundo a administração norte-americana de informação sobre energia, os stocks de matéria-prima bruta da primeira economia mundial tinham aumentado 19,25 milhões de barris na passada semana, num mercado mundial sobre-aprovisionado.

Um mercado sobre-aprovisionado ajuda precisamente a explicar a lógica de o petróleo como bem físico ter assumido um valor negativo. Com economias praticamente paradas e o consumo de petróleo muito limitado, há necessidade de armazenar a matéria-prima que está em excesso. E isso tem um custo.

Esse custo está precisamente na base do que se passou, esta segunda-feira, no que respeita ao preço do petróleo negociado no mercado norte-americano. Nomeadamente, o facto de o contrato de futuro de maio vir a expirar esta terça-feira. Quem detém esses títulos tinha duas hipóteses: transferir as suas posições para outro contrato futuro para um mês posterior ou ficar com a matéria-prima em termos físicos e procurar vendê-la.

Quando não há procura o mais certo seria ter de manter esse petróleo armazenado, e acarretar o custo que tal implica. Esse custo é de tal forma incomportável, que quem detém esses contratos de futuros prefere pagar para se desfazer deles em vez de suportar os encargos de armazenamento de barris num mercado global praticamente paralisado.

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