Porque é que as vendas de cimento subiram no meio da crise?

A pandemia praticamente parou o país, mas não travou o mercado da construção. Vendas de cimento cresceram. Porquê? Resolvemos o mistério de Centeno.

A pandemia teve um forte impacto em vários setores da economia portuguesa, que registaram fortes quedas na atividade. No entanto, nem todos o sentiram, havendo mesmo alguns que escaparam aos efeitos adversos do Covid-19. Mário Centeno, ministro das Finanças, destacou, com surpresa, o aumento nas vendas de cimento durante o confinamento. Afinal, o que explica este comportamento? O que está por detrás deste mistério?

Apesar de as ruas portuguesas terem ficado quase desertas durante o estado de emergência, ainda era possível encontrar movimento à volta de andaimes e ouvir o som das ferramentas. No mês de março, verificou-se um aumento homólogo de 6,7% nas vendas de cimento, e uma subida de de 0,8 p.p. face ao mês precedente (5,9%), de acordo com os dados do Gabinete de Planeamento, Estratégia, Avaliação e Relações Internacionais do Ministério das Finanças.

Para o mês passado ainda não há dados publicados, mas Mário Centeno adiantou, numa entrevista à TSF (acesso livre), que as vendas de cimento tinham aumentado 11,5%, “surpreendentemente, porque em abril estávamos já no momento mais critico do confinamento”, disse.

Existem algumas razões para este aumento, mas a principal será mesmo que, “apesar da crise da Covid-19, o Estado de Emergência não decretou a suspensão das obras e o que verificamos é um mercado da construção em Portugal surpreendentemente ativo e com um aumento significativo do consumo de cimento face ao ano anterior”, nota fonte oficial da Cimpor, ao ECO.

Habitação continua a todo o gás. Luxo destaca-se

A evolução positiva do consumo de cimento no mercado interno estará também relacionada com outros fatores. Um deles é então o “forte dinamismo no setor da habitação”, que se manteve desde o ano passado, “quer ao nível da obra nova, quer ao nível da obra de reabilitação; nomeadamente no segmento de luxo que está menos exposto a crises conjunturais”, explicou a empresa portuguesa.

A Secil nota também que o aumento do consumo de cimento no mês passado “está em linha com os aumentos que se verificavam no mercado desde o inicio do ano, em consequência do bom momento vivido no setor da construção civil e reabilitação urbana“, ao ECO. Para além disso, o “bom tempo que se registou e que acelera o ritmo de execução das obras” terá também tido um papel.

Grandes obras, grande consumo

Contribuíram também as grandes obras de engenharia, “que apesar do número reduzido representam consumos significativos, mantiveram o seu ritmo normal e sem interrupções, como o projeto da Barragem do Alto Tâmega, algumas infraestruturas públicas Ferroviárias e Rodoviárias”, aponta a Cimpor.

A Secil nota que, para que a atividade neste setor possa manter estes níveis de emprego, volume de negócios e liquidez “é crucial que o Governo adjudique as obras já lançadas a concurso, lance novos concursos dos projetos aprovados e liquide atempadamente os trabalhos públicos já realizados”.

Estas ações iriam garantir “a injeção de liquidez na economia através deste setor de elevadíssima incorporação endógena, tanto de mão-de-obra, como de serviços e materiais de construção”, defende a empresa.

Com mais tempo em casa, portugueses viram-se para bricolage

O aumento nas vendas de cimento nos últimos tempos poderá também estar ligado ao facto de que, com o confinamento e com mais tempo em casa, os portugueses decidiram avançar com alguns pequenos projetos de remodelação, que talvez estivessem na gaveta hã algum tempo.

“Outro contributo significativo, talvez fruto do elevado numero de cidadãos em lay-off e que justifica a procura expressiva do segmento ensacado, terá sido o aumento do interesse por “trabalhos caseiros” de bricolage (Do It Yourself), ou seja, a pequena obra de remodelação”, indica a Cimpor.

Também a Secil refere que a variação positiva de alguns pontos percentuais registada no mês de abril, no consumo deste material usado nomeadamente para a construção, pode resultar de um conjunto de fatores onde se incluiu “o aumento pontual do consumo em clientes domésticos”.

Para além de todas estas razões, a Cimpor aponta ainda que “a escassez ou quase ausência de matérias-primas utilizadas frequentemente na produção de betão pronto, como é o caso da cinza volante, também favoreceu o aumento do consumo do cimento”. A Secil acrescenta que a reposição de stocks nos grossistas terá sido outro fator.

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