Por que reluz tanto o ouro? 3 formas de ganhar com o metal precioso

A pandemia e as suas consequências na economia, as tensões geopolíticas entre EUA e China e as presidenciais norte-americanas são cocktail que faz investidores quererem entrar na "corrida ao ouro".

O ouro ganhou um brilho especial nos mercados financeiros desde o início da pandemia. Visto como um “porto seguro” em períodos de instabilidade política e económica, os investidores não hesitam em refugiar-se no “ouro amarelo”, que tem vindo a registar uma acentuada valorização nos mercados internacionais. E segundo as previsões de vários bancos de investimento, tudo aponta para que o ouro se mantenha como um “refúgio” pelo menos nos próximos tempos.

O ouro superou os 1.800 dólares por onça na última semana, cotação que já não era atingida há quase nove anos — mais precisamente desde meados de setembro de 2011 –, mantendo-se atualmente acima dessa fasquia.

No histórico das cotações, o início da mais recente escalada do ouro remonta a março quando a pandemia se instalou no ocidente, derrubando os mercados acionistas com os investidores a temerem os efeitos do confinamento sobre o desempenho das economias mundiais. Entre o mínimo de 1.469,8 dólares/onça no fecho a 19 de março e o máximo de 1.810,12 dólares atingido a 8 de julho, disparou 22%.

Evolução da cotação do ouro na última década

Fonte: Reuters

“O ouro está a consolidar acima dos 1.800 dólares, com o metal a manter-se nesse limiar apesar de as ações estarem no verde. Isso confirma o elevado apetite dos investidores no ‘metal amarelo’ nesta fase de muita incerteza nos mercados“, dizia esta segunda-feira Carlos Alberto De Casa, analista chefe da ActivTrades, citado pela Reuters, para justificar a escalada das cotações.

Enquanto o ouro valoriza e os receios investidores persistem, o volume de apostas dos investidores na matéria-prima também tem saído reforçado.

Dados do World Gold Council (WGC), apontam para que o investimento em Exchanged Traded Funds (ETF) — instrumento financeiro que permite apostar no metal precioso sem ter de o adquirir diretamente — tenha atingido em junho o volume mais elevado de sempre. No total, as posições em ETF que seguem o ouro ascendiam no final de junho a 3.621 toneladas. Em seis meses, esses fundos engordaram em 734 toneladas — 39,5 mil milhões de dólares (34,78 mil milhões de euros) — superando assim os reforços anuais mais elevados alguma vez registados.

E a expectativa do WGC vai no sentido de que o ambiente económico e geopolítico confira ainda mais suporte ao investimento em ouro. As previsões daquele organismo internacional estão assim em linha com as de muitos bancos de investimento que também antecipam que o interesse no ouro se mantenha, sustentando a respetiva cotação, perante os receios dos investidores que enfrentam a maior ameaça económica desde a “Grande Depressão”.

Rumo aos 2.000 dólares?

E são várias as frentes que jogam em favor do “apetite” dos investidores pelo ouro. A começar pela pandemia. Mais de 12,38 milhões de pessoas já terão sido contagiadas pelo novo coronavírus a nível mundial, sendo que o número de mortes já terá chegado a mais de 565 mil, segundo uma contabilização avançada pela Reuters nesta segunda-feira.

A narrativa do Covid-19 não está a ir-se embora e não pensamos que a Reserva Federal dos EUA vá mudar o curso das taxas de juro nem tão cedo, o que poderá suportar os preços do ouro.

Stephen Innes

AxiCorp

Essa contabilização alerta para os riscos económicos que possam advir da escalada dos contágios, isto ao mesmo tempo que se mantêm os juros em níveis historicamente baixos (favorável ao investimento em ouro). O cenário mais distante de uma “fase 2” para o acordo entre os EUA e a China admitido pelo próprio presidente dos EUA na passada sexta-feira também joga em favor da instabilidade e na aposta no ouro como ativo refúgio.

“A narrativa do Covid-19 não está a ir-se embora e não pensamos que a Reserva Federal dos EUA vá mudar o curso das taxas de juro nem tão cedo, o que poderá suportar os preços do ouro”, dizia Stephen Innes, responsável pela estratégia de mercados da AxiCorp, citado pela Reuters.

Este responsável explica que o outlook de médio prazo para a recuperação económica aparenta ainda ser muito incerto, considerando que tal dá uma ampla margem para que as cotações do ouro valorizem ainda mais.

A opinião de Ole Hansen, analista do Saxo Bank também vai no mesmo sentido. “A incerteza relacionada com a continua subida na contagem do vírus está a adicionar suporte ao mercado… Não há absolutamente nenhuma razão para não manter posições longas pelo menos enquanto pelo menos estivermos acima da área dos 1.765 dólares“, referia o especialista citado pela Reuters.

Estamos a reiterar as qualidades do ouro como uma proteção aos riscos do segundo semestre, como as preocupações das eleições nos EUA, tensões entre a China e os EUA, e do coronavírus, e tudo o que os três possam fazer prever para as ações do banco central.

UBS

Estamos a reiterar as qualidades do ouro como uma proteção aos riscos do segundo semestre, como as preocupações das eleições nos EUA, tensões entre a China e os EUA, e do coronavírus, e tudo o que os três possam fazer prever para as ações do banco central”, explicava a UBS num research publicado há poucos dias, apontando para que o preço da onça de ouro esteja no final de 2020 nos 1.800 dólares, acima dos 1.700 dólares que estimava antes.

Em cenários mais pessimistas há casas de investimento que não descartam mesmo a possibilidade do “metal amarelo” alcançar a fasquia dos 2.000 dólares por onça.

“Consideramos que é uma questão de quando, não se, o ouro pode estabelecer um novo máximo histórico”, dizia Howie Lee do Oversea-Chinese Banking Corp, numa nota citada pela Bloomberg nesta segunda-feira. “O anterior recorde de fecho de 1.900 dólares, está à vista e suspeitamos que o ouro possa tentar os 2.000 dólares antes do final de 2020, se o número de casos [de contágio] nos EUA não diminuir”, vaticinou.

Como ganhar com o metal? Há várias soluções

Face a um quadro de expectativas como estas, quem pretenda refugiar-se no ouro ou tirar partido do investimento nesta matéria-prima tem diversas opções ao seu dispor. Abaixo fique a par de algumas delas.

Ouro físico

Adquirir o metal precioso físico é a forma mas simples e direta de investir em ouro. Essa aposta pode ser feita através de lingotes ou moedas de ouro, que podem ser adquiridos sobretudo em bancos, ou então de joias. Contudo, é necessário ter em conta alguns inconvenientes caso essa seja a opção de investimento escolhida.

Numa análise recente, a Deco alertou para o facto de o ouro estar sujeito a um spread (diferença entre o preço que o banco vende e a que compra) e de os bancos cobrarem comissões de transação (aquando da compra e da venda), e também de guarda, caso o cliente pretenda que o lingote fique guardado no banco.

Fundos que seguem o metal

Também é possível investir em ouro através de fundos de investimento ou fundos cotados em bolsa. Os ETF são uma dessas opções, permitindo ao investidor apostar no metal precioso sem ter de o adquirir diretamente e a partir de quantias baixas. Estes fundos negoceiam-se como se fossem ações, sendo que a sua cotação acompanha a de referência do metal. O resultado do investimento será muito semelhante à evolução da cotação do ouro físico, mas com a vantagem de ter mais liquidez e não perder a diferença entre o preço da compra e da venda.

O investimento nestes ETF pode ser facilmente através dos bancos online como o Banco Best ou o BiG ou em corretoras nacionais. Entre os mais conhecidos estão o SPDR Gold Shares ETF ou o iShares Gold Trust ETF, mas existem outros.

Aconselha-se um investimento mínimo de 1.000 euros, que permita diluir os custos associados, nomeadamente a comissão de gestão e os encargos da negociação em bolsa”, alertava a Deco recentemente a propósito da aposta neste tipo de produto financeiro.

Investir em quem extrai

Outra alternativa para investir em ouro é através da exposição a empresas ligadas à mineração de ouro, produção e outras fases relacionadas com este setor. É uma forma de “apostar” no setor do ouro sem estar diretamente exposto ao preço do metal precioso. Esta “aposta” pode ser feita através de ações ou de fundos de investimento que investem no setor.

Entre as maiores mineiras de ouro do mundo cotadas em bolsa estão empresas como a Newmont Goldcorp, a Barrick Gold, a Agnico Eagle Mines ou a AngloGold Ashanti.

Face à aposta em ações de mineiras individuais, os fundos de investimento apresentam a mais-valia de permitirem uma maior diversificação. Entre os fundos disponíveis para comercialização em Portugal que apostam no setor de mineração de ouro figuram, por exemplo, o Amundi Fds CPR Global Gold Mines ou o Investec Global Gold Fund.

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