Técnicos de Bruxelas admitem que Comissão Europeia é conservadora nas previsões

Numa avaliação às previsões de décadas da Comissão Europeia, os técnicos de Bruxelas concluíram que estas são "satisfatórias", mas identificaram também um conservadorismo constante.

Os técnicos da Direção-Geral de Economia e Assuntos Financeiros da Comissão Europeia (DG ECFIN), que trabalham sob a alçada do comissário Paolo Gentiloni (na foto), fizeram uma autoavaliação às previsões macroeconómicas que têm feito ao longo das últimas décadas e que muitas vezes criam fricções políticas entre Bruxelas e os Estados-membros. A conclusão que tiraram é que as previsões são satisfatórias, estando em linha com as das instituições internacionais, mas podem melhorar, nomeadamente no conservadorismo.

“Verificando-se alguma melhoria na exatidão recentemente, as previsões continuam a mostrar um histórico satisfatório que não se diferencia muito do histórico de previsões de outras instituições internacionais“, escrevem os técnicos da DG ECFIN num discussion paper divulgado esta quinta-feira, explicando que os resultados da sua análise mostram que as previsões da Comissão Europeia representam “em grande medida um horizonte imparcial dos desenvolvimentos económicos de curto prazo”, prevendo tanto acelerações como desacelerações.

Contudo, há espaço para melhoria“, consideram os técnicos. Isto porque as previsões “têm tendência para repetir erros, o que em parte parece estar relacionado com uma avaliação excessivamente conservadora das dinâmicas do ciclo económico e em menor grau a erros nos pressupostos técnicos”, conclui o paper.

Isolando a análise nas previsões do PIB, por exemplo, a OCDE tem um historial ligeiramente melhor, mas a Comissão fica taco a taco com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Porém, é de notar que o timing de publicação das previsões destas instituições não é igual, o que poderá ter influência na sua exatidão dado o diferente nível de informação que existe em cada momento.

Comparação entre o erro médio da Comissão Europeia e o da OCDE nas previsões relativas aos Estados-membros

Quando se olha para as previsões do agregado da Zona Euro e da União Europeia (e não os Estados-membros de forma individual), o histórico da Comissão Europeia é ainda melhor, tendo sido aperfeiçoado recentemente. “O erro médio das previsões para o ano corrente [do agregado da Zona Euro e UE] é estatisticamente e quantitativamente muito próximo de zero em todas as três variáveis [PIB, inflação e saldo orçamental]“, escrevem os autores do estudo.

A questão de “acertar” ou não nas previsões não é só uma questão económica, mas também política. No passado, vários Estados-membros, incluindo Portugal, têm criticado a Comissão Europeia pelo seu conservadorismo nas previsões económicas. Exemplo disso foi o início da anterior legislatura em Portugal, quando a geringonça causava desconfiança em Bruxelas, com as previsões do défice da Comissão a ficarem acima do que viria a conseguir o Ministério das Finanças português no final do ano, que passou a usar esses trunfos como arma de arremesso político.

Mais recentemente, o Governo, também do PS, usou as previsões da Comissão Europeia pelo lado oposto, argumentando que a sua previsão de contração do PIB (-6,9%) estava ligeiramente acima da de Bruxelas (-6,8%), o que para o Executivo mostrava que as previsões do Governo no Orçamento Suplemento não eram demasiado otimistas como criticava a oposição. Contudo, na semana passada, a Comissão reviu as previsões drasticamente, prevendo agora uma contração da economia portuguesa de 9,8%, bem acima dos 6,9% previstos pelo Executivo.

Nesta avaliação, que foi concluída antes da pandemia, foram analisadas três variáveis — o crescimento do PIB, a inflação e o saldo orçamental — em dois horizontes temporais — o ano corrente e o seguinte — durante o período de 200 a 2017, comparando os valores com os que vieram a verificar-se no cálculo dos gabinetes de estatísticas. As conclusões não representam necessariamente a visão da Comissão Europeia enquanto braço executivo da União Europeia.

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