ClearSpace quer seguro para missão de limpeza de lixo no Espaço

  • António Ferreira
  • 2 Dezembro 2020

Portugal financia 1ª missão de remoção de detritos espaciais. Empresa que vai fazer a limpeza disse a ECOseguros que planeia contratar uma apólice. Entretanto, satélites 5G adensam povoamento orbital.

A Agência Espacial Europeia (ESA) acaba de assinar um contrato de 86 milhões de euros para a operacionalização da ClearSpace-1, a primeira missão mundial de limpeza do lixo deixado pelo homem no Espaço. A missão tem um custo estimado em torno dos 100 milhões, cabendo à ClearSpace SA angariar o remanescente de 14 milhões de euros junto de investidores externos.

O serviço de limpeza espacial será prestado pela ClearSpace SA, uma startup criada por uma equipa de investigadores da Ecole Polytechnique Fédérale de Lausanne também responsável pelo design do veículo que fará a remoção dos detritos. A missão tem empresas portuguesas envolvidas no consórcio, nomeadamente ao nível do software de bordo e dos subsistemas GNC (Orientação, Navegação e Controlo), dois sistemas críticos da nave espacial, cuja construção é assegurada por outros parceiros da empresa suíça.

Numa mesa redonda virtual da ESA com a imprensa, Luc Piguet, cofundador e CEO da ClearSpace SA, disse, em resposta a ECOSeguros, que a apólice de seguro não está incluída no orçamento da missão. Mas, a empresa “planeia contratar uma cobertura de responsabilidade face a terceiros, por um capital de até 16 milhões de euros”, revelou.

O objetivo da missão é recuperar o Vespa, um adaptador de carga útil secundário que foi deixado no espaço pelo lançador Vega, em 2013. O Vespa pesa cerca de 112 kg e tem o tamanho de um pequeno satélite que, combinando uma construção robusta e formato simples, torna-o um primeiro alvo adequado para a missão do consórcio industrial. Como resultado da missão, o Vespa será capturado, colocado fora de órbita e destruído à entrada da atmosfera, o mesmo acontecendo com a nave da missão ClearSpace-1, concebida para se autodestruir após cumprir a missão.

Trata-se do arranque efetivo do programa ADRIOS (sigla internacional que designa Remoção Ativa de Detritos e Manutenção em Órbita) aprovado no conselho ministerial da ESA (Space19+), em Sevilha (novembro de 2019), em que Portugal se comprometeu com 7,5 milhões de euros para o financiamento da 1ª fase do contrato. Outros sete Estados membros da organização europeia (Alemanha; República Checa, Polónia, Suécia, Suiça, Roména e Reino Unido) participam no financiamento desta iniciativa de remoção do lixo existente no espaço orbital.

Os benefícios da mitigação de detritos espaciais visando atividades de espaço limpo são múltiplos, começando pela proteção das frotas de satélites em órbita, estendendo-se à dimensão social, económica, geopolítica e científica, explica um documento da PT Space. A acumulação crescente de detritos no Espaço representa risco acrescido de colisões e perturbação das atividades orbitais. Os detritos em órbita, por mais minúsculos que sejam, movem-se a uma velocidade estimada de 28 mil km/h. Um impacto a esta velocidade é equiparado ao rebentamento de uma granada.

Existem mais de 750.000 objetos em órbita com um tamanho maior que 1 centímetro. Esses objetos coexistem com cerca de 3.000 satélites inativos e outros 3200 em operação na órbita da Terra. Todos os anos cerca de 100 toneladas de detritos voltam a entrar na atmosfera terrestre sem controlo. Estes números da ESA justificam “a urgência de desenvolver tecnologia e soluções que permitam a remoção controlada e segura de entulho que a atividade humana deixou no espaço nas últimas décadas”, refere informação disponível na página Agência Espacial Portuguesa (PT Space).

Para prevenir o que a indústria designa por “síndrome de Kessler” (detritos de uma colisão geram múltiplas outras colisões, numa cadeia que se repete em crescendo até que, a certa altura, as missões no Espaço se tornariam impossíveis), a proteção e a segurança do Espaço representam ganhos inquestionáveis.

Dados da ESA estimam que, para a Europa, em consequência de colisões com detritos a destruição de satélites ativos ou a perda definitiva de órbitas específicas podem gerar perdas económicas de atividades espaciais calculadas em mais de 8.000 milhões de euros.

Riscos e seguros em órbita

À luz de uma convenção das Nações Unidas, estabelecida em 1972, sobre Responsabilidade Espacial, o Estado a partir do qual são lançados objetos para o Espaço deve ser responsabilizado pelo pagamento das indemnizações por quaisquer danos causados, por esses objetos, à superfície terrestre ou ao tráfego aéreo. No caso de uma empresa ser autorizada por um Estado a realizar o lançamento, a responsabilidade face a terceiros é transferida para a empresa.

 

Os seguros “em órbita” (in-orbit insurance) não são ainda solução para mitigação do problema dos detritos espaciais, devido, entre outros aspetos, à dificuldade técnica de determinar, com eficácia, a atribuição da responsabilidade de um sinistro a qualquer terceiro operador de satélites.

Fonte: ESA. Ilustração do povoamento de satélites no espaço orbital

Em contraste, o seguro espacial, a apólice mais comum, que visa proteger contra perdas materiais, danos e falhas de funcionamento (sobretudo no lançamento dos veículos), é tipicamente utilizada para cobrir riscos da fase de comissionamento da missão, o primeiro ano da missão no Espaço e alguns meses depois do período de vida da missão, podendo ser renovada anualmente como acontece com os contratos de seguro mais comuns.

Ainda que o risco decorrente de detritos e fragmentos (considerados não manobráveis no espaço orbital) não influa significativamente no valor dos prémios de seguro,
a Swiss Re estimou, em 2018, que o risco de um satélite de até 200kg, semelhante aos da OneWeb e da SpaceX, colidirem com um detrito de até 10 cm aumentará em 90% nesta década, informa um documento da OCDE.

“As vulnerabilidades económicas e sociais decorrentes de perigos espaciais, em particular os detritos espaciais, estão a crescer”, alertou o relatório “Space Sustainability: The Economics of Space Debris in Perspective from the OECD, 2020.

No extenso documento sobre Sustentabilidade do Espaço, publicado em abril deste ano, a OCDE foca em especial a economia do lixo espacial e lista os países que mais detritos espaciais produziram (incluindo corpos de foguetões e destroços em órbita). A estatística, com validade datada de janeiro de 2020, coloca a federação da Rússia (com herança da antiga URSS) em primeiro lugar, com 5163 objetos, seguindo-se os EUA (4897), China (3717), França (508), Índia (131), Japão com 115 e a ESA com 58.

Embora a observação científica e as soluções de modelação venham melhorando, o número e a natureza dos objetos deixados no espaço são incertos e insuficientes à luz das fontes disponíveis. Por isso, explica a OCDE, os operadores não dispõem de conhecimento suficiente para calcular e endereçarem os riscos técnicos e comerciais que enfrentam.

De acordo com o mesmo relatório, com o valor dos prémios a decrescer entre 2010 e 2018, o peso das perdas incorridas superou o montante bruto de prémios de seguro, tornando o negócio pouco atrativo do ponto de vista da rentabilidade. Talvez por isso, em 2019, a Swiss Re decidiu que deixaria de subscrever novas apólices de seguro espacial. Mas esta realidade tem pouco a ver com os detritos, desenvolve a OCDE indicando que os seguros “em órbita” são ainda raros, representando em 2018 cerca de 28% do total do seguro espacial.

No mesmo relatório, a Organização para a Cooperação Económica e o Desenvolvimento cita dados da AXA XL, segundo os quais, as principais causas de danos segurados (1/3 das perdas totais do seguro espacial) estão associadas a falhas nos sistemas de energia dos satélites.

Tecnologia portuguesa na liderança do mercado espacial

A missão operacional da ClearSpace, planeada para se efetivar em 2025, contará com empresas portuguesas em dois dos principais subsistemas do satélite, conforme anunciado em dezembro de 2019.

O projeto ADRIOS é parte do Programa europeu de Segurança Espacial e tem como objetivos principais “retirar os objetos feitos pelo homem deixados no Espaço, bem como desenvolver as competências necessárias para efetuar a manutenção de ativos no Espaço por forma a prolongar a sua vida útil”, explica o site da PT Space.

A associação da Critical Software e a Deimos Engenharia ao projeto europeu de limpeza de detritos espaciais catapulta Portugal para a liderança num dos maiores mercados do futuro no espaço, o da Segurança Espacial, salienta informação no site da PT Space fazendo referência aos desígnios do programa “Espaço Portugal 2030”.

As redes de satélites no Espaço asseguram a infraestrutura para mobilidade pessoal, previsão do tempo, agricultura de precisão, transações bancárias, gestão de recursos preciosos como água potável, monitoramento de incêndios florestais, “o conhecimento científico e o sonho de expandir o alcance da humanidade”.

Estas e muitas outras atividades dependem hoje de dados espaciais e da infraestrutura para gerar esses dados e permitir a sua utilização, nomeadamente ao nível da avaliação e mitigação de risco, redução de catástrofes e melhor gestão do espaço terrestre. Os setores que podem lucrar com soluções baseadas no espaço são inúmeros, desde a agricultura, pesca, infraestrutura, desenvolvimento urbano (incluindo cadastro, uso da terra e mobilidade urbana), transportes e transporte marítimo, comunicação, turismo, defesa e segurança e até mesmo o setor de saúde pública e monitoramento de epidemias.

Alguns destes argumentos são também os que sustentam as vantagens da implementação da tecnologia 5G nas comunicações, uma realidade que implica diretamente com o potencial sobrepovoamento de satélites no espaço orbital baixo (LEO – Low Earth Orbit).

Mega constelações de satélites para a velocidade do 5G

Dados que não são novos indicam que a densidade de satélites ativos e desativados em diferentes órbitas terrestres já é extremamente elevada. A área entre 800 e 1.000 quilómetros acima do solo é particularmente povoada.

Com a crise da pandemia a provar que a internet de banda larga tem inegável utilidade crítica para o trabalho remoto, satisfação das necessidades das pessoas e funcionamento de redes de segurança e sistemas de saúde, um artigo do Earth Institute, da Universidade de Columbia, revisita o histórico das sucessivas gerações nas comunicações, desde a tecnologia 2G, para concluir que não é fácil tomar partido sobre as vantagens e/ou desvantagens da revolução 5G sobre o Ambiente.

No entanto, a corrida ao desenvolvimento e instalação das infraestruturas e equipamento (espaciais, terrestres e até “flutuantes”, como balões e drones) para garantir a operacionalidade de redes ultra rápidas e de cobertura “sem limites” implica os operadores de satélites e eventualmente players das telecomunicações.

Os números relativos aos satélites já colocados ou planeados para colocar em órbita ao serviço do 5G são astronómicos, como provam os projetos da indústria espacial privada. A SpaceX, por exemplo, já obteve autorização para lançar perto de 12 mil veículos Starlink (satélites de internet), tendo já solicitado uma emenda para subir a fasquia às dezenas de milhares (em maio lançou os primeiros 60). Todos estes satélites operam a uma altitude que ronda os 550 quilómetros (zona LEO), mais de 100 quilómetros por cima da Estação Espacial Internacional.

Outra empresa em destaque nas constelações de satélites de telecomunicações é a OneWeb, que planeia colocar em órbita 650 unidades com o intuito de facilitar o acesso mundial às redes 5G. Mas a corrida inclui ainda a Amazon e a Facebook, também entre as empresas com planos para deter redes de satélites 5G.

Por isso, a proliferação de mega constelações de satélites 5G a conviverem com destroços à deriva levanta preocupações, a maior das quais prende-se com o risco de colisões que, teoricamente, potenciam o aumento de detritos e lixo espacial.

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