Digitalização, o futuro do trabalho e sociedade verde. Os temas que marcaram o Web Summit

Com a pandemia no pano de fundo, temas como a digitalização, o regresso aos escritórios e a sustentabilidade marcaram as conversas no Web Summit deste ano.

Mesmo com a pandemia, este ano não passou sem Web Summit, apesar de ser num formato diferente do habitual, totalmente online. A tecnologia já costuma ser um ponto central da conferência, mas assumiu agora novos contornos com as mudanças que a Covid-19 trouxe. A digitalização e o futuro do mundo do trabalho foram assim o foco de vários debates e conversas.

Mas houve também espaço para outros temas, nomeadamente a transição energética e a inovação em Portugal. O ECO reuniu as ideias e frases mais marcantes da edição de 2020 da conferência criada pelo irlandês Paddy Cosgrove.

Digitalização em foco

A transição digital esteve sob a lupa neste evento, nomeadamente pelas várias figuras das instituições europeias. Logo na abertura, Ursula von der Leyen adiantou que quer que os próximos anos 20 possam ser a “década digital da Europa”. Para tal, a presidente da Comissão Europeia sinalizou que é necessário ultrapassar as barreiras burocráticas e complexidade regulatória que as empresas enfrentam quando tentam crescer para outros países.

Já a vice-presidente da Comissão Europeia, Margrethe Vestager, reiterou que tem “expectativas muito altas” para a presidência portuguesa da União Europeia (UE) na área digital, que arranca a 1 de janeiro. A também comissária europeia para a Concorrência apontou que o país tem “feito muito” neste setor.

"Tenho expectativas muito elevadas. Portugal tem feito muito no digital e estão muito focados no tema na presidência.”

Margrethe Vestager

Vice-presidente da Comissão Europeia

A comissária salientou ainda que 20% do Fundo de Recuperação e Resiliência, desenhado pela UE como resposta à pandemia, será focado nisso. Desta forma, espera-se que, “durante a presidência portuguesa, os planos de recuperação sejam lançados”, o que significa que “vai haver muito trabalho digital”, apontou.

Pandemia veio mudar futuro do trabalho

O futuro do trabalho foi um dos grandes temas deste Web Summit, numa altura em que grande parte dos profissionais se encontra em teletrabalho e o regresso ao escritório é ainda uma incógnita. Figuras das plataformas digitais de trabalho, como o Slack e o Zoom, destacaram-se nas discussões sobre este tópico.

Para Eric Yuan, CEO do Zoom, é muito provável que o futuro do trabalho será híbrido, ou seja, os trabalhadores terão a oportunidade de se deslocar apenas alguns dias ao escritório. Para o fundador da empresa, “[através do vídeo] pode encontrar-se com mais parceiros, mais clientes, mais colaboradores. Acredito que as viagens de trabalho serão cada vez menos”, acrescentou. O responsável referiu ainda que ferramentas como o Zoom podem alterar a forma como aprendemos e como vivemos, de forma geral.

A forma como nos vamos relacionar com o escritório nunca mais será igual.

Cal Henderson

CTO do Slack

Já o CTO do Slack prevê que o pós-Covid traga o “fim das secretárias individuais nos escritórios”. O responsável assinalou que “a forma como nos vamos relacionar com o escritório nunca mais será igual”. “A maioria das pessoas quer ir ao escritório alguns dias por semana. Ter flexibilidade de trabalhar de casa. Com isso, a natureza do escritório muda para ser um espaço social e de encontro. O feeling do escritório vai mudar para sempre”, defendeu.

A materialização dessas mudanças será feita, por exemplo, no fim das secretárias individuais na maioria dos escritórios, antecipou. “Vamos passar a distinguir melhor o que são os trabalhos que podem ser feitos a solo e os que têm de ser feitos colaborativamente. E a comunicação será feita mais por canais de mensagens do que por email. E, oxalá, pelo Slack”, brincou.

Noutro ponto de vista, Jason Fried, do Basecamp, alertou para os desafios dos novos regimes de trabalho a partir de casa. “O trabalho remoto trata-se de dar-te o teu tempo de volta e não de recriar o escritório remotamente. E as empresas que estão a fazer isso vão levar os trabalhadores ao burnout, avisou.

Transição energética e uma sociedade mais verde

A transição energética é outro tema que tem estado na ordem do dia e não faltou no Web Summit. O presidente da Câmara de Lisboa falou de alguns desafios que se encontram neste processo, enquanto Bruxelas disse ver Portugal na “pole position da transição energética”.

O vice-presidente executivo da Comissão Europeia encarregado do Pacto Verde Europeu, Frans Timmermans, destacou o papel de Portugal neste pacto, nomeadamente por ter “ativos incríveis que serão úteis na transformação, ter uma população jovem e conhecedora da tecnologia, mas também recursos naturais para fazer da transformação um sucesso”, vento, sol e mar.

O maior desafio são os carros e a mobilidade. A mobilidade é o que mais consome energia fóssil.

Fernando Medina

Presidente da Câmara de Lisboa

“Tudo isto coloca Portugal na pole position para a transição energética”, disse. Por outro lado, um fator que falta é que “não está no coração da Europa”, alertou, sendo por isso necessário “garantir que está ligado ao resto da Europa”.

Já Fernando Medina assumiu que “o maior desafio são os carros e a mobilidade”. “A mobilidade é o que mais consome energia fóssil”, sublinhou o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Fernando Medina, na sua intervenção no Web Summit. Lisboa é este ano a cidade Capital Verde Europeia 2020 e, um dos exemplos da aposta numa cidade mais “verde” foi o programa da câmara municipal criado para apoiar a compra bicicletas, anunciado em julho. Fernando Medina acredita que tem sido “uma experiência promissora”, mas há “ainda muito a fazer”.

"Voltar ao antigo normal não é suficiente, precisamos de dar um passo a frente e fazer um compromisso para futuro.”

Malala Yousafzai

O tema da sustentabilidade foi também abordado pela primatóloga e antropóloga Jane Goodall. A especialista e fundadora do Instituto com o seu nome assumiu que “vivemos tempos negros” em matéria de sustentabilidade e cuidado com o planeta. “É urgente proteger a natureza, e o tempo não é amanhã, é agora. É hoje”, disse.

No campo das alterações climáticas, é de destacar ainda a intervenção da ativista paquistanesa Malala Yousafzai, que sublinhou que as alterações climáticas e a educação de raparigas e mulheres têm uma “correlação”, e que tal é possível ver em casos simples como no aumento das secas e cheias, eventos que travam as idas à escola. A ativista defendeu também que “voltar ao antigo normal não é suficiente, precisamos de dar um passo a frente e fazer um compromisso para futuro”.

Inovação em Portugal

Inovação é um tema que não podia faltar na Web Summit. Logo no arranque do evento, o primeiro-ministro, António Costa, começou por destacar que “2020 não é apenas ano de pandemia. Portugal também saltou para a primeira liga da inovação”, referindo o Plano para a transição digital lançado, no início deste ano, pelo Governo.

Portugal vai pavimentar o caminho para a frente no turismo.

Rita Marques

Secretária de Estado do Turismo

Já no último dia, a secretária de Estado do Turismo reiterou que Portugal vai “pavimentar o caminho para a frente no turismo”, nomeadamente tendo “investido muito no ecossistema” e em áreas como as competências dos trabalhadores, big data e a sustentabilidade, numa intervenção no canal dedicado a Portugal no Web Summit.

Perigos da pandemia

Em conjunto com as oportunidades, os riscos da pandemia, para além do sanitário, também surgiram no evento. Deepak Chopra, médico indiano radicado nos EUA e guru da meditação diz que além da Covid-19, estamos perante a pandemia do “stress”. A pandemia inclui três pandemias. Uma é a pandemia a que chamamos Covid-19, a segunda é a crise económica global que daí resulta e, a terceira é o stress, como resultado de tudo isto”, reiterou.

Já António Guterres sublinhou que a pandemia acabou por aumentar a divisão e desigualdade digital que existe no mundo. Isto já que aqueles sem acesso à tecnologia se veem agora excluídos de oportunidades nomeadamente de educação e trabalho. A pandemia está a “destacar e exacerbar as desigualdades de todos os tipos, incluindo a exclusão digital”, alertou António Guterres. “Aqueles sem acesso à tecnologia digital – quase metade do mundo – têm negadas oportunidades de estudar, se comunicar, trocar, trabalhar e participar de grande parte do que agora é a vida normal para a metade mais rica do mundo”, expôs o secretário-geral da ONU.

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