Novos casos, internamentos e mortes. Estes são os números que levam o país a confinar

O confinamento é a "solução possível", apesar de ter "impacto, não há outra alternativa", indicou o médico de saúde pública Ricardo Mexia.

Portugal está a caminho de um novo confinamento. O Governo sempre defendeu que o país não aguentaria, mas o que é certo é que é isso mesmo que vai acontecer, tendo em conta o agravar da pandemia. Recorde de novos casos, de internamentos e de mortes, que vão estar em análise na reunião do Infarmed, onde estarão reunidos políticos e epidemiologistas, explicam a necessidade de voltar a fechar o país num modelo que, diz António Costa, será “muito próximo do que existiu em março e abril”.

Se antes do Natal a pandemia deu tréguas, havendo sinais de que a segunda vaga da pandemia estaria a ser dominada, passado o período festivo a Covid-19 voltou a atacar — numa altura em que o país e o mundo começam ainda a administrar as primeiras vacinas contra o novo coronavírus. E, desta vez, com mais força do que nunca. Vários países fecharam, voltando a aplicar medidas de restrição rigorosas, sendo que Portugal prepara-se para fazer exatamente o mesmo nos próximos dias.

Ricardo Mexia, epidemiologista e presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, lembra ao ECO que “não é só o confinamento” que combate a pandemia. Para o médico, a comunicação e o reforço dos meios de resposta à pandemia, como os hospitais, são os pontos-chave neste combate. Na sua opinião, o primeiro tem falhado especialmente: “há uma dissociação da realidade, uma normalização dos números, 10 mil casos e as pessoas acham que não têm de mudar nada”.

No entanto, agora o confinamento é a “solução possível”, apesar de ter “impacto, não há outra alternativa”, reconheceu, acrescentando que o país está “a correr atrás do prejuízo”. Os detalhes só serão conhecidos na quarta-feira, dia em que o Conselho de Ministros se irá reunir. Contudo, nada parece evitar que o país acabe mesmo por “fechar”.

"Há uma dissociação da realidade, uma normalização dos números, 10 mil casos e as pessoas acham que não têm de mudar nada.”

Ricardo Mexia

Presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública

A ministra da Saúde classificou a fase em que o país se encontra como “mais pesada e mais complexa”, aguardando-se com esperança os efeitos da vacinação. Porém, esses efeitos “só se alcançarão num prazo de vários meses”, como reconheceu Marta Temido, e os números não mentem: estamos na pior fase da pandemia.

Evolução dos novos casos diários

Na última semana (4 a 10 de janeiro) o país somou 56.435 casos, havendo vários dias em que superou a fasquia dos 10 mil novos casos de infeção por Covid-19 no espaço de apenas 24 horas. O mesmo número de infeções pelo novo coronavírus demorou quase seis meses a ser atingido (27 de agosto) após a pandemia se ter iniciado em Portugal (2 de março). A pior semana, antes desta, deu-se em novembro (16 a 22), com cerca de 35 mil novos casos em todo o país.

No início desta semana, 11 de janeiro, o número de casos permaneceu elevado (5.604), apesar de se tratar de uma segunda-feira, onde os números geralmente são mais baixos devido à menor realização de testes ao domingo. Foi mesmo a pior segunda-feira da pandemia.

Casos ativos no último mês

Com este aumento de casos, seria praticamente impossível os casos ativos não crescerem também. Durante o último mês (de 11 de dezembro a 11 de janeiro) os números mantiveram-se relativamente estáveis, entre os 65 e os 75 mil, mas há 13 dias que não páram de aumentar e, na pior semana da pandemia, tiveram um aumento de mais de 20 mil em apenas cinco dias (a 4 de janeiro passaram os 80 mil e a 9 os 100 mil). A 11 de janeiro os casos ativos estavam perto dos 110 mil (109.312).

Evolução dos internamentos no último mês

Um dos fatores que sempre foi considerado fundamental para a imposição de restrições (ou levantamento das mesmas) foi o número de internamentos. Os internamentos não páram de aumentar desde 2 de janeiro, estando já bem perto da fasquia dos 4.000 — sendo que os internados em Unidades de Cuidados Intensivos chegam aos 567. E com eles aumenta a pressão sob os hospitais e os profissionais de saúde. Provavelmente assim continuará, pois como lembrou o epidemiologista Ricardo Mexia, os atuais internamentos e óbitos ainda não refletem “os [mais de] 50 mil infetados da semana passada”.

Evolução dos óbitos diários no último mês

A variável que mais assusta os portugueses — o número de óbitos — não tem dado tréguas. Na última semana (4 a 10 de janeiro) morreram, em média, 98 pessoas por dia, mais 27 pessoas por dia que na semana anterior (28 de dezembro a 3 de janeiro).

Nos últimos quatro dias foram mais de 100 mortos por dia, tendo atingido o pico esta segunda-feira, 11 de janeiro, com 122 mortes por Covid-19 em 24 horas.

Os números da semana passada irão refletir-se ainda nos óbitos e não há nada a fazer. “Já estão infetados, a maioria irá recuperar, mas uma parte vai ter um desfecho negativo”, notou o médico de saúde pública ao ECO, acrescentando que “a situação pode piorar”.

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