Tesouro dispensa a banca na primeira procura do ano por juros negativos da dívida

Agência liderada por Cristina Casalinho pretende captar até 1.250 milhões de euros em obrigações a 9 e 14 anos. É a primeira operação de um ano que será marcado pela recuperação da pandemia.

Portugal vai experimentar o mercado de dívida pela primeira vez este ano, com uma emissão de dívida de médio prazo esta quarta-feira. Ao contrário do que tem feito nos últimos anos, dispensou o sindicato de bancos e irá avançar com um leilão, numa decisão que poderá permitir poupar na operação. Os juros deverão ficar próximos de 0%.

“Numa venda sindicada há um sindicato de bancos que garante a tomada, o que tem um custo à cabeça mais elevado. Normalmente faz-se por considerar necessário. Nesta fase, poderá não ter sido considerado necessário porque as taxas de juro estão muito baixas. É uma mostra da confiança do IGCP no sucesso da emissão“, considera Filipe Garcia, economista e presidente da IMF – Informação de Mercados Financeiros.

A Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública – IGCP vai realizar um leilão duplo de obrigações do Tesouro (OT) a nove e 14 anos. Se nos últimos anos a agência preferia começar o ano com uma operação maior conduzida por um sindicato bancário, desta vez pretende financiar-se entre 1.000 e 1.250 milhões de euros.

"O mercado continua a acreditar que o Banco Central Europeu (BCE) vai acompanhar as emissões dos países. Se os países emitirem mais, o BCE vai comprar mais. Há uma grande confiança que a dívida não vai ser um problema para Portugal.”

Filipe Garcia

IMF - Informação de Mercados Financeiros

Na operação sindicada conseguem-se montantes superiores. Essa é a principal diferença porque a forma processual e as contrapartes são muito próximas [de um leilão]”, explica Filipe Silva, diretor de investimentos do Banco Carregosa. A escolha de um leilão em vez de uma venda sindicada “não tem a ver com condições de mercado, mas terá sido uma questão de gestão por parte do IGCP“.

Na estratégia para o ano, o IGCP prevê emitir 15 mil milhões de euros em obrigações do Tesouro. Esse dinheiro irá servir não só para contribuir para as necessidades de financiamento do Estado (que totalizam 14 mil milhões de euros em 2021) como para reembolsar os investidores que têm títulos que atingem as maturidades em 2021: há 8.727 milhões de euros a devolver já em abril.

A agência liderada por Cristina Casalinho conta igualmente com 2,9 mil milhões de euros vindos da União Europeia e irá também tirar 6,7 mil milhões de euros que estão nos depósitos do Estado. As emissões de bilhetes do Tesouro (BT) servirão apenas para reembolsar investidores de títulos antigos que atinjam as maturidades. Estes montantes poderão, no entanto, ter de ser ajustados devido à evolução da pandemia.

"Estamos a emitir dívida longa com taxas muito baixas. No passado, começámos por reduzir o custo médio da dívida através dos BT, mas agora já estamos a conseguir reduzir também com OT, o que a longo prazo vai ser muito positivo.”

Filipe Silva

Banco Carregosa

“Estamos a emitir dívida longa com taxas muito baixas. No passado, começámos por reduzir o custo médio da dívida através dos BT, mas agora já estamos a conseguir reduzir também com OT, o que a longo prazo vai ser muito positivo“, diz Filipe Silva, sobre a redução do peso dos juros da dívida para as contas públicas.

A nova dívida emitida teve um custo médio de 0,6% em 2020 (o que compara com 1,1% em 2019), apesar de a dívida pública ter disparado para recordes. Em mercado secundário, as obrigações benchmark, ou seja a 10 anos, negociavam esta terça-feira em 0,052%, depois de ter estado em terreno negativo na semana passada. Ambos analistas consideram que, na emissão desta quarta-feira, os juros deverão ficar próximos — se não abaixo — de 0%.

“Não há motivos para a emissão não ser um sucesso. Temos tido uma subida das yields por causa dos EUA, mas o mercado continua a acreditar que o Banco Central Europeu (BCE) vai acompanhar as emissões dos países. Se os países emitirem mais, o BCE vai comprar mais”, aponta Filipe Garcia, da IMF. Além desta bazuca, lembra ainda a da Comissão Europeia, que dá um sinal político aos mercados. “Há uma grande confiança que a dívida não vai ser um problema para Portugal“, acrescenta.

Juro da dívida a dez anos

Fonte: Reuters

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