BRANDS' CAPITAL VERDE Como podem as finanças sustentáveis contribuir para uma economia neutra em carbono?

  • BRAND'S CAPITAL VERDE
  • 22 Fevereiro 2021

Manuel Mota, Partner EY, Assurance Services, fala da necessidade de os serviços financeiros traçarem estratégias ambiciosas nas finanças sustentáveis e no seu papel para se atingir o net-zero.

As finanças sustentáveis tornaram-se numa prioridade urgente e transversal a todos os serviços financeiros – graças ao objetivo de atingir emissões neutras em carbono (net-zero) até 2050.

Dadas as pressões incrementais por parte de investidores, reguladores e da sociedade, as finanças sustentáveis estão a ganhar um impulso significativo a nível global. Anteriormente consideradas como um nicho e conceito futurístico da comunidade de investimento, estas estão rapidamente a tornar-se numa prioridade estratégica imediata e numa realidade operacional para todos os tipos de serviços financeiros. Pondo de lado a COVID-19, na próxima década, as finanças sustentáveis podem tornar-se no desafio e oportunidade mais urgente para a indústria.

As finanças sustentáveis podem ter diferentes significados em diferentes contextos. A EY define finanças sustentáveis como qualquer forma de serviço financeiro que incentiva a integração a longo prazo de parâmetros ESG (environmental, social and governance) nas decisões empresariais, com o objetivo de providenciar benefícios mais equitativos, sustentáveis e inclusivos às empresas, comunidades e sociedade. A incorporação dos conceitos de ESG no investimento é talvez a manifestação mais notória das finanças sustentáveis, em conjunto com a proeminência crescente dos stakeholders e do capitalismo inclusivo. As finanças sustentáveis têm também um papel crítico relativamente às alterações climáticas no financiamento da transição para a neutralidade carbónica até 2050.

"Não existe uma rota para as emissões neutras em carbono sem os serviços financeiros.”

Manuel Mota

Partner EY, Assurance Services

A magnitude das alterações climáticas a nível global apresenta uma enorme variedade de potenciais riscos, tais como cheias, incêndios florestais, tempestades e outros eventos extremos, que não só perturbam a atividade económica em larga escala, mas também as operações de empresas individuais. A mudança global dos padrões climáticos tinha já começado a mostrar a fragilidade das cadeias de valor em certas indústrias; a COVID-19 veio evidenciar ainda mais esta situação. Os chamados riscos de transição são igualmente importantes. Estes envolvem os impactos financeiros e comercias da mudança para uma economia mais verde (por exemplo, produtoras de óleo e gás afetadas pelos limites nos combustíveis fósseis). Enquanto os riscos físicos estão mais visíveis e presentes hoje em dia, os efeitos crescentes dos riscos de transição na próxima década e além devem também ser tidos em conta.

Manuel Mota, Partner EY, Assurance Services.D.R.

Não existe uma rota para as emissões neutras em carbono sem os serviços financeiros. Os outros setores vão necessitar de suporte – como seguros e financiamento – para gerir o impacto dos riscos físicos e, mais importante, mudar as suas estratégias, modelos de negócio e operações para fazerem a transição. Cinzento apenas se torna verde com finanças. As necessidades financeiras são enormes. Por outro lado, empresas que não façam a transição vão ter mais dificuldade no ganho de financiamento e atração de investimentos. Os consumidores vão também ser afetados, especialmente aqueles inseridos em áreas sujeitas aos efeitos incrementais de condições meteorológicas extremas.

Considerando estes riscos, assim como as oportunidades irrefutáveis, este artigo aborda a necessidade de os serviços financeiros delinearem estratégias empresariais claras e ambiciosas nas finanças sustentáveis e no seu papel na transição para a neutralidade carbónica. Embora existam muitas ações importantes a serem tomadas (incluindo a recolha de dados e o desenvolvimento de modelos e capacidades de reporte), é vital que os bancos, as seguradoras e os gestores de ativos estabeleçam primeiro uma visão geral do que está por vir.

Onde estamos hoje: compromisso, atenção e investimento crescentes

A liderança do setor privado é imperativa na transição para a neutralidade carbónica.

Pelo menos 125 países, incluindo Portugal e metade do G20, comprometeram-se a atingir emissões de carbono compatíveis com o atingimento da neutralidade carbónica até 2050. O objetivo é limitar os aumentos de temperatura até dois graus ou menos nos próximos 30 anos, em linha com as metas estabelecidas pelo Acordo de Paris 2015 e apoiadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) e uma variabilidade de grupos da indústria. Independentemente das políticas em torno das alterações climáticas, os ambiciosos objetivos de desenvolvimento sustentável (ODS) da ONU tornaram-se no modelo global no qual o progresso para deter ou reverter as alterações climáticas (bem como outras questões significativas) está a ser avaliado.

"As empresas de serviços financeiros ampliaram os esforços existentes para reforçar a resiliência operacional e a gestão de risco de terceiros.”

O progresso assenta numa ação coordenada entre os setores público e privado. Os governos nacionais e regionais desempenham um papel crítico no ordenamento de recursos, no estabelecimento de condições regulamentares e fiscais e na promoção – e, em alguns casos, na liderança – da mudança. No entanto, o setor privado é fundamental e em condições políticas e económicas incertas, ainda mais. A COVID-19 causou o caos nas economias e nos orçamentos públicos, de tal forma que muitos líderes internacionais expressaram grandes preocupações no sentido de que a COVID-19 tem atrasado materialmente o progresso dos objetivos de desenvolvimento sustentável. Isto realça a necessidade de liderança do setor privado, mesmo quando os governos em todo o mundo formulam políticas de “reconstruir melhor”.

Tal como acontece com outras indústrias, a maior parte da atenção inicial sobre as alterações climáticas estava nos riscos apresentados por eventos climáticos extremos e nas ameaças diretas a tipos específicos de negócios (por exemplo, produtores de petróleo e gás, companhias aéreas, fabricantes de automóveis). As empresas de serviços financeiros ampliaram os esforços existentes para reforçar a resiliência operacional e a gestão de risco de terceiros.

"Os líderes nestas organizações não percecionam a sustentabilidade como um exercício de compliance ou simplesmente um grande risco, mas como uma oportunidade de aproveitar as vantagens significativas de crescimento que irão acompanhar as principais mudanças macroeconómicas já em andamento.”

Cada vez mais, os principais bancos, seguradoras e gestores de ativos têm-se comprometido publicamente a redirecionar os recursos para alcançar a neutralidade carbónica e outros ODS. Só recentemente o enorme potencial de valorização ficou totalmente à vista. De facto, como sugeriu Mark Carney, o antigo Governor do Banco da Inglaterra e agora US Special Envoy na ONU, “a transição para o net-zero está a criar a maior oportunidade comercial da nossa era”. Outros compararam a escala e a extensão das oportunidades à revolução industrial.

Neste contexto, as empresas líderes estão a organizar os seus recursos e a remodelar as suas estratégias para se prepararem para a rota para a neutralidade carbónica, com a noção de que as finanças sustentáveis irão ser essenciais para atravessar este caminho de forma eficaz. Os líderes nestas organizações não percecionam a sustentabilidade como um exercício de compliance ou simplesmente um grande risco (embora se tenha tornado num importante elemento de compliance e de risco), mas como uma oportunidade de aproveitar as vantagens significativas de crescimento que irão acompanhar as principais mudanças macroeconómicas já em andamento.

Tal previsão é necessária dada a clara tendência, desde medidas voluntárias até ações mais tangíveis, da busca de metas específicas relacionadas com o carbono. Mais mandatos regulatórios são uma certeza. O desenvolvimento de objetivos estratégicos e métricas para rastrear o progresso em relação a estes objetivos deve ser a prioridade – o primeiro passo para as empresas que desejam traçar um curso para um futuro mais sustentável relativamente tranquilo e lucrativo. Os serviços financeiros devem ser parceiros de setores e empresas que percorrem o caminho para a neutralidade carbónica.

Definindo uma estratégia de sustentabilidade autêntica, alcançável e significativa

Onde investir o tempo e recursos para gerir riscos físicos e de transição deve estar no topo da lista.

Configurar a estratégia certa começa com a definição de onde e como as instituições financeiras se devem dedicar à sustentabilidade. Não é apenas uma questão de descobrir as políticas certas, mas de identificar as ações certas para tornar as finanças sustentáveis numa alavanca para o crescimento. Entre as principais perguntas que as instituições financeiras devem fazer, estão:

  • A liderança em questões ambientais (ou sociais) deve ser uma parte essencial do propósito, tal como o é em várias empresas do setor automóvel e de bens de consumo? O nosso envolvimento em questões ambientais (e sociais) é autêntico para a nossa cultura, marca e produtos?
  • Como desempenhamos um papel de apoio ativo na transição para o net zero?
  • Como é que a sustentabilidade intersecta ou influencia a estratégia de negócios e os modelos operacionais?
  • Como determinamos a forma como as alterações climáticas irão afetar as nossas estratégias e operações e como irá mudar a procura do mercado pelos nossos produtos e serviços?
  • Com quem, e como, devemos colaborar para facilitar uma mudança sistémica?
  • O que é mais importante para os nossos stakeholders relativamente ao que fazemos para lidar com as alterações climáticas?

"Uma estratégia de sustentabilidade sólida irá garantir que os riscos físicos e de transição são incorporados nas estruturas de risco e de compliance corporativas, desenvolvimento de produtos, decisões de subscrição e de preços e outros processos importantes de tomada de decisão. ”

Estas perguntas podem levar os Conselhos de Administração e os Executivos Seniores das instituições financeiras a pensar sobre o seu propósito e missão organizacional. As respostas certas vão ajudar a definir as metas de sustentabilidade adequadas à organização – ou seja, aquelas que são autênticas, alcançáveis ​​e significativas, e que estão alinhadas com as necessidades das partes interessadas. Para além disto, as estratégias com maior sucesso serão aquelas que estão integradas no centro do negócio, com o nível certo de liderança e de defesa por parte dos Executivos Seniores.

Uma estratégia de sustentabilidade sólida irá garantir que os riscos físicos e de transição são incorporados nas estruturas de risco e de compliance corporativas, desenvolvimento de produtos, decisões de subscrição e de preços e outros processos importantes de tomada de decisão. Os riscos físicos podem ser mais relevantes para a resiliência operacional, bem como para os riscos de crédito, de liquidez e de balanço. Alguns fornecedores e serviços de subcontratação que providenciam serviços críticos (como por exemplo, call centers ou apoio tecnológico) não estavam preparados para a mudança repentina para operações virtuais. As empresas de serviços financeiros devem avaliar a sua capacidade para manter as operações, assim como a dos negócios que financiam e cobrem, enquanto avaliam possíveis disrupções decorrentes das alterações climáticas. Isto pode levar a decisões difíceis relativamente à combinação de operações off-shore, near-shore ou onshore e de terceiros.

"Para os consumidores, os desafios serão a obtenção de habitação, financiamento e seguros em áreas afetadas negativamente pelas alterações climáticas.”

Os riscos de transição estão na interseção da sustentabilidade com as estratégias de produto e de cliente. Esta situação é transversal a clientes de retalho, institucionais e corporativos. Por exemplo, empresas que não estão preparadas ou que não conseguem encontrar um caminho de transição viável para a neutralidade carbónica podem ter dificuldades em sobreviver, especialmente se os seus fornecedores de serviços financeiros não apoiarem a transição. Para os consumidores, os desafios serão a obtenção de habitação, financiamento e seguros em áreas afetadas negativamente pelas alterações climáticas.

Para bancos e gestores de ativos, é uma questão de definir os segmentos aos quais vale a pena conceder crédito e investimento. Para as seguradoras, é uma questão de ajustar os modelos de subscrição e de preço baseando-se em mais cheias, incêndios florestais e eventos semelhantes – esforços esses que já começaram a ser empreendidos. Como um todo, o setor de serviços financeiros não deve estar sob a ilusão de que pode apoiar a transição sem financiar indústrias intensivas em carbono no curto e médio prazo. Na realidade, as indústrias e empresas “cinzentas” precisam de financiamento para se tornarem verdes.

Um grande desafio para as empresas de serviços financeiros será decidir se, ou como, apoiam a transição. Algumas organizações de serviços financeiros decidiram parar de trabalhar com determinados setores e empresas ou investir nestas mesmas. Isto foi feito por princípio ou para reduzir os riscos de reputação associados. Outras empresas decidiram que o seu papel é o de apoiar a transição através do incentivo e financiamento às mudanças necessárias. Estes acreditam que este plano de ação está mais alinhado com os seus princípios e que os riscos podem ser geridos. É uma decisão difícil para as empresas.

As estratégias de sustentabilidade irão equilibrar os desinvestimentos de alguns setores com o crescente compromisso com outros. Novamente, é uma questão de fazer as perguntas certas:

  • Qual é o nosso caminho no apoio aos nossos compradores e clientes na sua transição para a neutralidade carbónica?
  • Como estamos a tomar decisões sobre onde investir e dar financiamento? Como é que estas decisões se alinham com o nosso propósito e estratégia?
  • Que novas tecnologias oferecem um resultado promissor na transição para a neutralidade carbónica e, portanto, valem a pena financiar ou investir? Quais os setores ou empresas que estão a desenvolver ou utilizar estas tecnologias?
  • Que novos produtos e serviços de mitigação de risco podem ser desenvolvidos para apoiar compradores e clientes? Quais são os modelos de risco ou de portfólio que os nossos compradores e clientes precisam?

No contexto das alterações climáticas, há milhares de milhões de dólares a serem investidos de forma correta, com oportunidades em muitos setores, desde fontes de energia renováveis ​​e construção sustentável a fontes alternativas de alimentos e tecnologias de packaging inteligentes. Por exemplo, a Agência Internacional de Energia projeta a necessidade de US$3.5T em investimentos globais anuais para construir a infraestrutura necessária para uma economia verde.

"Definir um contexto estratégico para as alterações climáticas deve ser uma prioridade de curto prazo, visto que as finanças sustentáveis são um caminho a longo prazo. ”

Dado o amplo consenso de que o ritmo de investimento tem sido muito lento, a vantagem de ser first-mover e fast-follower ainda está disponível para os investidores que deem os passos certos no curto prazo. Um relatório recente da Harvard Business Review confirmou a importância de estratégias robustas: “Os investidores estão a perguntar cada vez mais… não se uma empresa tem boas intenções, mas se tem visão estratégica e capacidade para atingir e manter um forte desempenho ESG.” Se isto é verdade de uma perspetiva de investimento, é também verdade em termos de como as empresas de serviços financeiros tomam decisões sobre se financiam ou garantem que as empresas estão a levar as alterações climáticas a sério.

O que as instituições financeiras devem fazer agora:

  • Identificar a ligação entre as finanças sustentáveis, a neutralidadecarbónica e as missões e propósitos organizacionais.
  • Mapear os riscos e as oportunidades relacionadas com as alterações climáticas, por unidades de negócio, linhas de produtos e geografias.
  • Definir uma estratégia e visão claras para as finanças sustentáveis ​​- o que a organização espera alcançar e como irá atingir os seus objetivos.
  • Identificar a estrutura organizacional correta, incluindo executivos seniores responsáveis e supervisão do Conselho de Administração.
  • Comunicar a visão e estratégia de sustentabilidade aos colaboradores, investidores e outros stakeholders.

"Não é apenas uma questão de definir políticas, cumprir mandatos regulatórios e evitar indústrias “cinzentas”, mas sim de tornar as finanças sustentáveis numa alavanca para o crescimento.”

Visualizando o longo caminho à frente

Definir um contexto estratégico para as alterações climáticas deve ser uma prioridade de curto prazo, visto que as finanças sustentáveis são um caminho a longo prazo. Os bancos, as seguradoras e os gestores de ativos devem participar nos esforços contínuos da indústria para estabelecer padrões de dados e divulgar standards. No entanto, estabelecer um contexto estratégico no negócio mais amplo deve ser uma prioridade, uma vez que este tem um papel decisivo na navegação dos riscos mais significativos e no aproveitamento das vantagens.

À medida que os stakeholders e a sociedade aumentam a pressão sobre as empresas relativamente às alterações climáticas, as instituições financeiras devem decidir como se dedicar à sustentabilidade e à transição para a neutralidade carbónica. Não é apenas uma questão de definir políticas, cumprir mandatos regulatórios e evitar indústrias “cinzentas”, mas sim de tornar as finanças sustentáveis numa alavanca para o crescimento.

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