Nasceu em Baião uma nova geração de vinhos biológicos

Todos os vinhos da A&D Wines produzidos em 45 hectares de vinha assentam numa produção biológica. O respeito pela natureza é um dos segredos do negócio.

A A&D Wines, localizada na sub-região de Baião, intitula-se como o maior produtor biológico da região dos Vinhos Verdes. As parcelas de vinho estão distribuídas pelas propriedades Casa do Arrabalde, Quinta dos Espinhosos e Quinta de Santa Teresa e estendem-se por 45 hectares de vinha com certificação biológica. Por ano são produzidas cerca de 150 mil garrafas de vinho assentes numa produção totalmente biológica.

Com uma tradição familiar de várias gerações na exploração agrícola na região de Baião, o proprietário Alexandre Gomes recebeu como herança uma ligação à terra, às gentes e às atividades do campo que desde cedo o fascinam. Alexandre Gomes e a esposa Dialina Azevedo constituíram em 2005 a sociedade A&D Wines, uma marca que nasceu com o propósito de ser sustentável.

Desde a receção das uvas até ao engarrafamento, a marca tem um cuidado especial para que a vinificação decorra nas melhores condições e o futuro vinho se desenvolva de forma natural e harmoniosa.

A marca de vinhos procura um equilíbrio entre sustentabilidade ambiental, sustentabilidade financeira e qualidade na produção. Foi com esta missão em mente que se tornou no maior produtor de vinho biológico na grande região dos Vinhos Verdes, dizem os seus responsáveis. A A&D Wines, que conta com 16 anos de existência, exporta cerca de 80% da produção para 14 países, sendo os principais mercados EUA, Canadá e Europa Central.

“A produção biológica surgiu naturalmente como um dos vetores principais de uma filosofia de produção baseada no respeito pela natureza, na primazia da qualidade vs quantidade e de intervenção mínima”, conta ao ECO, Dialina Azevedo, proprietária da A&D Wines.

A carta é variada e a A&D Wines tem vinhos para todos os gostos, entre eles a Quinta de Santa Teresa, o Monólogo e o Singular, o Esculpido, a Casa do Arrabalde ou o Espinhosos. Todos os vinhos da marca assentem numa produção biológica. O preço varia entre 6,5 e 20 euros. Avesso, casta originária de Baião, Arinto, Alvarinho, Malvasia Fina, Chardonnay e Sauvignon Blanc são as castas usadas nestes vinhos biológicos.

Dialina Azevedo conta ao ECO que “todas os vinhos são assentes numa filosofia de produção holística, que privilegia um equilíbrio e promoção da sustentabilidade nas suas várias vertentes: ambiental, social e financeira”, destaca a proprietária.

Para além da produção do vinho assente em critérios de sustentabilidade, A&D Wines, que conta com 16 anos de existência, procurou também contribuir para a redução da pegada ambiental através do acondicionamento e transporte das garrafas. A A&D Wines utiliza garrafas mais leves, tendo em conta que o transporte do vinho representa grande parte da pegada ecológica no setor. A proprietária da A&D Wines, Dialina Azevedo, explica que substituíram as garrafas de 700gr por garrafas de 395gr a 470gr, diminuindo assim em cerca de 30% o peso do produto final.

Os produtores de vinho biológico fazem um aproveitamento cada vez mais eficiente dos recursos energéticos e de água e têm em curso vários projetos nesta área, nomeadamente a implementação de painéis fotovoltaicos e carros e máquinas agrícolas elétricos. “O objetivo, a curto prazo, é que as propriedades e produções sejam energeticamente autónomas e livres de combustíveis fósseis”, adianta Dialina Azevedo.

A produção biológica surgiu naturalmente como um dos vetores principais de uma filosofia de produção baseada no respeito pela natureza.

Dialina Azevedo

Proprietária da A&D Wines

Os produtores acrescentaram ainda outro tipo de sustentabilidade — a sustentabilidade social, diz Dialina Azevedo. A A&D Wines procura sempre recrutar na comunidade local, promover o trabalho digno à população de um dos concelhos mais envelhecidos de Portugal, a região de Baião.

“Orgulhamo-nos da nossa terra, da nossa gente e dos nossos vinhos. Incansavelmente, cuidamos e melhoramos as nossas vinhas, respeitando a biodiversidade local. Acreditamos que desta forma alcançaremos a excelência nos vinhos que produzimos”, destaca com orgulho a responsável.

Os objetivos da empresa para os próximos anos passam pelo percurso de crescimento cada vez mais sustentável, a afirmação dos vinhos de Baião e da casta Avesso e a aposta em vinhos de segmento alto.

A A&D Wines também é conhecida pelo enoturismo. Para a proprietária esta é uma forma “interessantíssima de descobrir ou aprender mais sobre determinados vinhos, castas e regiões”. A marca arrancou com este tipo de turismo em 2019, mas estão confiantes que é um segmento que “irá crescer”. “Estamos muito satisfeitos com os resultados e, sobretudo, com o feedback dos visitantes. Fora 2020, ano atípico devido à pandemia, havíamos recebido maioritariamente estrangeiros. Vinham um pouco de toda a parte, mas americanos e canadianos foram sem dúvida as nacionalidades que mais nos surpreenderam na Quinta de Santa Teresa”, conta a proprietária.

Qual a diferença de uma produção biológica nos vinhos?

Para os proprietários da A&D Wines, a grande diferença de uma produção biológica, na ótica do consumidor, passa pela saúde. A proprietária da marca, Dialina Azevedo, destaca que “há muita verdade quando se diz que “somos o que comemos” e que “infelizmente”, e de forma quase paradoxal, “a qualidade das comidas e bebidas hoje é pior do que há cem anos”.

A proprietária conta que com o surgimento da indústria agroquímica, no pós 1ª Guerra Mundial, começaram a desenvolver-se produtos sintéticos, com o propósito de tornar as produções agrícolas mais produtivas, diminuir os recursos humanos necessários, evitar doenças, pragas de insetos, ervas, etc. Todavia para a proprietária, o uso destas técnicas menos ancestrais “tem um preço a pagar”.

Dialina Azevedo alerta que as produções intensivas e os químicos utilizados “promovem legumes e frutas de aspeto muitas vezes imaculado, mas que na verdade está a maquilhar algo que é menos saudável”. A proprietária acredita que “os principais problemas de saúde, no mundo dito desenvolvido, são o reflexo disso mesmo”, refere.

“Para o ecossistema a aplicação destes produtos é terrível e facilmente visível: por exemplo no desaparecimento de quase todos os insetos, os “maus” e os bons. E é sabido que os insetos têm um papel absolutamente vital no ecossistema, nomeadamente na polinização. Os cientistas não têm dúvidas que o diminuir da população de insetos no mundo é um problema sério no combate às alterações climáticas”, conta a proprietária.

E dá um exemplo concreto de diferenças das produções biológicas: “Hoje em dia é usual em produções não biológicas utilizar-se o famoso glifosato, uma solução usada a partir dos anos 70 que é de tal forma tóxica que foi considerada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como um «provável cancerígeno»”.

A Áustria já proibiu a utilização desta solução e a Alemanha pretende fazê-lo, apesar de o uso ser generalizado na Europa, assim como na indústria do vinho. “Pessoas que consumam uma dieta biológica vão evitar ter glifosato no seu organismo, assim como inúmeras outras substâncias tóxicas”, destaca. E acrescenta que a A&D Wines não utiliza na vinha ou no vinho nenhum destes produtos e garante que os “adubos, herbicidas, glifosatos ou inseticidas nunca foram considerados”.

Para a proprietária, os vinhos biológicos não são uma moda, mas sim “uma escolha de um consumidor cada vez mais esclarecido”. Dialina Azevedo conta que nos países mais desenvolvidos da Europa o consumo de produtos biológicos é maior. França é o maior produtor deste tipo de vinhos e a Alemanha o maior consumidor. “79% da produção mundial de vinhos biológicos está centrada em três países: França, Itália e Espanha, os três maiores exportadores de vinho no mundo, que não se limitam naturalmente a reagir a tendências – impulsionam-nas”, conclui Dialina Azevedo.

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