Pandemia agravou peso das rendas no orçamento das famílias de classe média

Nos últimos anos as rendas subiram, mas os rendimentos não famílias não acompanharam este crescimento. A pandemia só agravou este cenário, sobretudo na classe média, alerta o FMI.

Ainda a pandemia não tinha aparecido e já as dificuldades das famílias para suportarem as rendas eram muitas. Com o aparecimento da crise pandémica, a situação só piorou. O Fundo Monetário Internacional (FMI) analisou a evolução desta tendência nos vários países da Europa e percebeu que o cenário se agravou, sobretudo para as famílias de classe média. Aconselha, por isso, os Governos a tomarem medidas, desde logo o reforço da oferta de habitação e a atribuição de subsídios de arrendamento.

Mesmo antes da pandemia, “muitos funcionários de lojas ou restaurantes que moravam em grandes cidades” europeias “tinham de gastar mais de metade dos rendimentos” para pagar a renda. Durante a pandemia, foram muitos os que viram os rendimentos caírem, aumentando a fatia destinada a pagar a renda da casa, refere o FMI, num estudo publicado esta quarta-feira.

No estudo “Affordable Rental Housing – Making It Part of Europe’s Recovery“, a instituição nota que “a pressão sobre o acesso ao mercado de arrendamento tornou-se um desafio em muitas economias europeias” e que, “embora as diferenças entre países e regiões sejam grandes”, na maioria das economias analisadas há uma “grande e crescente parcela de inquilinos de baixos rendimentos e jovens sobrecarregada” com as rendas.

Em vários locais, inclusive, “o acesso [ao mercado de arrendamento] de grupos de rendimentos médios também é baixo e está a diminuir”. Essas famílias enfrentam, assim, um “crescimento dos rendimentos particularmente lento em linha com um aumento dos preços das rendas”.

Estes inquilinos não conseguiram acompanhar o ritmo de evolução das rendas, acima de tudo porque os rendimentos não aumentaram, mas também devido a outros fatores, como a “maior urbanização”, a “transformação estrutural em direção a serviços altamente qualificados” e a “maior incidência do turismo”, que vieram colocar pressão adicional nos preços das rendas, especialmente nos inquilinos de baixos rendimentos.

Os números falam por si. Na última década, o mercado de arrendamento “tornou-se menos acessível em muitas economias europeias” e nas 17 economias que o FMI analisou, uma família típica gastou cerca de 25% dos seus rendimentos com a renda em 2018, enquanto uma família mais jovem gastou quase um terço de rendimentos. E para uma família de baixos rendimentos, a fatia destinada à renda era muito maior: 40%.

“É chocante que em quase três quartos dos países analisados, cerca de metade ou mais dos inquilinos de baixos rendimentos estava sobrecarregada [com a renda] em 2018”, refere o mesmo estudo, notando que o cenário piora entre os jovens de 16-29 anos e nas grandes cidades. Entre 2013 e 2018, o crescimento do preço médio real das rendas foi “especialmente alto” em Lisboa, Dublin e Reykjavik.

Governos devem implementar medidas

O FMI defende, assim, ser necessário um “esforço concertado para conter as pressões no acesso às rendas e fazer do mercado de arrendamento a preços acessíveis um pilar para uma recuperação inclusiva na Europa”.

Esse esforço, refere o estudo, passa por vários caminhos, desde logo pela implementação de “políticas mais musculadas” que garantam que “as famílias de baixos rendimentos e os jovens” beneficiem “dos ganhos económicos trazidos por fatores como a transformação estrutural, as tendências de urbanização e o aumento das atividades do turismo”, que “pressionam o acesso ao arrendamento”.

Dentro deste tópico, entre as principais medidas, a instituição sugere melhorias no acesso à educação, políticas ativas de mercado de trabalho e transportes públicos que aumentem a mobilidade. Ainda assim, o FMI alerta que “isto não é suficiente e precisa de ser acompanhado por políticas habitacionais específicas que, por sua vez, criem acesso ao emprego, à educação e à saúde”.

Apesar disso, o FMI defende uma outra “ferramenta política imediata mais poderosa” que pode ser implementara “a curto prazo”: o reforço dos subsídios para casas modulares. “Dar mais proteção e benefícios suficientes aos inquilinos através de subsídios será fundamental para proteger os inquilinos de baixos rendimentos durante a recuperação económica esperada na Europa,” refere o relatório.

Outra medida importante seria os Governos aumentarem a oferta de casas para aliviar a pressão existente. “Os Governos poderiam investir em mais moradias sociais e ajustar os incentivos financeiros, por exemplo, tributando as habitações vazias e transferindo alguns subsídios habitacionais que favorecem os proprietários de altos rendimentos para o investimento privado no desenvolvimento de habitações”, lê-se.

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