Apax comprou seguradora GNB Vida por 123 milhões, mas já pediu 14 milhões de volta

Venda da seguradora acabou por dar perdas de 250 milhões de euros e podem ser maiores porque o comprador exigiu mais de 14 milhões de volta devido a "informações erradas no momento da venda".

A Apax pagou 123 milhões de euros pela compra da GNB Vida — mais uma componente variável que pode ir até 125 milhões — em 2019, mas já pediu 14,3 milhões de volta ao Novo Banco devido a “reclamações por informações erradas” e outras situações não identificadas. O tema levou o banco a solicitar a autorização, junto do Fundo de Resolução, para que pudesse efetuar o pagamento aos compradores da seguradora a fim de evitar um processo no tribunal arbitral.

“A 16 de janeiro de 2020, o comprador da companhia apresentou reclamações na ordem dos 38 milhões de euros relativamente a várias situações de informações erradas que foram dadas no momento da venda. Isto gerou um conflito com o Novo Banco que levou a propor pagar 14 milhões de euros ao comprador”, revelou esta sexta-feira o deputado do PSD, Hugo Carneiro, na comissão de inquérito ao Novo Banco, que ouviu Paulo Vasconcelos, CEO da seguradora depois da resolução do BES (2014) e outubro de 2019.

O deputado social-democrata acrescentou que foi dirigida uma carta “ao Fundo de Resolução a pedir autorização para o pagamento de 14,3 milhões de euros” por parte do banco ao comprador. “Não temos o feedback posterior”, indicou Hugo Carneiro, questionando se o valor final da venda não terá ficado antes nos 108,7 milhões em vez dos 123 milhões.

Ao que o ECO apurou, essa carta foi dirigida ao Fundo de Resolução no final do ano passado, com o banco a argumentar que devia fechar o acordo com a Apax para evitar um litígio no Tribunal Arbitral Internacional de Paris e que já tinha criado uma provisão de 10 milhões de euros para fazer face a estas situações.

Folgo em saber que só ajustaram 14 milhões”, respondeu Paulo Vasconcelos de seguida.

O antigo CEO da GNB Vida contou que a Apax tinha levantado dúvidas no valor de 28 milhões de euros, relativos a impostos por ativos diferidos. “Eles estavam a reclamar injustamente e chegamos a reunir com os consultores fiscais deles de Londres para explicar esta situação”, contou Paulo Vasconcelos a partir de Lima, capital do Peru.

“Informações erradas… diria que à partida não houve. Nunca foi essa a intenção e à partida não haveria”, acrescentou o responsável.

Em relação à venda da GNB Vida, que veio a gerar uma perda de 250 milhões de euros para o banco, com impacto no Fundo de Resolução, Paulo Vasconcelos considerou que a melhor opção seria vender a seguradora mais tarde, mas essa alternativa não se colocava por imposição europeia. “A alternativa seria não vender a companhia. Se essa alternativa fosse possível, a minha sugestão seria aguardar mais tempo e tentar vender por um melhor preço”, indicou.

A GNB Vida chegou a estar avaliada em 700 milhões em 2013 e em 440 milhões poucos anos mais tarde.

O Novo Banco chegou a ter uma proposta de 190 milhões em 2018, mas a seguradora acabou por ser vendida no ano seguinte por 123 milhões (mais uma componente variável de 125 milhões, em função das vendas nos anos seguintes). Paulo Vasconcelos explicou que o NAV (Valor do Ativo Líquido) teve de ser ajustado em função da correção dos ativos por impostos diferidos — não havia perspetiva de ter lucros para recuperar os ativos, justificou — e da desvalorização do imobiliário.

O antigo líder da seguradora também disse que as notícias negativas sobre o comprador inicial Greg Lindberg, que havia sido indiciado pela prática de crimes de suborno nos EUA, também contribuíram para uma desvalorização da companhia. “Cada notícia má que sai, vai desvalorizando o ativo”, disse, revelando que “foi muito comentado na empresa quando se soube que [Lindberg] estava a ser investigado”.

(Notícia atualizada às 18h14)

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