Britânicos ainda não enchem Algarve, mas hotéis de luxo estão lotados e mais caros

Os britânicos estão de volta ao Algarve, mas só no verão é que chegam em peso aos hotéis Pestana e Vila Galé. Quem já está a beneficiar são os hotéis Tivoli, com taxas de ocupação de 100%.

Os primeiros aviões com turistas britânicos começaram a chegar há duas semanas, o que provocou um disparo nas reservas dos hotéis, embora a grande parte dessas reservas seja apenas para os meses quentes de verão, como explicam ao ECO os responsáveis dos hotéis Pestana e Vila Galé. Pelo contrário, quem já está a beneficiar deste boom inglês são as unidades hoteleiras de luxo, como os hotéis Tivoli, que estão com taxas de ocupação de 100% e cujos preços estão até mais caros do que no ano passado.

Jorge Beldade (diretor regional do Grupo Minor Hotels), José Theotónio (CEO do Grupo Pestana) e Gonçalo Rebelo de Almeida (administrador do Grupo Vila Galé).

No início do mês, o primeiro-ministro britânico anunciou que Portugal estava na “lista verde” do Reino Unido e que, a partir de 17 de maio, os britânicos podiam retomar as viagens de lazer para território nacional. Gonçalo Rebelo de Almeida recorda aquela que foi uma “boa notícia” para o setor, mas nota que “o arranque nas reservas foi relativamente lento”, apesar de ter havido crescimentos de dois dígitos. “Passámos de uma realidade em que as reservas eram zero para uma realidade em que começam a entrar algumas reservas diariamente”, diz o administrador do Grupo Vila Galé.

O alarido à volta deste regresso foi muito, mas Gonçalo Rebelo de Almeida preferiu manter as expectativas equilibradas, uma vez que esperava que o impacto destas reservas se notasse apenas mais para a frente. “O principal impacto vem a partir de meados de junho. E aí sim, vamos dar, em princípio, saltos significativos em termos de ocupação dos ingleses”, diz ao ECO. Por enquanto, o cenário não é assim tão positivo. Dos nove hotéis Vila Galé existentes no Algarve, apenas dois estão abertos, prevendo-se abrir mais quatro a partir de junho. As taxas de ocupação estão nos 15%, detalha.

A partir do momento em que o mercado passou a mensagem de que estava aberto, começámos a ter reservas para junho e até outubro.

Gonçalo Rebelo de Almeida

Administrador do Grupo Vila Galé

O entusiasmo está guardado para “meados de junho”. “A partir do momento em que o mercado passou a mensagem de que estava aberto, começámos a ter reservas para junho e até outubro”, diz Gonçalo Rebelo de Almeida, notando que “já houve, claramente, uma animação do mercado”. Junho e julho são os meses mais procurados pelos turistas britânicos, que ficam hospedados, “normalmente, uma semana”.

O mesmo cenário está a ser vivido nos hotéis do Grupo Pestana. Em conversa com o ECO, o CEO nota que só tinham um hotel aberto no Algarve e que, com a notícia de Boris Johnson, foi possível abrir mais dois, prevendo-se mais duas aberturas para junho. “As reservas que estão a ser feitas são para maio e até agosto”, diz José Theotónio, notando que “a quantidade de reservas para maio e junho teve algum significado”, mas que antes “não havia nada” e de um momento para o outro “começou a haver”.

Ainda assim, nos hotéis Pestana também se nota muita procura para os meses de setembro e outubro. Mas há um “mas”. “O problema é que as reservas para maio e junho estão praticamente confirmadas, enquanto para setembro e outubro confirmar-se-ão apenas se não houver surpresas”, explica, recordando que, no ano passado, também havia “muitas reservas para outubro e novembro e começou tudo a fechar-se”.

O números de britânicos a entrar em Portugal é cerca de 10% do que entrava em 2019. Estão a entrar cerca de 5.000 por dia, mas em 2019 eram cerca de 50 mil. É um bom sinal, mas não é uma explosão.

José Theotónio

CEO do Grupo Pestana

José Theotónio explica, assim, que o “crescimento é exponencial” porque “não havia nenhuns” turistas e “passaram a vir alguns”. Mas que os números absolutos ainda são baixos. “O número de britânicos a entrar em Portugal é de cerca de 10% do que entrava em 2019. Estão a entrar cerca de 5.000 britânicos por dia, mas em 2019 eram cerca de 50 mil. É um bom sinal, mas não é uma explosão”, afirma.

Pelo contrário, quem já está a beneficiar deste boom turístico são os hotéis de luxo do Algarve. Das seis unidades que o Grupo Minor Hotels tem naquela região, metade está lotada. “Tivemos uma procura muito grande — um número muito superior — e imediata para os hotéis de cinco estrelas. Foi realmente uma procura enorme. Os hotéis de luxo estão todos com ocupação de 100% e os outros tiveram um aumento substancial“, diz ao ECO Jorge Beldade, diretor regional de operações da Minor Hotels.

O responsável nota que “também houve procura para julho, agosto e setembro, mas não com a mesma intensidade destes dois meses” [maio e junho]. Exemplo disso são os hotéis Tivoli Marina Vilamoura, Tivoli Carvoeiro e o Anantara Vilamoura Algarve Resort.

Enquanto os hotéis de três e quatro estrelas apontam para 2023 ou 2024 uma chegada aos níveis de 2019, o segmento de luxo está mais otimista. “A nossa perspetiva é de que o verão, no nosso caso, vai ser bastante superior ao verão de 2020 e com possibilidades de ficar muito próximo de 2019, se a situação se mantiver como está”, diz Jorge Beldade.

Hotéis de luxo estão mais caros. Hoteleiros admitem “guerra de preços”

Perante o cenário que o setor do turismo está a passar, podiam esperar-se dois cenários: os hotéis desciam os preços para captar mais turistas ou aumentavam os preços para compensar o tempo em que estiveram sem os receber. A administração Vila Galé preferiu não mexer em nada. “Não alterámos em nada a nossa política de preços, estiveram mais ou menos congelados durante este período”, diz Gonçalo Rebelo de Almeida, garantindo que os hóspedes “irão encontrar preços próximos aos de 2019” nos hotéis Vila Galé.

Por sua vez, o Grupo Pestana decidiu acenar aos turistas com preços especiais. “Para maio e junho fizemos alguns preços de lançamento e para os meses de agosto e setembro fizemos algumas promoções junto dos nossos operadores tradicionais, mas nada muito significativo”, diz José Theotónio, referindo que “o preço médio em relação a 2019 está inferior, mas não muito”.

O aumento de procura foi imenso e por isso é que preço subiu. A subida tem a ver com o facto de os preços serem dinâmicos e se há um aumento da procura, os preços vão subindo.

Jorge Beldade

diretor regional de operações do Grupo Minor Hotels

Uma terceira decisão foi adotada nos hotéis do Grupo Minor. “O preço médio dos quartos vendidos está superior”, diz Jorge Beldade, sem adiantar um valor. Referindo, contudo, que, dependendo do hotel, os preços estão “cerca de 20 euros acima do mesmo período de 2019”. “O aumento da procura foi imenso e por isso é que o preço subiu. A subida tem a ver com o facto de os preços serem dinâmicos”, explica. Os britânicos aguentam com esse aumento? Jorge Beldade acredita que sim. “Isso está comprovado, porque os hotéis estão completamente cheios e a procura diária tem sido grande”.

Esta divergência de cenários pode ser explicada pelo tipo de segmento. Em entrevista ao Expansión, o ministro do Turismo da Grécia antecipou uma “guerra enorme de preços” nos destinos do Mediterrâneo, ou seja, que poderá haver descidas de preços para captar mais turistas. O responsável dos hotéis Tivoli acredita que isso será mais provável de acontecer nos hotéis de três ou quatro estrelas. “Nas unidades de cinco estrelas estamos a notar que os preços têm mais tendência de subida”, diz.

Por sua vez, do lado do Vila Galé, Gonçalo Rebelo de Almeida acredita que “isso tem tudo para acontecer”. E explica. “O mercado encolheu muito, há menos voos e menos turistas. O mercado deverá ser 50% do que seria em condições normais e vai haver uma disputa por esses 50%. Quando há falta de procura, normalmente o resultado é uma queda nos preços”. Espanha costuma ser um destino “mais agressivo” nesse aspeto, mas o administrador da Vila Galé afirma que Portugal tem “tentado valor a qualidade do seu produto”.

José Theotónio sublinha a ideia de Gonçalo Rebelo de Almeida e explica que “estão todos a lutar pela sobrevivência e pela retoma do setor”. “A partir do momento em que começa a haver alguma procura, obviamente é a lei da oferta e os diferentes destinos começam a tentar captar turistas”, detalha.

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