Portugal vai ter uma “business roundtable”. O que é e para que serve?

O modelo vem dos Estados Unidos, junta CEO de grandes empresas e tanto serve para reflexão como para fazer pressão. Chega a Portugal em junho.

Os membros são CEO ou “chairman” de empresas de relevo e o seu propósito é contribuir para a reflexão sobre políticas de incentivo ao crescimento económico e fazer lóbi por medidas que promovam o desenvolvimento dos negócios, sem esquecer as preocupações sociais. Em poucas linhas, é assim que se pode resumir o conceito das “business roundtable”, o modelo em que se inspira a nova associação de empresários que vai nascer em Portugal até ao final de junho.

A história começa em Nova Iorque, corria o ano de 1972, com a fusão entre a Constructers Users’ Anti-Inflation Roundtable, criada para tentar conter os custos da construção numa altura em que os Estados Unidos viviam um período de hiperinflação, e o Labor Law Study Group, que reunia gestores de recursos humanos de grandes empresas. No ano seguinte, juntou-se o the March Group, fundado pelos CEO da Alcoa e General Eletric para debater políticas públicas em áreas como a fiscalidade e o comércio internacional. Nascia a Business Roundtable.

A organização conta atualmente com 223 líderes de outras tantas empresas, que empregam cerca de 20 milhões de trabalhadores e faturam mais de 9 biliões de dólares por ano. Estão lá nomes sonantes como Jeff Bezos, da Amazon, Tim Cook, da Apple, Jane Fraser, do Citigroup, James Quincey, da The Coca-Cola Company, David Solomon, da Goldman Sachs, Jamie Dimon, do JP Morgan, John Donahoe, da Nike ou Doug McMillon, da Wallmart. A ideia é que todos os setores estejam representados.

EPA/MICHAEL NELSONEPA/MICHAEL NELSON

Há um conselho de administração responsável pela gestão e comissões ou grupos de trabalho para as diferentes áreas de atuação. A Business Roundtable norte-americana dedica-se atualmente a 11 áreas, que foram crescendo com os anos: governo das sociedades (o primeiro a que deu relevo), educação e trabalho, energia e ambiente, saúde e reforma, imigração, infraestruturas, comércio internacional, regulação, política fiscal e orçamental e tecnologia.

A Business Roundtable Portugal – é este nome em perspetiva – seguirá a mesma lógica organizativa. Terá uma direção de nove elementos presidida por Vasco de Mello, “chairman” do Grupo Mello, e vários grupos de trabalho, que deverão ser divulgados na apresentação oficial, prevista para a segunda quinzena de junho. As áreas prioritárias já são conhecidas: Educação e reforço das qualificações, capitalização das empresas e aumento da sua escala, o papel do Estado e os custos de contexto.

Um grupo de reflexão e de pressão

O propósito que animou o surgimento da organização é sintetizado numa citação de um dos fundadores, John Harper, da Alcoa: “As empresas devem assumir um papel ativo e combativo no desenvolvimento do conhecimento e apoio ao sistema de mercado livre, restabelecendo a confiança dos cidadãos nos negócios. Sem dúvida, temos muito trabalho pela frente”.

A Business Roundtable assume-se como apartidária, mas ao longo da sua história tem vindo a assumir várias causas políticas. Nas primeiras décadas foi o comércio livre, incentivando entendimentos com o Canadá e o México, que em 1994 conduziram à celebração do Acordo de Comércio Livre da América do Norte, o NAFTA. Em 2012, estava o país à beira do precipício orçamental, deixando o Estado federal sem verbas para salários e outras despesas, quando 168 CEO enviaram uma carta aos líderes do Congresso a alertar para as terríveis consequências de um colapso, que acabou por ser evitado naquele ano.

Mais recentemente, a Business Roundtable celebrou a “reforma fiscal histórica” de Donald Trump, em 2017, que veio ao encontro da sua velha agenda de impostos mais baixos para as empresas. Uma medida que Joe Biden quer agora reverter. Um ano antes, a prioridade tinha sido o investimento massivo em infraestruturas, uma promessa não concretizada pelo Presidente Republicano, mas que o Democrata garante ir cumprir.

O fim da “primazia do acionista”

A organização evoluiu com a sociedade. As críticas ao capitalismo, desencadeadas pela crise financeira, e a importância crescente dada à sustentabilidade ambiental e à inclusão social produziram em 2019 um dos momentos mais marcantes da Business Roundtable, com a alteração daquele que até então tinha sido o mantra das empresas nela representadas: a primazia do lucro e dos interesses dos acionistas. Em 2019, emitiu uma nova “declaração de propósito”, assinada por 181 CEO, onde os acionistas surgem em pé de igualdade com os consumidores, os trabalhadores, os fornecedores e as comunidades se inserem.

O Financial Times descreveu a alteração como “um afastamento significativo da crença fundamental de que as empresas servem os donos do capital – uma filosofia defendida pelo economista e vencedor do Prémio Nobel Milton Friedman e que orienta a América corporativa há décadas”. Na altura, a declaração foi também criticada por não apresentar medidas e metas concretas que responsabilizassem os gestores.

Outra vertente explorada pela Business Roundtable são os inquéritos trimestrais sobre as expectativas dos CEO, com os quais é construído um índice. O último, referente ao primeiro trimestre, já sinalizava um maior otimismo em relação ao crescimento da economia nos seis meses seguintes, com uma aceleração da retoma.

Paulo Azevedo, Chairman e Co-CEO da Sonae na apresentação de resultados de 2018, na MaiaRicardo Castelo

O conceito cedo extravasou as fronteiras dos Estados Unidos. O vizinho a norte tem o Business Council of Canada desde 1976 e na Europa existe desde 1983 a European Round Table for Industry (ERT), que visa “promover a competitividade e prosperidade na Europa”, focada em oito áreas de influência. São membros da ERT os CEO e “chairman” de 60 grandes empresas de vários países, como a L’Oréal, Telefónica, Nestlé, BASF, Rolls-Royce, AstraZeneca, SAP ou ArcelorMittal. Portugal é representado por Paulo Azevedo, presidente do conselho de administração da Sonae.

Em junho, 42 empresas darão à luz em Portugal este misto de “think tank” e grupo de lóbi, que quer criar um ambiente mais favorável às empresas e ao crescimento da economia, para tirar o país da cauda da Europa.

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