Mariana Vieira da Silva, a CEO do novo Governo

Se António Costa é o "chairman" que define a orientação política, Mariana Vieira da Silva será a líder executiva responsável pela coordenação do Governo, pelos recursos humanos do Estado e pelo PRR.

Se o anterior Governo tinha quatro ministros de Estado, a versão “task force” de António Costa tem apenas Mariana Vieira da Silva como número 2 e “superministra”. A socialista vai acumular a responsabilidade pela coordenação política do Governo, a gestão da Administração Pública e do dinheiro dos fundos europeus. É uma espécie de CEO no novo Governo.

Se há alguém que ganha poder na estrutura orgânica do XXIII Governo é a ministra da Presidência, cujo ministério é o segundo na hierarquia. Já era o braço-direito do primeiro-ministro e pivô política dos Executivos socialistas. Agora junta também a gestão da Administração Pública e dos seus mais de 733 mil funcionários e a coordenação do dinheiro europeu, que entre PRR e os quadros comunitários, chegará ao país em somas recorde.

Filha de José Vieira da Silva, um “barão” do PS, e da sua primeira mulher, a economista Margarida Guimarães, Mariana Vieira da Silva é licenciada em sociologia pelo ISCTE. O primeiro cargo num Governo foi como assessora de Maria de Lurdes Rodrigues, ministra da Educação do primeiro Executivo de José Sócrates. No segundo, foi adjunta de Almeida Ribeiro, Secretário de Estado Adjunto do primeiro-ministro, a primeira experiência nas funções de coordenação política que têm marcado a sua carreira.

Quando chega ao poder, António Costa escolhe-a para secretária de Estado Adjunta do Primeiro-Ministro. Segundo o Observador, é a terceira pessoa mais nova a ocupar o posto (37 anos) e a primeira mulher. A preparação dos debates quinzenais no Parlamento era uma das suas missões. Em fevereiro de 2019, substituiu Maria Manuel Leitão Marques como ministra da Presidência e da Modernização Administrativa, assumindo o papel central na coordenação do Executivo. No XXII Governo Constitucional já entra como Ministra de Estado e da Presidência.

A sua proximidade com o primeiro-ministro estende-se ao Partido Socialista, onde há vários anos é dirigente, fazendo parte do secretariado nacional. Foi também uma das coordenadoras do programa eleitoral do PS para as legislativas.

Numa escolha carregada de simbolismo, Mariana Vieira da Silva foi também a autora e porta-voz da moção de estratégia global do secretário-geral no último Congresso do PS. Curiosamente, numa altura em que esteve como chefe de Governo em exercício, porque António Costa, Pedro Siza Vieira e Augusto Santos Silva estavam de férias.

Reservada, esteve sempre mais nos bastidores, sobretudo no primeiro Governo da era Costa, mas foi-se chegando à frente. Com a covid-19, tornou-se o rosto das medidas de combate à pandemia, a seguir ao primeiro-ministro. Com a menor incidência da doença, assumiu mesmo a primazia.

Fernando Medina terá sido o primeiro a reparar nas suas qualidades e queria-a no seu executivo na Câmara Municipal de Lisboa, caso António Costa saísse para primeiro-ministro, segundo conta o Observador. Não teve essa oportunidade, pois o líder socialista acabou por levá-la para o Governo. Agora reencontram-se no Conselho de Ministros, mas com Mariana Vieira da Silva acima na hierarquia.

O trabalho feito e a confiança explicam o protagonismo que o primeiro-ministro lhe quis dar no novo Executivo. Consigo terá três secretários de Estado — Presidência do Conselho de Ministros, Planeamento e Administração Pública — para outras tantas áreas de grande peso político.

A Administração Pública promete trazer dores de cabeça. O Orçamento do Estado para 2022, chumbado em outubro, prometia um aumento de 0,9% nos salários do Estado, já considerado “insuficiente” pelos sindicatos. Só que entretanto a inflação saltou para os 4%. Mesmo que a atualização venha a subir na nova versão do OE, haverá sempre uma perda de poder de compra significativa, que as estruturas sindicais não se coibirão de contestar. O número de pré-avisos de greve já vinha a crescer em 2021 (mais 20%).

O cargo de “CEO” aplica-se também à gestão do dinheiro que vem da União Europeia. Mariana Vieira da Silva será responsável pela coordenação política do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) e dos restantes fundos europeus. Tirando as verbas destinadas à Administração Pública, a execução setorial caberá depois aos seus colegas com as pastas da Economia, Ambiente, Infraestruturas e Habitação, Coesão Territorial, etc.

António Costa contará também com a sua ajuda para manter a coesão e paz num Governo onde vão coabitar vários potenciais candidatos à sua sucessão, incluindo a própria. Os outros são Pedro Nuno Santos, Fernando Medida e Ana Catarina Mendes. Uma situação que, segundo Marques Mendes, antigo líder do PSD, pode dar azo a conflitos. “Esta situação pode fomentar uma guerra de guerrilha. Cá fora serão só sorrisos. Dentro do Governo estarão a vigiar-se uns aos outros. A fazerem marcação uns aos outros”, afirmou no seu espaço de comentário na SIC, ao domingo à noite.

A escolha do líder do PS pode ser lida como uma rampa de lançamento para a sucessão. Embora a própria diga que a liderança do PS “não é o mais provável, de todo”, também afirma que “é inevitável que o PS venha a ter uma secretária-geral”.

Se a diferença de protagonismo no Governo é evidente, a única outra mulher que com ela rivaliza no plano político é Ana Catarina Mendes, que nos últimos anos também se tem vindo a afirmar no partido. A até aqui líder parlamentar do PS será a nova ministra Adjunta e dos Assuntos Parlamentares, ficando com as secretarias de Estado da Igualdade e Migrações e da Juventude e do Desporto.

Aos 49 anos, depois de mais de 26 como deputada, a jurista e comentadora residente no programa Circulatura do Quadrado vai exercer o primeiro cargo no Governo.

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