Prejuízos da CP encolhem 31% em 2021, com “fortes constrangimentos” de tesouraria

Transportadora ferroviária assume "fortes constrangimentos" de tesouraria em 2021 e aguarda reestruturação da dívida. Greves prejudicam comboios realizados e obras atrasam horas de chegada do Alfa.

Os resultados da CP continuaram nos carris dos prejuízos em 2021. No último ano, a transportadora ferroviária pública registou resultados negativos de 65,6 milhões de euros. Ainda assim, o desempenho melhorou 31% face a 2020: no primeiro ano da pandemia, a empresa tinha ficado com perdas de 95,4 milhões de euros. O desempenho financeiro da transportadora, contudo, deveria ter sido menos negativo, refere o relatório e contas do ano passado, divulgado no início desta semana.

No Plano de Atividades e Orçamento para 2021, estava previsto que os prejuízos da CP tivessem sido de 16,5 milhões de euros. O atraso da entrada, na conta bancária da empresa, do acerto de compensações financeiras relativo a 2020 ajudar a justificar a diferença entre a expectativa e a realidade.

“O resultado líquido de 2021 foi de -65,6 milhões de euros, cerca de 49 milhões de euros pior que o previsto. Para esse desvio contribuiu, fundamentalmente, o facto de o acerto das compensações financeiras pelas obrigações de serviço público prestadas em 2020 aguardar visto do Tribunal de Contas”, refere o documento. O montante do acerto de contas é de 80,9 milhões de euros e foi aprovado no Conselho de Ministros de 11 de novembro de 2021.

Só em subsídios de exploração, a CP deveria ter recebido um total de 158,38 milhões de euros; na realidade, entraram na conta 89,39 milhões de euros, menos 69 milhões de euros.

As receitas de tráfego da CP subiram para 172 milhões de euros, mais 4,6% do montante inicialmente previsto, por causa do “desvio da procura” e das “comparticipações extraordinárias recebidas no âmbito do programa de apoio à redução tarifária”. Em 2021, a empresa transportou 99,1 milhões de passageiros, mais 14% do que em 2020 e acima dos 94 milhões de utentes inicialmente previstos.

Greves diminuem comboios

As greves dos trabalhadores da CP e dos funcionários da Infraestruturas de Portugal (gestora da rede ferroviária nacional) diminuíram o número de comboios realizados durante o ano passado. O índice de regularidade baixou de 99,2% para 98%, ou seja, 2% de todos os comboios programados ficaram por realizar, por conta das paralisações.

O serviço internacional – reduzido ao comboio Celta, entre Porto e Vigo, registou o pior desempenho, com 95,8% de regularidade – o que compara com os 98% do ano anterior. O segundo pior comportamento verificou-se nos comboios suburbanos de Aveiro, com 97,1% – menos 2,3 pontos percentuais face a 2020.

Em sentido contrário, os comboios mais frequentes circularam nos serviços suburbanos que servem os distritos de Braga e de Guimarães, com 98,7%, menos 0,9 pontos percentuais face a 2020.

Alfa com 30% de atraso

Em média, as composições da CP chegaram a horas ao destino em 87,3% das viagens, numa melhoria de 1,2 pontos percentuais na comparação com 2020. É considerado como pontual o comboio que tem atrasos de três ou menos minutos no serviço suburbano e de cinco ou menos minutos em deslocações regionais e de longo curso.

O comboio Celta apenas foi pontual em 36,4% das viagens – ainda assim, melhor do que os 34,8% de 2020.

Também no longo curso, o Intercidades chegou mais vezes a horas em 2021 do que o Alfa Pendular: 75,6% para o Intercidades e 71,9% para o Alfa Pendular, serviço de topo da transportadora. Em 2020, o Alfa Pendular tinha sido pontual em 76,7% das viagens; no Intercidades, isso tinha acontecido em 74,6% das ocasiões.

Os atrasos são justificados com as “limitações de velocidade” impostas na rede ferroviária nacional, gerida pela IP.

Os comboios mais pontuais de 2021 foram os da Linha de Cascais, com 91,7%, apesar do decréscimo de 2,5 pontos percentuais na comparação com 2020.

A melhoria da pontualidade registou-se, sobretudo, nos comboios regionais e nos comboios suburbanos entre Porto e Marco de Canaveses, por causa da conclusão da eletrificação da Linha do Minho e da reabertura do troço Covilhã-Guarda, na Linha da Beira Baixa.

Mais 48 trabalhadores e horas extra

A CP terminou 2021 com um total de 3784 trabalhadores, mais 48 do que em 2020. Apesar de terem ingressado nos quadros 135 novos elementos, houve 87 saídas durante o último ano. Três em cada quatro retiradas da empresa deveram-se a reformas.

Nota ainda que mais de 10% do trabalho feito na CP é feito em horas extraordinárias, exercidas sobretudo pelos funcionários do departamento comercial e das operações. Revisores e maquinistas são duas das funções que mais trabalham para lá das horas regulares.

Resolver dívida histórica

Entre as perspetivas para 2022, a CP conta com o “saneamento da dívida histórica”, avaliada em 2,132 mil milhões de euros no final de 2021. Nesse pressuposto, e com a recuperação da procura e da atribuição das compensações ao abrigo do contrato de serviço público, “prevê-se que a CP passe a apresentar a curto prazo uma situação financeira equilibrada e sustentável”.

A transportadora apenas poderá reganhar a desejada autonomia caso seja concretizada a reestruturação de 80% da dívida histórica. Contudo, o ‘perdão’ de 1,815 mil milhões de euros depende da aprovação da Direção-Geral da Concorrência.

Portugal terá que provar que a dívida que é anulada é a que existia antes da liberalização do mercado, evitando uma ajuda de Estado. Praticamente toda a dívida histórica da empresa foi contraída em décadas anteriores por suborçamentação do Estado e que obrigou a transportadora a aumentar o passivo.

A empresa conta ainda transportar mais passageiros em 2022 do que no ano passado, embora a procura deverá “manter-se ainda significativamente abaixo do registado nos anos anteriores à pandemia”. Em 2019, houve 144,89 milhões de passageiros na CP.

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